Os amantes azuis - Marc Chagall, 1961Estávamos ali, em situação de convenções acadêmicas. A razão triunfante fazia-se ouvir pela voz do locutor de bons títulos, estrangeiros, que valem ainda mais. Entretanto, quando meus olhos te encontraram perdi-me entre os pensamentos do “selvagem” que se perderam entre os traços do seu corpo. Corpo e corpo, unidos por um fio de pensamento desprovido de civilidade que intensificava um devir único. Os reinos do Conhecimento e da Consciência se desmancharam. Cada célula do meu corpo se fazia estremecer, gritos de silêncio ecoavam das entranhas e tapavam os ouvidos do Saber. Era uma estranha sensação da extradiornária Vida abissal. Por relances o mundo dos pensamentos serviu-me para o encantamento e nos desenhou: dois corpos em chamas se saboreando das delícias do Inaudito, despreocupados e entregues à afirmação da vida pelo vivido, era uma autêntica vivência do trágico.

Neste momento, todo desprazer fez-se prazer, mas o prazer fora resgatado pela Consciência e fez-se novamente desprazer. Entre os cânones da razão fora julgado e devidamente polido, o pensamento fez-se prisioneiro do pensado pelo homem do “Conhecimento sem conhecimento”. – Nietzsche, ensina-me, como ei de suportar a pressão do dionisíaco sem se entregar ao apolíneo? Haverá um dia onde os “últimos homens” deixarão de se embriagarem da sobriedade?

* Imagem: Os amantes azuis – Marc Chagall, 1916.

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