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Nietzsche contra o “Penso, logo existo” de Descartes
21jun2008 Categoria(s): Filosofia Autor: adv
“Penso, logo existo” (1637), essa foi a base do saber moderno, lançado pelo dualismo substancial de Descartes. Para Descartes a subjetividade era constituída por uma unidade de duas substâncias de natureza distintas: 1) alma (intelectualidade, razão, consciência, mente) e 2) corpo (substrato material).
“‘Eu sou corpo e alma’ – assim fala a criança. E por que não se deveria falar como as crianças?”, essa foi a ironia de Nietzsche dentre outras várias, lançadas pelas primeiras palavras de Zaratustra (1885), tempos depois, devidamente bem elaborada em sua metralhadora giratória contra o saber moderno, a obra “Para Além de Bem e de Mal (1886)”
Nas palavras de Zaratustra, retrata-se em tom sarcástico, aos desprezadores do corpo, a ingenuidade, algo como uma “brincadeira de criança”, a possibilidade de conceber a separação entre corpo e alma (razão e emoção; corpo e mente).
Em “Para Além de Bem e de Mal”, Nit abala em tom mais sério, sem perder a ironia, aponta:
“Alguma superstição popular proveniente de tempos imemoriais (como a superstição da alma que, como superstição do sujeito e do eu ainda hoje também não cessou de provocar disparates), algum jogo de palavras, talvez, uma sedução de parte da gramática, ou uma ousada universalização de fatos muito estreitos, muito pessoais, muito humanos, demasiado humanos.”
Nesse pensamento de Nit, expõe-se o quão grosseiro (característica das brincadeiras de criança) é o intelectualismo da metafísica que se faz enquanto um saber superficial, simplista e filosoficamente imaturo.
Para Nit é impossível extrair do processo de pensamento, da consciência, do “ser”, algum “eu” que, de tal maneira, possa ser capaz de dizer que pensa, ou como Descartes, “Penso, logo existo”. Revela-se enquanto uma fantasia produzida pelas funções lógicas e gramaticais a tentativa de apreender uma unidade de consciência, de conhecimento, em seu caráter puro.
É eliminar essa ingenuidade do “ser” que Nit aponta como superação das correntes da filosofia dogmática. – É nisso que consiste o pensamento crítico em Nit, despertar-se, ser sensível a captação da consciência que se revela enquanto processos “contaminados” e não puros. Ser consciente em Nit é saber que a consciência anda sobre o plano de fundo do desconhecido.
A idéia do “eu penso” nos leva a uma série de falsificações criadas pelo próprio “ser”, entre elas, a idéia de que o pensamento é algo à parte do corpo, que existe um “eu” interior, que é possível estabelecer o que se deve pensar, que eu sei pensar, existência de corpo e alma, etc.
Assim, em Nit, a grosseria de Descartes se revela no fundamento de postular que há algo em mim que pensa, um “eu” interno e substancial autônomo. Um “eu” criado pela própria subjetividade desconhecida.
A superstição dos lógicos, dita por Nit, se apresenta aquele que crê na possibilidade do pensamento chegar quando “ele” quiser, e não quando “eu” quero. Em Nit o pensamento é uma atividade, e enquanto tal se revela enquanto o “ser” atua. Consiste em destituir o “eu substancial” enquanto causa do pensar, pelo ato de pensar enquanto funções lógicas intimamente ligadas à estrutura gramatical da linguagem criada pelo homem.
Mas quem é o “eu”? Há um “eu” que habita nós mesmos? – Nietzsche nos responde através de Zarastustra:
“Por detrás de teus pensamentos e sentimentos, meu irmão, se encontra um poderoso senhor e um sábio desconhecido – ele se chama si mesmo. Ele habita o teu corpo, ele é o teu corpo. Há mais razão em teu corpo do que em tua melhor sabedoria. E quem sabe, aliás, para que o teu corpo necessita justamente da tua melhor sabedoria? Teu si mesmo se ri do teu eu e de seus saltos orgulhosos. ‘O que são para mim esses saltos e asas do pensamento’?, diz ele consigo. Um desvio para as minhas finalidades. Eu sou a andadeira do eu e aquele que infla os seus conceitos.”
Percebe-se que Nit inverte os pólos sagrados da metafísica, do Cristianismo, do platonismo, do dogmático e propõe o “corpo” enquanto a grande razão. Aqui não há uma alma, um espírito, um “eu”, uma substância subjetiva que está aprisionada no corpo, é o próprio corpo que és tu.
