O sono - Courbet (sexualidade)Falar de repressão sexual é mergulhar em uma complexidade histórica de enlaces sociais, culturais e biológicos. Para delimitar o assunto, tentarei apresentar alguns elementos para se pensar a monogamia e suas relações com a família e o casamento enquanto instituições legitimadas pelo estado burguês. Buscar-se-á pensar o quanto esses valores têm feito da sexualidade um jogo conflituoso e contraditório, culminando em neuroses e adoecimento biológico, psicológico e social.

Monogamia, casamento e família: breve histórico

No ocidente e em boa parte do oriente a monogamia é um valor moral que remonta há séculos, inicialmente, sustentada pelo discurso religioso e patriarcal, onde o homem vê a mulher enquanto sua “posse”.

Nas sociedades burguesas modernas – fim do século XVIII – instaura-se o casamento enquanto instituição que se apodera do discurso monogâmico e projeta os ideais das famílias nucleares – pai, mãe e filhos unidos – enquanto bem-maior para o progresso. Aqui o discurso jurista, legitimado pelo estado, se junta aos pilares religiosos e patriarcais e, ambos, irão fazer da sexualidade humana um elemento fortíssimo de controle social por meio de uma moral sexual extremamente repressora.

A moral sexual fará parte dos discursos dos “higienistas” e “moralistas” presentes no estado, na economia, nas igrejas, nas instituições de educação e onde quer que seja possível fazer vingar as diretrizes para o sexo. O casamento assume o sentido de um “alvará para o sexo” e toda prática sexual ou tentativa de sedução fora do matrimonio é uma concupiscência que deve ser combatida e varrida da sociedade. Crianças, jovens e mulheres deveriam ser vigiados por uma ideologia perversa de controle sexual. Homens adultos também representavam perigos, mas gozavam de relativa liberdade em relação à mulher.

Nesse sentido, os interesses ideológicos se encontram nas relações de poder do estado, da igreja e da economia. O casamento é altamente valorizado, pois interessa enquanto manutenção das classes e da ordem, já que a família “unida” no matrimônio é vista como uma célula da sociedade na qual é a primeira instância onde os filhos, futuros cidadãos, devem ser controlados e preparados para seguir os rumos da ordem e do progresso.  Na economia, a propriedade privada satisfaz-se no casamento que legitima as classes e suas posses materiais hereditárias; o sexo não interessa ao acúmulo de capital, portanto, enquanto um atentado à atenção do trabalhador deve ser vigiado nas fábricas e nas indústrias; medidas como separar mulheres de homens e qualquer meio para impedir esse encontro são criadas. Para a igreja nenhuma novidade, o corpo é lugar de tentação e a alma é suprema, o sexo é aceito apenas sob o pretexto da procriação, fora disso, sedução e prazer pertencem ao diabo. – O casamento abraça a monogamia e estes são abraçados pelos moralistas, o matrimônio em seu aspecto jurídico e sagrado se torna uma instituição altamente eficaz de controle social por meio da sexualidade.

Relacionamentos amorosos fadados ao fracasso: a exigência da fidelidade e da união até que a morte os separe

Felizmente o casamento perdeu um pouco do seu valor enquanto ingresso legalmente aceito para poder realizar o ato sexual. A juventude já consegue satisfazer sua sexualidade mais cedo e muitas parceiras fora da instituição matrimonial ocorrem entre parceiros do sexo oposto ou do mesmo sexo. Certo é que tudo isso quase sempre ainda vem acompanhado de perdas, pois a necessidade de se ocultar da moral repressiva ainda vigora: esconde-se da sociedade e da família, muitas vezes acompanhado do sentimento de culpa.

Uma repressão sexual cristalizada durante milênios, certamente que não irá deixar de vigorar tão facilmente. O ideal do amor romântico ainda é gritante em suas formas de união para sempre ou fidelidade absoluta; ideais que são contrários aos impulsos biológicos naturais e inerentes à condição sexual do homem. – Fizeram-nos acreditar que o parceiro fiel e único, até que a morte separe, são condições essenciais para um projeto de vida repleto de felicidades!

Todos nós estamos expostos à excitações sexuais novas na medida em que convivemos com membros da espécie, parceiros(as) que mexem – nunca de forma tão sedutora como agora -com os nossos impulsos, gerando excitações que, enquadradas pelo discurso repressor, devem ser eliminadas nem que seja necessário o uso de meios antinaturais e cruéis.

