heraclito.jpgHeráclito de Éfeso é um dos meus pensadores prediletos do período grego antigo, de incrível originalidade, este pensador influenciou muitas vertentes filosóficas, sobretudo, o pensamento dialético; por assim dizer, Heráclito é considerado o “pai da dialética”. Entre os principais filósofos que foram influenciados por Heráclito, podemos citar Nietzsche, Heidegger, Marx, Engels, Hegel, entre outros. Atualmente, quem faz uma retomada do pensamento heraclitiano para fundamentar o corpo teórico do pensamento complexo é o “sociólogo” francês Edgar Morin.

Didaticamente, a filosofia grega é dividida em quatro períodos: pré-socrático; socrático ou antropológico; sistemático e helenístico ou greco-romano. Heráclito é pré-socrático, porém, é preciso cuidado com o termo. Ao usar Sócrates como uma divisória do pensamento filosófico da Grécia Antiga, a Filosofia atribui a ingênua idéia de que qualquer pensador desse período, senão Sócrates, Platão e Aristóteles, padecem de importância. – Usamos o termo aqui, meramente, como recurso didático.

De fato, o que vingou e que ainda impregna o modo de pensamento ocidental, está dentro dos moldes do pensamento socrático-platônico-aristotélico; o platonismo se confunde com o cristianismo. Nesse sentido, é bem possível dizer que o nosso pensamento, nossa visão de mundo e formas de conceber os fenômenos estão esmeradamente engendrados por um forte escolasticismo.

Heráclito e outros filósofos pré-socráticos estavam interessados em fundamentar a origem do mundo e das transformações da Natureza: cosmologia. Entre as principais características do pensamento pré-socrático – e da cosmologia – podemos citar:

  • Busca por uma explicação racional e sistemática sobre a origem e transformações da Natureza, tendo em vista também, desvelar o devir da vida humana.
  • Nega que o mundo tenha surgido do nada, isto significa que o mundo ou a Natureza são eternos e que tudo se transforma em outra coisa sem extinguir.
  • No plano do eterno nada se perde, tudo se transforma, tudo vai e volta, e nessa dinâmica o elemento primordial é chamado physis (fazer, surgir, brotar, produzir). A physis seria a Natureza eterna.
  • Afirma que todos os seres vivos são gerados e mortais, e estão em contínua transformação; o mundo ou a Natureza também estão em contínua transformação, sendo o movimento do mundo denominado devir.
  • Apreensão dos opostos como complementares e não opositores (viver de morte e morrer de vida).

O pensamento dos pré-socráticos não era linear nem opositor, pelo contrário, a dialética enquanto método de pensamento, permitia o movimento de comportar a circularidade de um pensamento capaz de apreender as transformações contínuas do universo. No entanto, esse raciocínio dinâmico não vingou como o pensamento platônico-socrático que corresponde a uma forma linear-causal na busca de compreensão dos fenômenos, aqui os opostos não comportam união (é certo ou errado, verdade ou mentira, bem ou mal…), há uma supremacia estática de verdade, ou é ou não é.

O pensamento platônico-socrático vingou de tal maneira no mundo ocidental que o cristianismo nada mais é que um platonismo (Nietzsche) e a cartada final, dada por Descartes, reforçaria ainda mais o pensamento dualista. Assim, juntamente com as bases socrático-platônicas, o pensamento cartesiano da filosofia moderna se configura como um molde no qual os vários campos das ciências se firmariam, e claro, nós, no dia-a-dia, usamos e abusamos dessa forma de raciocínio.

Felizmente os abalos existenciais do século XIX têm possibilitado o surgimento de novos modelos de pensamento das quais destitui-se o caráter supremo da Razão – que nada mais é do que o deus monoteísta disfarçado de científico. A desconstrução dessa razão sugere uma razão consciente de suas limitações, lança-se ao mundo na busca de compreender os fenômenos em sua totalidade mesmo sabendo que é impossível. Atenta-se para a dinâmica das transformações que permitem um pensamento dinâmico, comportando aspectos de complexidade, totalidade e circularidade.

Aforismos de Heráclito

Heráclito escreveu em forma de aforismos, que por si só não comporta um pensamento sistematizado e punge no leitor, não uma, mas várias interpretações, dependendo da perspectiva adota, dai uma das dificuldades de interpretação e aviltamento pensamento heraclitiano, uma vez que a ciência tradicional exige sistematizações metodológicas. Um dos pensamentos de Heráclito que mais gosto é:

Imortais, mortais; mortais, imortais. A vida destes é a morte daqueles e a vida daqueles a morte destes.

Heráclito está apontando para a matéria em suas transformações, isto é, a matéria não se perde, se transforma. Nos diz ainda que vivemos de morte e morremos de vida. Ficou difícil? – Imagine o ciclo natural dos seres vivos, necessariamente, devemos nos alimentar de outros seres vivos (viver da morte) que por fim, também são alimentados por outros seres vivos ou morrem e dispersam seus componentes orgânicos na Natureza (morrer de vida). Assim, nesse ciclo eterno da Natureza, onde tudo se transforma, a mortalidade é imortalizada. Aqui vemos e morte e vida, não em oposição, mas sim, enquanto forças tensionais de complementaridade.

Para quem quiser conhecer um pouco mais de Heráclito o link a seguir contém um excelente conteúdo do assunto: Cultura Brasil – Heráclito de Éfeso.

*Imagem: Heralitus, Johannes Moreelse (Wikipédia)

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