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O Brasil do futebol, carnaval e religião - anestésicos de um inferno tropical
3jul2008 Categoria(s): Futebol Autor: advAs notícias da condição sobre as quais os teóricos teorizam e os filósofos filosofam são diariamente marteladas pelas forças conjuntas das artes populares, quer apareçam com seu nome de ficção, quer disfarçadas de “histórias verdadeiras”. (Modernidade Líquida, Bauman, Z., 2000)
Está presente no pensamento nacional: o melhor futebol do mundo é o brasileiro, ponto final. Nas competições internacionais, qualquer estrangeiro que ousar se aventurar em terras brasileiras é dado como derrotado em primeira instância.
Jamais respeitamos adversários até porque futebol para nós não é diversão, é questão de honra, é produto nacionalista onde as identidades mutiladas buscam significados, outros dirão que é patriotismo. - De qualquer forma, ambos não entendem o que significa ser um nem outro, apenas repetem o coro que já fez parte de governos totalitários, e que hoje aparece escamoteado na ideologia liberal onde o poder é exposto na poesia da liberdade, da igualdade e da individualidade.
Como se não bastasse, Deus também é brasileiro, resta-nos, imersos na desgraça, conseguir extrair riso dos palhaços que dão o show. Seja dentro ou fora das quatro linhas, afinal, o futebol não se restringe apenas a um momento, ele está nas paixões populares que levam o assunto a qualquer situação social - nos velórios, nas paróquias, nos jantares, nas festas, nas instâncias judiciárias, nos locais de saúde e educação e, principalmente, nas eleições.
Assim como toda construção histórica ocorre ao longo das configurações sociais e culturais que se processam, o futebol no Brasil é repleto de contos, lendas, mitos, conformismos, naturalizações, contradições e conflitos que se fundem nas diversas dimensões da nossa Constituição. - Qualquer posição ele pode assumir, menos a de entretenimento, diversão e arte.
Nos é uma arma, e uma das poucas que temos para afirmar nossa identidade aos arredores globais. Fazemos dele o mártir e o herói. Se não há bola como poderemos conseguir nosso espaço entre os estrangeiros que entendemos quase sempre estar nos acusando de desonestos à primeira vista, prontos para nos encarcerar se ousarmos ultrapassar as demarcações da fronteira? Como iremos fazer-nos ouvir entre os saguões mundiais onde se discutem as relações de poder?
Eduardo Galeano em As veias abertas da América Latina diz que todos nós, latinos, somos um povo que, historicamente, “se acostumou a sofrer com os dentes cerrados”. Acho mais oportuno designar essa situação apenas a nós brasileiros.
Rimos e ridicularizamos o “panelaço” argentino, talvez porque não entendemos o significado de lutas sociais por problemas relevantes que se tornam irrelevantes a cada espetáculo ocorrido nos meios de semana, ou no máximo nos fins de semana. - Por que aqueles palhaços estão batendo panelas pelas ruas? Só podem ser baderneiros e vândalos, vagabundos que não querem trabalhar.
Não é por menos que o futebol faz de Brasil e Argentina grandes inimigos. Ambos são fanáticos por futebol, ambos precisam afirmar sua identidade através da bola rolando, embora nossos rivais, em relação a nós, não são tão ingênuos quando a questão é política, social ou econômica.
Nossos heróis costumam ser chamados de reis, atendem por nomes como Pelé, Zico, Seleção Brasileira, Roberto Carlos, entre tantos outros. Se procurarmos na história quais mudanças ou grandes transformações sociais eles tiveram envolvidos, não encontraremos nada além de artistas que autoafirmaram sua individualidade através das paixões populares; ou quem sabe poderemos contar os “abraços fraternais” que eles trocaram com nossos ditadores.
Não temos moradia; nossas crianças morrem de fome; pais e mães em conflitos por não darem conta das sobrehumanas exigências do dia-a-dia; entramos nas filas de hospitais para aguardar a morte ou com a esperança de quê alguém irá olhar o nosso sofrimento e se compadecer; muitos ainda morrem privados de água e inúmeras deformidades sociais que se processam no nosso meio. Elementos ocultados nas visões paradisíacas oferecidas pela mídia de massa onde Deus, Futebol e Talento se encontram.
