Linguagem e Gramática em NietzscheA linguagem possibilitou ao homem um desenvolvimento completamente diferente das outras espécies, não direi superior porque penso ser ingênua a descabida idéia de nós mesmos nos intitular assim diante das outras espécies.

Os animais se comunicam, mas só o homem possui um código de signos e significados que lhe deu a capacidade de acumular o conhecimento historicamente, de modo que as gerações não precisam descobrir o “fogo e a caça” tudo novamente.

Partindo do pensamento de Friedrich Nietzsche, o homem é antes um corpo, um animal, um ser-vivo como todos os outros. Na medida em que esse homem passou a viver coletivamente desenvolveu a consciência e a ela se presta a linguagem enquanto instrumento advindo das necessidades da vida em “sociedade”.

Eis a linguagem, o primeiro momento de niilismo do homem, antes mesmo do funesto pensamento socrático e da cristianização. A linguagem em Nit não traduz a vida, mas uma realidade criada por nós diante do inaudito. Desse ponto de vista ela é uma “roupagem” expressada por signos que traduzem a não-realidade das sensações, dos impulsos, das vivências, do corpo, da vida em si.

A linguagem está presente na criação do mundo dos valores, dos pensamentos e do conhecimento. A vida enquanto totalidade em todas as suas intensidades é aterrorizadora e ao mesmo tempo encantamento, daí que o conhecimento pode se prestar à criação de um mundo enganador para que, o homem doente de si mesmo, possa suportar a vida. – Ora, pois, diante da beleza do pôr-do-sol posso simplesmente justificar o fenômeno através da física e aquietar-me ao invés de vislumbrar as sensações de prazer que possam me ocorrer no momento.

Nit não nega a linguagem, ela nos é necessária para organizar a vida, mas nos alerta para o quanto ela serve para abstrair a vida deu devir, na medida em que ela esteriliza das vivências os aspectos mais essenciais. Aponta com isso uma necessidade de desmistificar e tirar a autoridade da linguagem, reinventar uma linguagem diferente da que tem sedimentado o conhecimento na humanidade.

Para Nit a Gramática estabeleceu uma lógica entre “sujeito” e “predicado” de tal forma que mutilou o homem de expressar aquilo que realmente sente. Está elencado nos valores que eu não posso dizer que estou experienciando prazer e ao mesmo tempo desprazer, ou um ou outro, esta é a lógica da Gramática, linear e causal que cria um “outro mundo” para o homem se apoiar. Nesse sentido, essa visão é contrária ao pensamento nietzschiano de vida enquanto um emaranhado de sensações possíveis ao Ser considerado em sua totalidade.

As palavras dentro da perspectiva tradicional da linguagem e da Gramática criam um “mundo de idéias e pensamentos”, bem como valores morais e éticos, que as norteiam em um ciclo vicioso. Dessa forma elas não expressam o essencial, mas estão sob o jugo de uma série de diretrizes que filtram o conteúdo a ser expresso, mudando o sentir psicológico e físico do homem diante do “turbilhão” de sensações da vida.

Outra problemática presente na linguagem é a expressa relação de poder presente entre os envolvidos na comunicação [muito bem discutida por Michael Foucault para quem se interessar]. Para Nit os homens procuram por um princípio básico que fundamenta e que está por trás de todo fenômeno, de tal forma que para eu conhecer a “verdade” basta eu descobri-lo. Na linguagem essa relação está presente: a busca por “verdades”; por leis; princípios e diretrizes que devem reger a vida, expulsando dela tudo que nos seja estranho e incompreensível – negação da vida.

O “mundo das idéias” nessa perspectiva, sobressai ao corpo e escraviza o homem “selvagem”, dos impulsos, e cria o homem civilizado que busca a salvação e redenção na “verdade”. Em Nit a “verdade” não nos é importante, a vida é cíclica, é prazer e desprazer ao mesmo tempo, o corpo não é menos importante que o pensamento – urge a necessidade da transvaloração, do super-homem [além-homem], aquele que irá conseguir superar o conhecimento enganador para se afirmar diante da vida trágica.

Sentimos tão pouco com o corpo, nos permitimos tão pouco e nossas sensações praticamente não ocorrem de forma pura sem antes passar pelos tribunais do homem lógico e racional. Filtramos praticamente tudo e enquadramos nas diretrizes do pensamento elencado em um conjunto de valores que o homem criou para servir e aprisionar a si mesmo – nos tornamos doentes de nós mesmos!

Conclusão: Nietzsche e a Linguagem

Nietzsche além de apresentar os perigos e as ciladas da linguagem e da Gramática, contribuiu fundamentalmente para um novo paradigma. Não devemos negar a linguagem, mas reinventá-la, repensá-la. Usá-la enquanto um instrumento não para excluir ou incluir, subjugar entre o certo e o errado, o forte e o fraco, mas sim, algo que independe da relação ouvinte e falante disputando autoridade; mas de uma interação onde os conteúdos se apresentam e ambos possam descartar ou usar sem medir forças.

Da mesma forma que o escultor tira da pedra bruta uma obra de arte, podemos tirar do material dialogado uma forma e um sentido, de tal modo que a linguagem se presta como um instrumento para intensificar as inúmeras possibilidades das vivências, favorecendo o nosso sentir o mais próximo possível de sua totalidade e essência.

Linguagem para falar comigo mesmo, com o outro, com o prazer ou com o desprazer, com o cachorro ou com a lua, com o mundo. Não importa! Eis a linguagem, um instrumento a se prestar para afirmar à vida, e não para ser cúmplice do conhecimento sem conhecimento que reside nas masmorras niilistas do pensamento platônico-socrático, vigiadas pelas sentinelas da religião judaico-cristã.

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