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Os desafios diante da informação da informação
23ago2008 Categoria(s): Sociedade Autor: advOs desafios de conviver com o excesso e a escassez da informação
Nunca tivemos tantos meios de comunicação capazes de fornecer informação quase que em tempo real. Revistas, tablóides, jornais, televisões, rádios, livros, sites e blogs são alguns dos exemplos de uma lista que poderia se estender ainda mais. Mas o que fazemos com tanta informação? Fazemos bom uso? Elas nos libertam ou nos aprisionam? – Na chamada “era da informação” é certo que temos meios diversos de comunicação que nos permitem “ver” e “saber” sem a oposição dos limites geográficos e fÃsicos, no entanto, parece que uma névoa de informação encobre o planeta, sofremos por excesso e escassez de informação.
Um olhar mais profundo revela ainda que essas informações se tornaram mercadorias de alto valor, e costumam ser veiculadas segundo os critérios do capital, de tal forma que há diversos “centros de controle” que analisam minuciosamente cada teor da informação. O Estado e seus aparelhos, a polÃtica, o âmbito privado e a ideologia incrustada em várias faces da sociedade são exÃmios modificadores, deturpadores, maquiadores e transformadores da mensagem.
Nesse sentido, ao ficarmos sabendo do número de mortos que a guerra entre Afeganistão e Estados Unidos causou, somos meros inocentes diante da “verdade”. Na polÃtica as forças que disputam o sentido dos fatos são altamente imprevisÃveis.
A era da informação nos trouxe muitos benefÃcios, mas também é capaz de causar muitos danos, fazendo de milhares, meros joguetes a consumirem avidamente o banquete servido ao bel prazer dos critérios de interesses morais, econômicos e polÃticos. Assim, faz-se necessário, não a eliminação ou a censura dos meios de comunicação - toda censura é a ocultação de interesses por outros -, mas perguntarmos a todo instante sobre a informação da informação. Para tal, alguns pontos me parecem ser relevantes para esclarecer um pouco dos nossos “filtros” de informação, de modo que possamos ficar mais atentos com o que ouvimos, o que lemos e o que vemos.
Um olhar crÃtico para uma compreensão da informação
Uma informação, em geral, traz algo “novo” ou põe em dúvida aquilo que foi “novo”. O que é sabido de todos, como por exemplo, dizer que todos os seres humanos morrem, em primeira instância não se constitui uma informação, seria redundância; entretanto, ao assumir um caráter de mercadoria acho possÃvel dizer que qualquer coisa torna-se passÃvel de ser transformada em informação, para isso há as maquiagens do sensacionalismo. O caráter mercadoria da informação também revela o seu caráter militante, estamos em meio a fogo cruzado de disputas entre os canais de informação.
Ao ouvir na TV um repórter dizer que os seres humanos morrem é bem provável que passamos despercebidos e não damos muita atenção, mas ao ouvir que um homem dado por morto foi “ressuscitado”, provavelmente nos inclinaremos curiosos para o “mensageiro”. De tal forma, estamos a todo instante filtrando informações. Na rua, no trabalho, no lar, numerosos fatos estão ocorrendo e nossa capacidade de percepção é mÃnima. Certo é que podemos ampliar a nossa capacidade de compreensão, mas em primeira instância os limites biológicos dos nossos sentidos não nos permitem captar mais que 1% das ocorrências que se processam no meio – o número aqui utilizado é mais uma figura de linguagem, já que não é possÃvel essa medida.
Na teoria da comunicação os fatos que não nos interessam são chamados de ruÃdos. O que é ruÃdo para uns não o é para outro. Um pescador que planeja uma pescaria pode estar interessado na informação sobre as marés e a lua, para o operário tal informação pode ser apenas um ruÃdo. De tal forma que toda informação passa pelos nossos filtros que comportam aspectos sociais, culturais e psicológicos nas quais se processam um sentido à informação.
Nesse sentido, a informação carrega um potencial tanto para as nossas ações como para os nossos pensamentos, sendo então, responsáveis pela visão de mundo que cada um constrói. Isso revela o quanto uma informação pode ser perigosa ou reveladora, capaz de mudar os rumos de nossas vidas.