“”O corpo é uma grande razão, uma multiplicidade com um único sentido, uma guerra e uma paz, um rebanho e um pastor. Instrumento do teu corpo é também tua pequena razão, meu irmão, que tu denominas ‘espírito’, uma pequena ferramenta e um brinquedo de tua grande razão. ‘Eu’, dizes tu, e estas orgulhoso dessa palavra. Mas aquilo que é maior, em que não queres crer – teu corpo e sua grande razão – não diz eu, porém faz eu. Aquilo que os sentidos sentem e que o espírito conhece, não tem neles mesmos seu fim. Porém sentido e espírito te convencem de que eles são o fim de todas as coisas – tão vaidosos são eles. Ferramenta e brinquedo são sentidos e espírito: atrás dele se encontra ainda o si mesmo. O si mesmo procura com os olhos dos sentidos, escuta com os ouvidos do espírito.” (Assim falou Zaratustra, dos desprezadores do corpo)
Revela-se nesse pensamento que o corpo enquanto grande razão é de profundidade desconhecida, sendo aquele “Eu” enquanto fundamento da subjetividade, apenas uma ilusão criada pela consciência advindo da linguagem criada pelo homem.
Tomando o corpo enquanto o grande centro para compreensão da subjetividade, Nit busca a superação da concepção dualista (mente e corpo) com o cuidado de não incorrer em um materialismo grosseiro, embora, muitos críticos o dirão assim, acusando-o de um individualista ao extremo. – Talvez porque apreendem a singularidade à luz da individualidade criada pela ideologia liberal.
Não significa aqui a colocação do corpo enquanto face do hedonismo, da estética, da beleza. Olhar para corpo enquanto ponto de partida apresenta-se como uma nova forma de subjetividade, buscando adentrar nessa “grande razão”, unidade complexa de vários processos corporais, repleto de segredos e acessos. Consiste a tarefa da filosofia e da psicologia, aqui, em buscar o conhecimento tendo o corpo como ponto de partida, e não a alma, a mente, o “Eu”.
Vale ressaltar o fato do próprio Nit ter dado tanta importância aos fatores fisiológicos de sua enfermidade, no exercício de atentar-se à alternância da sua saúde, suas melhoras e pioras, vertigens, pressão, temperatura… uma série de fatores que ocorreriam em cada célula do corpo chegando às influências da subjetividade.
Dentro dessa perspectiva, a consciência, a racionalidade, a intelectualidade, o pensar entre outros atributos de um “Eu” subjetivo, são apenas instrumentos advindos dos processos gramaticais, daí a assepsia de “verdades” e “mentiras” na filosofia de Nit.
A percepção das coisas passa pelos processos fisiológicos fundamentais da vida. Ser consciente de algo não se revela mais do que uma fantasia criada pela linguagem, antes de tudo eu sou um corpo e este corpo independe dos processos cognitivos que se revelam na medida em que surge a necessidade de comunicação entre os seres humanos (linguagem, sociedade).
Dessa forma, a consciência em Nit é apenas um instrumento criado pelos homens, na medida em que surgiu a necessidade de comunicabilidade e vida em sociedade, destituindo-a enquanto uma estrutura central da subjetividade do homem. Em outras palavras, somos o pensamento do “rebanho”, pensamos, sentimos, agimos e criamos aquilo que é de muitos e não da originalidade singular de cada um.
Porém, quando falamos em transvaloração em Nit, falamos da possibilidade de superar o “rebanho” e descobrir a nossa singularidade, o primeiro passo é descobrir que a consciência é um instrumento da sociedade e saber as armadilhas que ela se encarrega nos processos de pensamento. – Esse é um dos grandes nortes do pensamento de Nit, com espaço no Eterno Retorno, possivelmente, para outro post =)
*Imagem: O poeta, Marc Chagall
Luis Gustavo Xavier
junho 22nd, 2008 at 17:05
vlaue pelo texto, não é fácil encontrar clareza em textos da complicada filosofia de Nit, me ajuduo bastante
Carlos
junho 23rd, 2008 at 14:33
Olá, cheguei via rec6…
Duas coisas, seu site está com um bug no I.E que fecha repetidas vezes antes de carregar.
Gostei do post, mas sempre impliquei com a tradução errada de penso logo existo. O original “cogito ergo sum” tem um significado distinto.. .o correto seria “questiono logo existo..” que transmite melhor a idéia origal de descartes… questionar tudo (todas as existências) e apartir daí verificar do que se pode ter certeza.
Abs.
Carlos
O
adv
junho 23rd, 2008 at 21:44
@Carlos: Olá Carlos, tenho percebido o erro que ocorre no IE quando se navega nos posts individuais, infelizmente ainda não consegui resolver, não é a minha área, embora eu esteja vasculhando fóruns e alguns amigos para encontrar uma solução… bom seria se tudo fosse como o Firefox ;)
Quanto a questão da tradução, é complicado, eu de fato não saberia dizer o “real” significado das palavras, sendo esta que peguei o que tem sido utilizado no consenso; mas assim como acontece com a própria obra de Nit, o consenso ainda gera muitas controvérsias. De qualquer forma, acho mais interessante o “questionar” no lugar do “pensar”, mas não alteraria a contraposição de Nit.
um abraço