Red Ballon (Paul Klee, 1922)Os sonhos costumam carregar um certo teor de misticismo, seus conteúdos atraem nossa curiosidade e atiçam um pensamento imaginário que nos faz imaginar que eles estão dizendo alguma coisa para nós – de fato, eles nos dizem muito. Ao longo da história, a análise dos sonhos desperta curiosidade desde a Grécia Antiga. Aristóteles em 384 a 322 a.C. dizia que sonhar é uma atividade mental natural durante o sono e que, assim como os processos psicológicos da imaginação, do pensamento e da lembrança, são constituídos os sonhos.

Interessante notar que para Aristóteles já naquela época, os sonhos eram concebidos enquanto fenômenos naturais relacionados aos processos psicológicos que vivemos durante o estado de vigília, embora, vale ressaltar, que o mesmo era um defensor do dualismo mente e corpo. Por outro lado, em 1990, Aristemidoro dizia que os sonhos são diferentes da percepção e imaginação, para ele, a natureza dos sonhos nos revela o futuro e o passado, constituindo-se enquanto algo sobrenatural.

Jung, que costuma ser chamado de psicólogo, inclusive é visto nos cursos acadêmicos, embora ele parece-me mais um místico e não alguém interessado em produzir ciência, dizia que há dois tipos de sonhos, os insignificantes que retratam problemas do cotidiano, e os significativos, que transmitem a sabedoria milenar da humanidade.

Freud, de 1856 e 1939, finalmente, produz uma obra que tem um valor significativo enquanto conhecimento científico relacionado aos sonhos. Para ele os sonhos refletem conteúdos individuais, em geral, relacionados à satisfação de desejos ou pulsões reprimidas. Em Freud os sonhos ocorrem de acordo com as vivências pessoais de cada um, tendo relação direta com a experiência da vida cotidiana. Nesse sentido, os sonhos retratam conteúdos passados ou presentes da vida individual, embora, em expressões diferentes, muitas vezes, metafóricas.

Na psicanálise os sonhos assumem grande significados para se trabalhar, já que podem revelar e esclarecer o que está por trás dos sintomas psicológicos que a pessoa experiencia durante as vivências. Porém, necessitam de análise, pois estão “criptografados” (Freud não usa esse termo), uma vez que a censura que o aparelho psíquico exerce nos elementos inconscientes, torna os conteúdos manifestos de difícil reconhecimento.

Essa forma de análise dos sonhos é trabalhada pelo psicanalista, que segue uma determinada abordagem e concepção de homem baseada nos pressupostos de Freud entre outros psicanalistas com variados graus de divergências com a psicanálise tradicional.

Há outras formas de análise dos sonhos, nas terapias cognitivas e comportamentais, por exemplo, os sonhos também têm sua importância no sentido de revelar dados da vida real. Uma das principais divergências com a análise dos sonhos proposta por Freud é o fato de não entender que os processos oníricos são sempre “secretos”, necessitando de uma forma de decodificação específica para entendê-los.

Analisando os sonhos, o terapeuta cognitivo busca identificar os padrões cognitivos que são ativados e que são próprios do sujeito, tendo em vista modificar os esquemas disfuncionais do pensamento. Para os cognitivistas a pessoa que sonha está participando ativamente dos materiais visuais processados nos sonhos e experienciando emoções provenientes dos temas de sua vida.

Os terapeutas comportamentais, por outro lado, fazem uso variado de técnicas para se trabalhar com análise dos sonhos, enquanto coleta de dados, elemento do processo terapêutico ou como avaliação dos efeitos da terapia. Eles não buscam desvendar nenhuma resposta “profunda” que estaria por trás dos sonhos, mas sim, se interessam pelo processo de análise em si para o progresso do tratamento.

Para os comportamentais os diálogos durante os sonhos são construções originais que reagem de acordo com a dinâmica dos acontecimentos sonhados e não repetições de diálogos vivenciados em estado de vigília. A forma como a pessoa se comporta nos sonhos diz respeito à sua história de aprendizagem nas vivências acordadas, o que pode revelar variáveis que controlam o comportamento do sujeito para se pensar em uma possível intervenção.

Conclusão:
Os sonhos são materiais altamente valiosos para ser usados principalmente quando o cliente já não consegue trazer conteúdos da sua vida real para análise, ou quando o mesmo tem dificuldades para comunicar seus problemas. Os sonhos costumam sofrer menos censura social, o que faz dele uma importante fonte de dados para investigação. Importante também ressaltar, que o terapeuta não é místico no sentido de adivinhar significados dos sonhos que encerram por si mesmos, pelo contrário, é um condutor que deve desempenhar um papel colaborativo com o cliente na tentativa de buscar um sentido para os sonhos, não necessariamente um único.

De qualquer maneira, no meio científico os sonhos nunca estarão relacionados ao sobrenatural, necessariamente, sempre irão trazer em tona, conteúdos que têm alguma relação com as vivências passadas ou presentes de cada um. São contínuos da vida real, isto é, estão diretamente relacionados com o que cada um vive no estado de vigília.

Há várias abordagens psicológicas que vão trabalhar com esse material de forma diferente, os produtos, necessariamente, serão diferentes. Na psicanálise os sonhos revelam verdades que estão ocultas, estando relacionados à traumas passados ou sintomas do cotidiano. Na comportamental os sonhos não têm nenhuma verdade oculta, são construções buscadas juntas, buscando através dos comportamentos tidos nos sonhos a relação funcional com a história de vida do cliente. Já os cognotivistas concebem os sonhos enquanto material que revelam as temáticas de vida de cada um, devendo ser investigadas à luz dos padrões cognotivistas do cliente.

Em síntese, os conteúdos oníricos expressam metaforicamente crenças, atitudes, pensamentos e comportamentos relacionados às idiossincrasias de cada um. Buscar analisar os próprios sonhos, relacionando-os com os componentes ambientais que controlam o comportamento, pode servir como estimulador para o pensamento criativo e ativo na busca de um sentido para as vivências, revelando muitas lições que podem servir para guiar um cotidiano menos conflituoso.

*Imagem: Red Balloon, Paul Klee, 1922

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