Deus, deus-Razão e deus-Comunismo foram os últimos deuses a fracassarem. Prometeram muito e hoje suas lembranças jazem nos túmulos da História. Falharam, talvez, porque ousaram prometer um caminho onde a humanidade deveria chegar: o caminho da felicidade – um destino final.

Tamanha ingenuidade de querer colocar um fim onde não há fim, querer desbravar um caminho onde todos caminhariam sob a tutela dos guardiões do progresso, da segurança e do conforto. Nós, os homens loucos *, vemos surgir dos próprios caminhos, caminhos que nos levam a outros caminhos, de tal forma que andamos por caminhos sem ter caminhos. Não queremos chegar a um fim porque dançamos à circularidade do devir. Sejam noites ou dias, afirmamos o instante, acolhemos as alegrias e as tristezas, e no turbilhão do inaudito a casualidade nos brinda. – Brindamos à Vida.

Quando vós, os sóbrios, vêm nos vender as invenções da modernidade para fazer calar os instintos, transformar a lascívia em doença, o prazer em desprazer e nos oferecer uma nova fórmula da felicidade, desatamos a rir da civilização que nos apresenta como um complexo de calabouços que formam um mundo forjado: o planeta Liberdade.

Não somos pessimistas, pelo contrário, vós, os polidos pela civilização é que negam a vida, pois colocam o prazer sempre no futuro e fecham os olhos para o berço da felicidade: o sofrimento e a dor.

Nós, os loucos, costumamos nos alimentar daquilo que é rejeitado pelo homem liberal econômico: não acreditamos no futuro nem no progresso, pois estes estão presentificados no devir; sabemos cultivar as crises que nos são momentos para alcançar níveis superiores; não esperamos um destino final, um produto redentor, ou o cessar de todos os conflitos, pois a vida nos apresenta como múltiplos e constantes encontros de forças casuais das quais resta-nos, com a razão abraçada à não-razão, reinventar-se a cada instante, fazendo das idéias nossas serviçais e não as nossas senhoras, jogamo-nos diante do abismo do inaudito como os faunos se lançam às florestas, e é lá que dançamos, bebemos e cantamos.

* Homem louco: expressão de Nietzsche para representar o homem que anunciou a morte de Deus; é aquele que se desprendeu dos valores da moral sem negar a moral, desprendeu-se da razão socrática e iluminista sem negar a razão, e, também, se distancia do historicismo que coloca a História como um “tribunal da humanidade” sem negar a História.

Esses links são para compartilhar o conteúdo em redes sociais ou por email.
  • Rec6
  • Ueba
  • Dihitt
  • DoMelhor
  • LinkTo
  • LinkLoko
  • TwitThis
  • E-mail this story to a friend!