Duas árvores iguais em locais distintos. Uma tem a vista paradisíaca das colinas em verdes prados; com freqüência suas folhas são agraciadas com o afago das chuvas torrenciais, além de receber do sol quantos abraços acalorados e reluzentes precisar. A outra se situa soterrada a um pequeno espaço de terra enquadrada no concreto poluído das civilizações; recebe o que os humanos apressados na corrida do capital têm a oferecer, o banho de chuva costuma ser ácido e o sol foi censurado por vários edifícios de luxo.

Ambas nasceram com o mesmo potencial, mas qual tem maiores possibilidades de desenvolver toda sua potencialidade? Irão conseguir florescer da mesma forma? Gerar os mesmos frutos?

Imaginemos agora nós humanos. Nascemos em um universo social, cultural e biológico complexo e diversificado. O devir pode criar nuances de semelhanças, mas diante de várias possibilidades, tolo é aquele que procura nas moradas da razão os idealismos de causa e efeito da ingênua ordem linear.

Nascidos em épocas e em famílias diferentes, homens e mulheres seguirão religiões, políticas, pensamentos e ideais diferentes; cada qual construirá sua sexualidade, seu sistema de valores, seus critérios de avaliação, suas formas de relacionamento com o outro e com as vicissitudes da vida – não criarão a si mesmos a partir do nada, mas sempre de um plano social onde os elementos surgem de uma bandeja temporal. Somos lançados a uma complexidade de variantes que superam todas as nossas ingênuas pretensões de compreender o real, senão uma fina camada daquilo que chamamos de realidade.

Suponhamos agora que aquelas árvores sejam macieiras, poderão elas gerar melancias?

Da mesma forma, não depende de nós escolhermos o local, a época, a cor, o continente, a família e inúmeras outras possibilidades que não temos controle, simplesmente nascemos e somos lançados ao mundo, ao acaso.

Eis o Mundo, a Natureza: o Inaudito, o trágico dionisíaco que ri desdenhosamente do homem moderno.

Senhores religiosos, onde está o livre-arbítrio senão na criação de vocês? Poderá o livre-arbítrio colocar rédeas na Vida?

Senhores liberais, onde está a liberdade absoluta que o capitalismo lhes prometeu? Vós que sóis escravos felizes prisioneiros de uma estrutura chamada Liberdade, digam-me, como podem ter a insana imaginação de dizer que o pobre e o rico não são senão produto de suas próprias escolhas?

O presente urge com uma complexidade de possibilidades para serem transformadas pela criação e destruição, até na maior desgraça há de existir um fragmento de encantamento. Mas o homem moderno está cansado, carrega fardos milenares do passado para negar o presente pensando no futuro.

Se quisermos a liberdade, usamo-la com a consciência de que se trata de uma invenção nossa. Se quisermos o conhecimento, conhecemos sabendo que não passa de uma tentativa de tentar revelar algo que jamais se revelará em sua forma verdadeira. Mas se quisermos viver a vida teremos que abraçá-la e torná-la imune a qualquer tribunal de julgamento, pois não temos outra para usar como critério, só temos essa e única vida que não nos permite saber de antemão o resultado do devir.

Assim, convidamos o Inaudito para dançar conosco à beira do abismo juntamente com todos os impulsos, libertamos o riso e o choro desprovidos da razão, mas carregados do desconhecido e deixamos a consciência em seu lugar de senhora criadora da Vida, com o cuidado para não tornar corpo e sentimentos reles escravos.

São os escravos felizes os senhores de sua própria escravidão.

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