Enquanto seres biopsicossociais formamos nossas crenças, ideologias, idiossincrasias e tudo isso irá se refletir no modo como lidamos, olhamos e acolhemos uma informação. Em geral, costumamos ser abertos para aquilo que não temos opinião formada ou preconceitos, desde que conseguimos situar a informação com algum sentido, o mÃnimo que seja, do contrário ela pode ser apenas um ruÃdo.
Por outro lado, costumamos nos fechar diante de informações nas quais acreditamos ter opiniões bem sustentadas. Para as idéias que já são arraigadas em nós, somos perceptivos quando alguém nos confirma, mas também, infelizmente, costumamos ser agressivos quando alguém as contraria ou as põem em dúvida. – E aqui pode morar o perigo, na medida em que fazemos das nossas idéias, convicções e verdades que podem nos aprisionar.
A realidade militante das idéias é responsável por quase todos os conflitos humanos. Nos revela o quanto fazemos guerra em nome de ideologias e valores; lamentavelmente, alguém adverso à queles pensamentos cristalizados em nós, é inimigo em campo de batalha. O cristão que ataca o ateu, o “capitalista” que ataca o “socialista”, e vice-versa. – Para esse aspecto a filosofia de Nietzsche nos ajudaria muito, na medida em que nos mostra que não somos capazes de saber uma “verdade absoluta”, assim, compreendendo em perspectiva, talvez serÃamos intelectuais menos ignorantes e saberÃamos que o mundo das idéias são criações forjadas por nós. Assim, a vida em si e a nossa relação com o outro poderiam ser vivenciadas sem passar por uma arena de batalha ideológica.
Mais do que agressivos, costumamos tachar como “mentira” e “errado” aquilo que contraria as nossas idéias que acreditamos ser a “verdade” do mundo. O capitalista e o socialista costumam ser inimigo não porque compreendem as idéias divergentes um do outro, mas porque deturpam cada um as idéias do outro. Nefastamente, nossos filtros para a informação costumam ignorar, censurar, rejeitar e excluir aquilo que não queremos saber.
Nesse sentido, nosso sistema ideológico se apresenta como um sistema de idéias mais ou menos sistematizado que serve para controlar a informação: acolhendo, rejeitando ou deturpando para ser possÃvel de acomodação.
A necessidade de não aceitar todo tipo de informação aceitando a informação
Se admitimos que não somos “seres da verdade”, isso não significa que tudo é possÃvel e devemos acatar todo ponto de vista, mas sim, revela o quanto somos acomodados para não ver/saber diante daquilo que não estamos vendo/sabendo.
Sendo convictos estamos de portas fechadas para uma informação que poderia desmentir ou se revelar com maior potencial de utilidade; por outro lado, se aceitamos toda informação sem antes passá-la por um sistema de crÃtica próprio do nosso sistema ideológico, seremos facilmente manipuláveis e estaremos entregando nossas vidas a ideais perpassados por outros.
Temos sim, que filtrar as informações para não sermos joguete do maniqueÃsmo das informações, pois elas são múltiplas, nos levam a caminhos diversos, encruzilhadas, ribanceiras e abismos, mas também podem nos levar a lugares mais altos.
A complexidade está presente na informação, devemos saber trabalhar com as oposições presentes em todo nosso lançar de consciência. Saber ver na informação aquilo que nos é verdade e mentira, admitindo que ambas possam estar presentes, outras vezes, acatamos apenas uma parte, ainda, podemos modificar de acordo com nossos sistemas normativos e só então acomodá-la.
Devemos saber desconfiar das autoridades da informação, sobretudo, aquelas que vêm da polÃtica e da cultura de massas. Confrontar as informações umas com as outras e se necessário juntá-las. Para isso é fundamental termos uma abertura à informação, o que não significa aceitar qualquer canal informativo – como já foi dito -, mas sim, saber trabalhar no plano pantanoso onde as opiniões e o saber se processam.
É saber desconfiar das informações que ainda nos é desconhecida e, principalmente, daquilo que se tornou convicção. Como nenhuma área do saber e nenhum conhecimento comportam a complexidade do real, as convicções são prisões que se fecham para não admitir nada além do que nela está encerrado. – Desconfiar e ao mesmo tempo saber ter confiança, eis a nossa dificuldade para com a informação.
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