Filme e livro O Caçador de PipasO Caçador de Pipas é um romance escrito pelo afegão Khaled Rosseini que atualmente mora nos EUA – é bom que se diga isso. O livro virou best-seller, com milhões de cópias vendidas pelo mundo inteiro, fora os downloads do livro e filme que são muitos pela internet.

Confesso que nunca li o livro; primeiro porque todo mundo gosta, o que me assusta! Não acredito que livros que “libertam” sirvam para uma ampla maioria das pessoas, pelo contrário, a maioria prefere a literatura do pastiche. Segundo, porque minha preferência por leitura é bem distante de romances, aventuras e outras leituras mais de “entretenimento” – o que não significa nenhum desmerecimento dessas obras, pelo contrário, a história dos homens passa também pela história da literatura e da poesia.

Mas quem nunca foi abordado por alguém que perguntou se você já leu o romance de Khaled? E o pior, diante da resposta negativa, um espanto te retruca: “Você não leu?! Não sabe o que está perdendo!” – Até mesmo os que não têm hábito de ler já leram, talvez esses compõem o público maior dos best-sellers.

Com o lançamento do filme a situação ganhou um caráter duplo. Escreveram nas estrelas que todos deviam ter lido ou pelo menos assistido “O caçador de pipas”; quem não se encaixa nesse perfil poderia ficar de fora do bonde da globalização que parte em alta velocidade.

De alguma forma senti a necessidade de pelo menos conhecer a sinopse do romance para poder instigar os fãs de Khaled com argumentos mais consistentes. – Acabei assistindo o filme que me caiu de bandeja no formato RMVB para download.

Como conseqüência, sinto que estou em débito por cerca de 2 horas de minha vida – perdidas, assistindo um filme que do meu ponto de vista é no mínimo ingênuo.

Amir, o garoto rico e mimado; e Hassan, o garoto pobre que mesmo diante das dificuldades ainda sonhava, são os dois personagens centrais. O “ponto orgástico” do filme, onde irá arrebatar os espectadores para o reino das idealizações, é quando a amizade entre os dois é colocada em xeque.

Hassan, diante de um grupo de garotos de etnia “inimiga” da sua, resiste em dar uma pipa que havia capturado e prometido levá-la ao amigo Amir, resultando em uma cena de estupro que é presenciada de longe por Amir. Diante da situação Amir foge da realidade, imaginando que nada havia acontecido, no entanto, é condenado aos tormentos do sentimento de culpa islâmico – não muito diferente do judaico-cristão – pelo resto da vida.

A partir daí muitos espectadores se sentem indignados com Amir que não fez nada para defender o amigo. – Talvez precisamos questioná-los sobre qual o comportamento que eles esperam de uma criança que presencia uma cena de estupro.

Mas a principal ingenuidade do filme é a tentativa frustrante de fazer dramatização onde não há. – Além das fantasias de Khaled, alguém, por mais que tenha uma relação “ritualística” com uma pipa, estaria disposto a não perdê-la mesmo diante de uma iminente violência?

Outra ingenuidade marcante no filme, embora eu não possa dizer se o mesmo ocorre no livro, é a tentativa de mostrar a cultura afegã com veracidade, mas evidentemente a mesma é enquadrada nos moldes ocidentais. O pai de Amir bebe uísque, anda de Mustang, ouve músicas em inglês e desfruta de outras “regalias” do mundo ocidental. – No entanto, isso pode ter sido a velha e tradicional chantagem capitalista diante do “comunismo” russo que batia às portas do oriente.

Sei que muitos irão dizer que o filme é bem discrepante mas que o livro mantém a coerência. Certamente que o livro deve ter suas diferenças, no entanto, acho bem improvável que um fale sobre “cogumelos” e o outro sobre “amizade”.

Termino ressaltando que minha crítica é mais para o público do que o autor Khaled Rosseini. Talvez o autor tivesse a intenção de produzir apenas um romance, fazendo valer da criativa expressão que é livre para caminhar despreocupada entre os reinos das fantasias, dos sonhos e daquilo que chamamos de realidade. No entanto, serve para mostrar o quanto as pessoas ainda pensam nos moldes platônicos e cristãos, na medida em que colocam a relação de amizade idealizada no filme enquanto um “bem-maior” que, se não preservado, o terrível peso do sentimento de culpa se encarregará de fazer justiça!

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