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Saída de Bill Gates da Microsoft: “bom homem” que permitiu você ter um computador pessoal?
29jun2008 Categoria(s): Sociedade Autor: adv
Para quem vive na miséria ou na riqueza, certamente já ouviu falar em Bill Gates, um homem que acima de todas as características, representa um ícone no cenário mundial no que se refere à informática e tecnologia – e mais do que isso, o modelo ideal de sucesso.
Recentemente e até o momento, a notícia que percorre as multidões é a saída de Bill Gates, pelo menos do cotidiano, da sua fundação Microsoft – não menos importante que ele.
Por razões diversas que não cabem aqui discuti-las, Bill Gates é muito bem elogiado, mas não menos criticado. Porém, me assusta a idéia de querer categorizar o Bill Gates como um gênio que revolucionou o mundo com ideais de progresso jamais atingidos anteriormente. Não menos ingenuamente, Bill Gates também representa o ideal de um homem filantropo e aquele que, caridosamente, permitiu que eu, você e os que ainda, de alguma maneira, não foram expulsos da era globalizante, possamos usufruir das inúmeras “facilidades” e “possibilidades” que um computador pessoal pode oferecer.
Em uma rápida passada por blogs relacionados à informática, separei dois textos que trazem o “bom homem” que Bill Gates pode representar: Valeu Bill! e Adeus Bill Gates… e obrigado!!!.
Tais opiniões parecem-me que representa bem os princípios “sagrados” da ética burguesa, pautados no que se mostra como único e firme preceito a ser seguido por uma sociedade regida em nome do “progresso”.
Vivemos uma época onde todos os projetos sociais tidos anteriormente como receitas para o sucesso estão se mostrando incapazes de gerir felicidade e o bem-estar social da humanidade; embora sejamos capazes de pintar, desde que sejam com nossos próprios pincéis, um retrato de felicidade individualizado. Se o marxismo, embora nunca experienciado, se mostra como falido e já representa uma heresia, o esperançoso, mas mutilado, liberalismo econômico, ainda é sustentado pelos axiomas da liberdade, da individualidade e a quase extinta igualdade. – E é aqui que situamos Bill Gates, representante absoluto dos ideais burgueses que ainda se sustentam na ideologia liberal.
Bill Gates é o típico modelo que em meio às incertezas e inseguranças de uma época frenéticamente em mudanças que nos levam para algum lugar que ainda não sabemos (pós-modernismo), conseguiu por seus próprios méritos e capacidades individuais – é bom que se destaque isso – uma condição de vida capaz de expulsar todo tormento e aflição decorrentes de uma sociedade em intensa competição.
E é bom que se esconda os meios e modos que permitiram Bill Gates atingir o que representa hoje, afinal, o presente é o que importa. Como diz outro ilustre, mas não tão diferente como o asno diante da lira, Henry Ford: “A história é mais ou menos uma bobagem. Nós não queremos tradição. Queremos viver no presente, e a única história digna de interesse é a história que fazemos hoje.”
Estupidez por estupidez, Bill Gates também tem uma coletânea de citações, adversário à altura de Henry Ford, mas com visões diferentes. Enquanto as idéias de Ford representava um centro de organização rigidamente estruturado, compreendendo entidades sólidas e inabaláveis, como a fábrica fordista e os Estados soberanos enquanto tribunais para projetar e administrar a ordem para o progresso, Bill Gates representa o panóptico, o disperso, o flexível, onde o sucesso é sempre o último ponto de chegada, fazendo-se necessário, eliminar qualquer barreira rígida e intransponível que no meio do percurso ousar se interpor aos princípios econômicos.
Diferente do símbolo estático de poder de Henry Ford, Bill Gates, em sua receita de sucesso, optou pela capacidade de entreter e alegrar os ideais burgueses quanto às necessidades e desejos estéticos elencados pelos sonhos de consumidores que buscam por sensações e soluções para o mal-estar contemporâneo.
O “progresso” de Bill Gates e daqueles que acreditam que Bill é representante legítimo deste estado de bem maior, não representa nenhum sentido com a história, mas sim, conforme apontado por Zygmunt Bauman (2001)* “(…) a autoconfiança do presente. O sentido mais profundo, talvez único, do progresso é feito de duas crenças interrelacionadas – de que o ‘tempo está do nosso lado’, e de que ‘somos nós que fazemos acontecer’.”
Nesse sentido, o progresso assume uma necessidade vital para os indivíduos da modernidade-líquida, em detrimento de um estado transitório ou temporário que pode ser trabalhado eventualmente para se atingir algo. – A ordem é que todos nós devemos correr para o progresso. Em meio aos rumos indefinidos da sociedade, a fé cambaleante deve, em última instância, ser deixada por conta do progresso; e é bom que se diga novamente, que isso deve ser um projeto individual e jamais deve estar relacionado com o bem-estar coletivo da humanidade – este é o último e pretencioso alerta da ideologia liberal, cristalizado e representado fielmente à imagem e semelhança de Bill Gates.
Epílogo
A história é uma marcha em direção de uma vida melhor e de mais felicidade? Se isso fosse verdade, como o saberíamos? Nós, que o dizemos, não vivemos o passado; os que viveram no passado não vivem hoje. Quem, então, fará a comparação? Quer fujamos para o futuro (Anjo da História de Benjamin/Klee) repelidos e empurrados pelos horrores do passado, quer nos apressemos em direção a ele, atraídos e puxados pela esperança de que ‘nossos negócios prosperarão’, a única ‘evidência’ que temos é o jogo da memória e da imaginação, e o que as liga ou as separa é nossa autoconfiança ou sua ausência. Para as pessoas que confiam em seu poder de mudar as coisas, o ‘progresso’ é um axioma. Para as que sentem que as coisas lhes escapam das mãos, a idéia de progresso não ocorre, e seria risível se ouvida. (Bauman, 2001)
*BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 2001.
Imagem: O Anjo da História [Angelus Novus] (Paul Klee, 1932)
Júlio Souza
junho 29th, 2008 at 14:32
Boa noite, grato pelas suas palavras. Fico feliz que na internet ainda é possível encontrar algo mais além da superficialidade pueril e altamente esteriotipada de assuntos econômicos e sociais que nos cercam.
adv
junho 30th, 2008 at 6:48
Grato, espero vê-lo mais vezes por aqui expressando suas opiniões ;)