Desse modo, achamos extremamente natural o antinatural, no caso, os de ideais monogâmicos: a idéia de “posse” do parceiro dentro de uma relação; como isso é antinatural e quem quer policiar o seu parceiro precisa investir em vigilância, que acabará sendo custoso em algum momento, terá grandes chances de culminar em intrigas, brigas e até mesmo casos mais graves como homicídio, espancamento, etc.

Quem se sente traído se vê no direito de obrigar o parceiro a eliminar seus supostos desejos sexuais ou qualquer tipo de interesse íntimo por outra pessoa em nome de uma moral repressora secular. Por instantes o acusado pode até usar de algum artifício para dispersar a fúria do parceiro que se sente vítima, no entanto, por ser uma condição axiomática, não estará livre de sentir atração sexual por outras pessoas. – Assim costumam ser os nossos relacionamentos, passados os momentos de euforias do início, o casal tende a ser vigilante, empenha-se em atividades custosas de preocupação um com o outro e acabam sendo visitados por inúmeras fantasias quando o parceiro está fora de alcance dos olhos vigilantes; tornamo-nos ciumentos, irritantes e afundamos as possibilidades de uma relação afetiva consistente que poderia complementar o nosso devir ampliando a intensidade das vivências.

Considerações finais

Não é minha intenção, a partir dessas breves considerações, dizer que todos nós devemos dizer não à monogamia. Isso seria tão perverso e moralista quanto os históricos repressores sexuais. Não há nenhum problema em uma relação monogâmica desde que ela esteja no consentimento de ambos, que tanto um como o outro concorde que esse deve ser um aspecto fundamental para a felicidade do casal, a situação fica desonesta e tenderá ao fracasso quando a imposição entra em cena, ou o mais freqüente, o relacionamento se inicia com ambos partindo do pressuposto da concordância com os valores monogâmicos.

Pretendo sim, chamar atenção para quê os ideais de fidelidade, monogamia e casamento sejam esclarecidos. Faz-se fundamental no combate à repressão sexual, tornar de conhecimento público o quanto esses elementos, em nome do casamento e da família, têm sido utilizados enquanto mecanismos de controle para atender os interesses de uma moral regida por algumas classes.

Ninguém irá se opor a quem não deseja se alimentar com a mesma refeição todos os dias, usar as mesmas vestimentas, dormir nos mesmos horários, etc., mas no campo sexual a idéia de “posse exclusiva” do parceiro se tornou muito forte. Buscar compreender as relações de poder implícitas e explícitas que se fazem pela repressão sexual pode esclarecer situações que pertencem totalmente à natureza biológica, tornando-as naturais e não doentias. Assim, revelamos a imoralidade que se apresenta pela moral, contribuindo para que muitos crimes decorrentes do estado de miséria sexual possam ser evitados.

Infelizmente a história da sexualidade humana é repleta de mecanismos repressores capazes de tornar antinatural o que é natural, e imoral o que não é do campo da moral. Atualmente, costumam dizer que vivemos em tempos de liberação sexual, sim, libertos sexualmente apenas se compararmos à miséria sexual de tempos passados, no entanto, ainda há muito adoecimento psíquico e biológico devido às mutilações causadas pela repressão sexual.

Entretanto, talvez estejamos caminhando para o início de um libertar de uma moral que fez do nosso corpo, da nossa capacidade de sentir prazer na dança das sensações dos corpos nus, uma anormalidade caso não esteja dentro de determinadas diretrizes.

Por outro lado, toda medida ascética e moralista que busca reprimir a sexualidade não está isenta de um contracontrole capaz de gerar um aumento da exigência sexual. O “proibido” assume maiores excitações que acenam para uma vida sexual arriscada, não por desleixo, mas porque a repressão também elimina a possibilidade da sexualidade estar presente no nosso cotidiano enquanto discurso natural e esclarecedor.  – (In)felizmente parece que estamos aprendendo a desatar algumas amarras dessa forma, na periculosidade que costuma satirizar os moralistas e higienistas expulsando suas medidas de valor da sexualidade.

* Imagem: O sono – Courbet (Wikipédia)

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