As cinco pessoas que você encontra no céu (The five people you meet in heaven, 2004) é um daqueles filmes raros, que nos permitem inúmeras reflexões sobre a vida. Não se trata aqui de um filme que retrata a vida eterna na visão cristã, mas sim, a vida concreta das pessoas retomadas dentro de um contexto imaginativo criado para possibilitar reflexões sobre a vida no aqui e agora.

O personagem central do filme, Eddie (John Voight), teve uma vida marcada por guerra, educação rígida e trabalho árduo. Cresceu e contra a sua vontade seguiu a profissão do pai: operário da manutenção de um parque de diversões. Passado a vida “adulto”, Eddie, já idoso, ao tentar salvar uma garotinha de um acidente com um dos brinquedos do parque acaba morrendo e, ao chegar ao céu, pensa que sua vida foi insignificante.

Porém, 5 pessoas, sendo 3 delas estranhas e outras 2 conhecidas, irão mostrar o quanto a vida de Eddie não foi em vão. Tais personagens relatam que a vida de Eddie teve uma participação fundamental em uma de suas vivências, de modo que o próprio Eddie sequer imaginava que participou decisivamente na vida dessas pessoas.

Embora um dos personagens que Eddie encontra irá afirmar que a vida tem um destino traçado, na qual as vidas das pessoas estão definidas e interligadas, de modo geral, o filme segue uma direção contrária, mostrando o quanto a vida está imersa no acaso. Não temos controle de nossas vidas – essa é uma das mensagens que penso ser a mais interessante do filme.

Pensamos que podemos controlar nossas vidas, traçamos e planejamos metas futuras, esquecemos que o acaso pouco se importa com os nossos sonhos. Mas o acaso é justamente a condição para se afirmar a vida, e não negá-la, e isso o filme consegue passar muito bem, na medida em que mostra que o personagem Eddie precisou morrer para ver que sua vida teve sentido. Para nós, vivos, a mensagem que fica, bem nietzschiana, é: dê valor a vida, aceite-a seja qual for a condição, pois aquilo que nos revela é a mínima camada da vida, de forma que as nossas vivências podem ser de sofrimento ou de alegria dependendo das perspectivas.

Outro aspecto bem evidente no filme é o fato de que as escolhas que fazemos na vida também influencia a vida das outras pessoas, e nós também somos influenciados por elas, idéia esta desenvolvida pelo filósofo existencialista Sartre.

A vida enquanto imersa na casualidade, apresenta-se como uma complexidade de encontros de forças possíveis e que nos é estranha, passando, em sua imensa parte, sob o nosso inconsciente; e é esse turbilhão de combinações que ocorrem no cosmos que nos dá abertura para que, aquilo que captamos e percebemos como experiências significativas, isto é, as nossas vivências, se revelem como potenciais de prazer e desprazer diante do perspectivismo.

As vivências de Eddie, certamente, são diferentes das nossas, mas em todas elas podemos perceber os antagonismos, as dúvidas, as incertezas e os conflitos propriamente humanos. E é nesse plano existencial, que dá vazão às nossas angústias, que penso que o filme em questão é um excelente conteúdo para refletirmos e (re)significar nossas vivências.

Trailer do filme:

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