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As olimpíadas sob um olhar de Nietzsche
14ago2008 Categoria(s): Filosofia Autor: advLembro-me de que estamos em tempos de olimpíadas pelo discurso público. Nem o futebol argentino que me encanta tem encontrado um pouco de estado de vigília que o acompanhe.
Mas na academia, na vizinhança, no caixa do supermercado… o discurso não tem sido outro senão aquele do Michael Phelps, um esportista da natação americana. Só sei que o Michael Phelps é humano mesmo sem nunca tê-lo visto porque há um concenso eufórico dizendo que ele não é humano: é gênio, dizem.
Esse mesmo discurso - o do gênio - é um dos principais da mídia televisiva, sobretudo, na boca dos comentaristas e apresentadores. Nesse instante - o que me motivou a escrever este post - o Pedro Bial falava “babando” sobre a seleção de basquete dos Estados Unidos. Tal intensidade o discurso do gênio feito pelos ingênuos tem se apresentado, que me lembrei de um aforismo (162) de Nietzsche na primeira parte da sua obra Humano, demasiado humano (1878) que nos diz:
Culto do gênio por vaidade - Porque pensamos bem de nós, mas no entanto não esperamos de nós que possamos alguma vez fazer o esboço de uma pintura de Rafael ou uma cena tal como a de um drama de Shakespeare, persuadindo-nos de que a faculdade para isso é maravilhosa, acima de todas as medidas um raríssimo acaso (…) Mas, sem levar em conta essas insinuações de nossa vaidade, a atividade do gênio não aparece de modo algum como algo fundamentalmente diferente da atividade do inventor mecânico, do erudito em astronomia ou história, do mestre de tática. (…) De onde então a crença de que somente em artistas, oradores e filósofos há gênio? De que somente eles têm “intuição”? (…)Os homens, evidentemente, só falam do gênio ali onde os efeitos do grande intelecto lhes são mais agradáveis, e eles, por sua vez, não querem sentir inveja. Denominar alguém “divino” quer dizer: “aqui não precisamos rivalizar”. (…)
Dentro do pensamento de Nietzsche, de nada difere um feito humano do outro senão enquanto “vontades de potência” se manifestando de diferentes maneiras, aqui não entra em cena o “perfeito” nem o “imperfeito”, mas para além do perfeito e do imperfeito. Nesse sentido, aquele que planta uma roça de banana pode ser tão quanto “artista” - ou mais - que o doutor em filosofia que pinta quadros surrealistas: dependerá da “vontade de potência” que ambos imprimem dentro do jogo de relações de forças (potenciais presentes na vida) entre aquilo que fazem e o que vivenciam.
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