Não importa o quanto o caos possa se espalhar no imenso território que temos abençoado por Deus. Somos um povo feliz, que sabe sorrir, amar e viver em harmonia mesmo com tantas desgraças, é este o Brasil que querem que sejamos. O Brasil das belas metáforas que se ecoam sem sentido pelo nosso Hino Nacional; dos Pelés e dos Ronaldinhos; das belas mulheres e praias com abundância de areia para taparmos qualquer anormalidade que venha a ocorrer em Copacabana, onde o Cristo sorri graciosamente para todos, entoando silenciosamente o ensurdecedor coro popular: sou brasileiro e não desisto nunca! - Somos ingênuos, porém, felizes, escravos felizes.
Temos ainda um coração imenso, acolhemos africanos, japoneses, chineses, italianos, espanhóis, índios, judeus, árabes e todos os povos. Acolhemos também os nossos brasileiros que fracassaram, desde que seja final de Copa do Mundo, onde então convidamos o mendigo para se sentar à mesa junto de nossas boas famílias eufóricas e abastadas com muita cerveja e gordura.
Ao término de cada culto ao nacionalismo, cada um assume o seu devido lugar, descalços ou de blindados, não importa. Ninguém é brasileiro para dispensar atenção em questões que não sejam tão urgentes quanto o futebol, o presidente que cuide do caos. - O que importa é que o meu time ganhou, e mesmo que eu vá para casa de mãos vazias, sem troféu, carro zero ou “bicho”, eu sou o melhor, eu ganhei, o meu time é melhor que o seu, eu sou melhor que você!
Marx não teria problemas algum em enquadrar o futebol na sua tão famosa citação que coloca a religião como o ópio do povo. São anestésicos que compreendem emoções diferentes, que se processam pelo aparelho ideológico do Estado que agora é privado e global, e contracena com parcimônia com a mídia e os líderes que gerenciam as grandes movimentações de capital, desde que ambos sejam cúmplices no que diz respeito às facilidades e cortesias trocadas em prol dos interesses.
A santíssima trindade brasileira é representada na Religião, no Futebol e no Carnaval. Ao longo de décadas, já provaram sua eficiência no que diz respeito ao entretenimento das massas, afastando-as de qualquer consciência que possam tomar da realidade de si e do próximo. Qualquer insatisfação ou angústia é prontamente anestesiada, pelo menos por uns instantes.
Situações básicas que clamam por maior urgência na vida dos seres humanos são superadas pela sensação de felicidade vazia causada pelos êxitos da irracionalidade que imperam nas paixões, capaz de fazer qualquer escravo sentir-se libertário.
Assim se faz o Brasil dos cartões postais e do pensamento ingênuo. Um país tido como hospitaleiro, festeiro, pacífico, amoroso, de gente feliz e uma série de outras qualidades fantasiosas; fato é que somos extremamente competentes em matéria de escamotear a realidade.
Epílogo
Com os pincéis ideológicos do Estado, dos capitalistas, da mídia e de uma população mais vítima do que culpada, o quadro do terror de um país onde reina com prosperidade a arcaica política do “pão e circo” em sua versão moderna conhecida apenas como “circo”, dá lugar a uma vida que pintamos em um fictício paraíso tropical marcado pela violência e pelas desigualdades sociais, onde repressores, ditadores, craques de bolas, religiosos e apresentadores de auditório desfilam juntos recebendo os aplausos de uma platéia de fanáticos.
Ronaldo
julho 4th, 2008 at 12:59
Depois da sua bem fundamentada crítica, ao meu ver, vejo a seguinte notícia: http://globoesporte.globo.com/Esportes/Noticias/Futebol/0,,MUL616978-9842,00-RONALDINHO+VAI+A+CHINA+PARA+AJUDAR+VITIMAS+DE+TERREMOTO+QUE+ATINGIU+O+PAIS.html
É ou não é de se assustar???
Abraços e parabéns pelo excelente blog!
adv
julho 4th, 2008 at 18:57
@Ronaldo: grato! Irônico, bolas nikes às vítimas do terremotos!
O Brasil do "futebol" | LOG de MSN
julho 5th, 2008 at 16:02
[...] de auditório desfilam juntos recebendo os aplausos de uma platéia de fanáticos. Fonte: Eterno Retorno Compartilhe: Esses links facilitam a inclusao deste artigo nas redes sociais. [...]
Gabriel
janeiro 10th, 2009 at 21:53
Muito bom o artigo, digno de analise criteriosa.
Abraços