Paul Gauguin- EveO mito de Adão e Eva, presente no livro de Gênesis do Velho testamento da Bíblia cristã, e também no Alcorão, é uma parábola que admite diferentes interpretações, muito embora tenha pessoas que tomam essa narrativa em sentido literal, acreditam realmente que Adão e Eva existiram e que foram os precursores da humanidade.

Resumidamente, Deus, à sua semelhança, modelou do barro uma silhueta, e do sopro deu vida a Adão; para que Adão não se sentisse sozinho criou Eva, porém, Eva não veio do barro, veio de uma das partes do corpo de Adão. Aqui já temos uma moral cristã: a mulher está subjugada ao homem, deve sim respeito a Deus, mas também ao homem que, por sua vez, acredita ser mais próximo de Deus do que a mulher, afinal, a mulher veio do homem e não de Deus. Apenas com o mito de Adão e Eva já da para ter uma clareza de como será a relação homem-mulher dentro da moral cristã, perpassando valores monogâmicos e patriarcais. – Ou para usar um termo pejorativo mais recente: o cristianismo é absolutamente “machista”.

Em Nietzsche essa parábola é interpretada dentro de uma moral cristã que justifica um dos mecanismos por excelência do cristianismo para manutenção dos fiéis: o pecado; e este, por sua vez, está visceralmente ligado ao sentimento de culpa.

Nietzsche, com sua argúcia costumeira, começa com uma interrogação no capítulo XLVIII da sua obra “O anticristo”: “Já se compreendeu bem a célebre história que se encontra no princípio da Bíblia, a história do pânico de Deus perante a ciência?”

“O Deus antigo” – aquele do velho testamento -, diz ele, passeia pelo seu jardim e se aborrece – “Os próprios deuses lutam em vão contra o tédio” -, e para superar seu aborrecimento inventa o homem. O homem é divertido mas também se aborrece, o que leva Deus com sua piedade característica, criar os animais para fazer companhia ao homem. Nietzsche aponta aqui o primeiro equívoco de Deus: o homem não fez dos animais sua companhia, se colocou acima deles e nem mesmo ele, homem, quis ser “animal”.

Deus então criou a mulher para fazer companhia ao homem, o seu segundo equívoco, pois como se sabe, a mulher torna-se uma “serpente”; por essência, a mulher no cristianismo, a partir da simbolização de Eva, carrega o fardo de ser a corporificação do mal no mundo. O mal na terra, irão dizer os sacerdotes, foi trazido pela mulher. Nesse momento o filósofo provoca: “Logo, a ciência também vem dela?…”

É nesse contexto que Nietzsche irá dizer que o maior equívoco de Deus foi o próprio homem, pois ao comer o fruto proibido da “árvore da ciência”, isto é, aquela que representa a fronteira da postura de curiosidade do homem frente ao desconhecido – o conhecimento -, criou o próprio rival de Deus: a ciência. A ciência é a arma do homem contra Deus, e é justamente a ciência, na modernidade, que sepulta o “Poderoso”, o mundo transcendental deixa de exercer supremacia nos valores morais que passam então a vigorar a partir da vida terrena: o Iluminismo, o homem econômico surgido na concepção de Hobbes juntamente com o Estado absoluto, o liberalismo, etc., são novos valores que passam agora a desferir as diretrizes da conduta humana. Nietzsche então, nesse contexto, irá dizer que “Deus está morto!”, enquanto uma constatação, e não como um crime cometido por ele.

Tendo o homem ultrapassado a fronteira do desconhecido, aquilo que Deus ordenou que não deveria ser feito, isto é, a curiosidade do homem vencendo a ordem divina, simbolizando o conhecimento do homem, a ciência, tornou Deus presa do pânico: a ciência é então a coisa proibida, é contra a ciência que os sacerdotes devem lutar caso queiram manter os homens sob o controle divino.

Dentro dessa perspectiva nietzschiana do mito de Adão e Eva, a ciência surge como o primeiro pecado, o pecado original, é a partir dela que germinará outros pecados – o homem desobedeceu a ordem divina que o alertava: “Tu não conhecerás nada”.

Surge então um problema, como Deus poderá superar seu pânico? Como defender-se da ciência? Há no mundo uma criatura que poderá voltar-se contra o próprio Criador. Ironicamente o Criador, com o barro, brincou com fogo e se queimou.

O homem está à solta no paraíso, e a felicidade e a ociosidade são capazes de evocar pensamentos, mas o pensamento, isto é, o conhecimento, é um mau negócio para Deus, “todo pensamento é um mau pensamento” para o cristianismo. Essa premissa fica clara para os sacerdotes: evitar que o homem pense será a principal labuta.

Imperará então, como forma por excelência de manutenção do rebanho das “ovelhas de Cristo”, o pecado e o sentimento de culpa. Os apóstolos e sacerdotes tornaram a vida terrena pesada; salgaram o corpo com seus instintos e tudo que é terreno, o homem deve libertar-se do seu próprio corpo, senão corre o risco de pecar; principalmente o corpo da “serpente” mulher, evite-o, pois ele é porta aberta para o mal.

Diz Nietzsche: “O homem não deve pensar. E o ’sacerdote’ em si inventa a pena, a morte, o perigo mortal do embaraço, toda a espécie de misérias, a velhice, a inquietação, antes de tudo, a doença; nada mais senão meios de luta contra a ciência! A miséria não permite que o homem pense…”

A miséria não permite ao homem pensar, e o berço do cristianismo é a miséria, toda condição que nega a vida no aqui e agora, isto é, uma condição de miserabilidade absoluta, é essencial para que a crença em “outro mundo” possa se sustentar. – Qual seria o interesse pela vida eterna se a vida real fosse feita para ser experimentada com todo vigor? Essa vida não presta, é corrompida e nada mais é do que uma prova de teste que será analisada pelo tribunal que sentenciará o juízo final. Eis a filosofia cristã: a negação da vida.

“E o Deus antigo adota como derradeira decisão: ‘O homem tornou-se científico, é uma coisa que não serve para nada, precisa ser afogado!…‘” (Nietzsche)

*Imagem: Eva e a árvore da ciência; Gauguin, P., 1889 (Wikipédia)

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