A música é capaz de reproduzir em sua forma real, a dor que dilacera a alma e o sorriso que inebria. – Ludwig van Beethoven

Impossível precisar quando a música surgiu, mas é certo que ela acompanha a história dos homens desde que nossos ancestrais perceberam que alguns objetos ao serem tocados emitiam sons, e dessa casualidade – e não mais apenas os sons da Natureza -, foi possível criar sons que podiam ser agradáveis ou não.

Fato é que desde que o homem passou a viver em sociedade, não houve nenhuma cultura onde a música estivesse emudecida. Nem mesmo os ascetas se renderam, o que me leva a ver pelo menos esse ponto positivo nas religiões, rendo-me a religiosidade de Bach, Vivaldi, Händel, entre tantos outros que pareciam criar o sonho celeste através da música.

Nietzsche e Schopenhauer, dois dos “espíritos” mais inquietantes da Filosofia, reconheciam na música um verdadeiro arrebatamento do Ser, só a música era capaz de fazer corpo e “mente”, unidos, dançarem em perfeita sintonia. A música era capaz de permitir uma vivência de prazer capaz de aguçar os sentidos para os impulsos daquilo que realmente constitui o animal homem, ampliando nossos significados e percepções para o prazer do devir.

Mas a música também pode representar tudo de mais terrível e corruptível do Ser. Assim se expressou Nietzsche – a meu ver duro até demais – sobre o músico alemão Richard Wagner, após o rompimento de uma amizade que pareceu nascer em belos jardins. Nietzsche rompeu com Wagner por entender que ele deixou de fazer música por prazer e passou a fazer ofertas para a popularidade, entre outros motivos, como a exaltação do nacionalismo alemão e a incorporação de elementos cristãos. Wagner passou a ser para Nietzsche um traidor da Arte representativa do existir: a arte trágica grega que afirmava a Vida.

Nesse contexto, evitando incorrer na ingênua pretensão de discutir gêneros musicais, penso que seja possível captar de qual música estou falando: a Música de entonação da Vida, e sua linguagem é universal. A música que foi capaz de abraçar Nietzsche em seus momentos de maior solidão e dor, a que fez até o pessimismo de Schopenhauer se “quebrar”: é essa a música capaz de revigorar o Ser que diz Sim à Vida antes de qualquer exigência, tornando os obstáculos em meios para a criação e desenvolvimento. – É a sinfonia da alegria da vida orquestrada à Vida.

Triste é ver que com a modernidade, como nunca antes, a música tem perdido seu caráter trágico-grego. Quase não há grandes gênios que buscam compreender sua singularidade pela arte da música e que nos presenteiam com uma linguagem capaz de tocar as profundezas do Ser – os impulsos mais fortes e prazerosos.

Pelo contrário, vejo assustado, a multiplicação de vozes e ruídos em histeria que, como hinos, entoam a negação da vida, ganhando aplausos entre a sádica alegria da embriaguez. Em conjunto esses barulhos atordoam a singularidade existencial e glorificam uma moral de moda, de estética, de comportamento, de popularidade, de pensamento e de tudo que floresce em meio à desgraça daqueles que querem aprisionar o Ser em medidas de valores.

É em meio a essa histeria musical que se reproduz em ritmo impetuoso, que lhe convido, mesmo quem nunca tenha “parado” para ouvir a “música arte”, a alimentar o seu Ser – corpo e intelecto juntos – com o banquete que Rachmaninov pode nos oferecer: Rapsódia sobre um tema de Paganini. Sugiro que mantenha um distanciamento da correria da civilização moderna, reserve esse instante e tente fazer um exercício de “auscultação” dos seus sentidos e percepções. – O que eles estão tentando lhe dizer sobre a Vida?


Caso eu tenha contribuído para despertar em você uma fagulha de curiosidade sobre os grandes músicos que fazem parte da história dos homens, considero esse post um sucesso =)

Esses links são para compartilhar o conteúdo em redes sociais ou por email.
  • Rec6
  • Ueba
  • Dihitt
  • DoMelhor
  • LinkTo
  • LinkLoko
  • TwitThis
  • E-mail this story to a friend!