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O que é pós-modernismo, modernidade tardia ou era do vazio
21set2008 Categoria(s): Filosofia Autor: advIntrodução
Muito se fala em pós-modernidade, e mais do que isso, o termo “pós-modernismo” vem se tornando um “termo-gaveta”, isto é, um termo que age como um imã, saturando-se de significados quaisquer que sejam. Tais termos são perigosos, carregam Deus e o Diabo trocando condolências em uma mesma carruagem, querem dizer o “tudo”, mas se confundem em uma cacofonia de vozes. Tudo é “pós-modernismo”, dizem. No cotidiano encontramos a face de dois gumes do termo: pós-moderno é usado tanto em sentido pejorativo como em sentido virtuoso; o sujeito pós-moderno então pode ser visto de acordo com a preferência do observador.
Não é minha intenção discutir nenhum dos dois significados, mas sim, apresentar algumas considerações sobre o conceito de pós-modernismo dentro de uma perspectiva sociológica, sobretudo, com os contornos do sociólogo Zygmunt Bauman.
O próprio termo não é um consenso dentro da sociologia. Bauman diz que Giddens caracteriza a sociedade atual como “moderna tardia”, Beck como “moderna reflexiva” entre outros. Já ele, Bauman, opta pela sociedade “pós-moderna”: “A nossa sociedade (…) como prefiro denominá-la - pós-moderna é marcada pelo descrédito, escárnio ou justa desistência de muitas ambições (…) caracterÃsticas da era moderna.”
O importante não é então a etimologia da palavra, mas sim, termos em mente que quando falamos em “pós-modernismo” fora do senso comum, estamos falando de um perÃodo marcado por algumas transformações, momento este que marca uma linha divisória mas não fixa e nem tanto inteligÃvel entre o que é “moderno” e “pós-moderno”.
Usamos pós-modernismo para caracterizar uma época onde visÃveis mudanças ocorrem na sociedade em suas múltiplas faces: polÃtica, arte, economia, ciência, técnica, educação, relações humanas, etc. No entanto, não significa que a humanidade abandonou a modernidade, são tênues divisórias imaginárias que marcam o que é moderno e o que é pós-moderno; o pós-modernismo, em seus vários aspectos que o distingue da era moderna, carrega também a modernidade; aliás, é tão platônico quanto os perÃodos anteriores.
Não reinventamos uma nova moral, uma nova ética, uma nova ciência, uma nova economia, etc., um dos princÃpios do debate pós-modernista é a liberdade, de tal forma que ela sorri abertamente para as divergências; o efêmero, outro princÃpio pós-moderno, necessita do debate de opiniões, mas a ordem é não manter nenhuma ordem, nenhuma opinião, nenhum valor que seja fixo. A liberdade pós-moderna permite tudo, menos a liberdade da não-liberdade, fixamente só está o valor supremo da efemeridade das coisas, tudo apresenta-se como lÃquido, disforme, fluido, impossÃvel de constância - daà o termo modernidade lÃquida de Bauman em contraposição à modernidade sólida do perÃodo moderno onde o mundo era criado conforme uma ordem universal.
Modernidade: o modernismo
Penso que não dá para compreender pós-modernismo sem antes jogar um pouco de luz sobre aquilo que até então foi chamado de modernidade.
A modernidade tirou Deus do centro do universo e colocou o homem, os valores deixaram de vir do plano transcendental e passaram a ser ditados pela vida terrena. A Reforma e, sobretudo, as mudanças econômicas do século XVII, o capitalismo se despedindo de suas formas pré-capitalistas, o germinar do conhecimento moderno, a saber, o cartesianismo, o humanismo, o iluminismo entre outras fontes cientÃficas e filosóficas, dotaram o homem de força e sabedoria. Até então, ele era um frágil, errante e pecador que deveria se sujeitar ao conhecimento dado pelo teÃsmo, mas na modernidade é ele, homem, que assume o posto da divindade.
Deus é destronado - o homem cientÃfico matou Deus, constatou Nietzsche -, o plano divino não é negado, mas a vida terrena é separada da vida eterna, na terra reina o homem, no céu reina Deus. O homem econômico liberal com seu “super-poder” - a Razão - irá buscar criar um mundo ideal, mais ou menos previsÃvel, determinado, organizado, lógico, racional e, principalmente, ordenado - condições essenciais para que se possa atingir a felicidade também inventada pelo homem moderno.
A sociedade moderna deveria estar sobre o controle absoluto do Estado, os instintos e a vida cotidiana deveriam ser domados pelos mecanismos estatais de modo a controlar homens e mulheres para a boa ordem da civilização. Estradas planas e bem iluminadas eram necessárias para que o capital pudesse desfilar livremente rumo ao progresso, este, o novo dogma da era moderna.
A moral, a ética e a ciência ditavam uma ordem determinista e universal, o discurso que não se enquadrava no método lógico-formal não poderia ter lugar no palco cientÃfico. A era moderna foi marcada, sobretudo, pela crença na razão e no progresso - em outros termos, pela inversão do pólo transcendental para o terreno.
Mas o século XX iria colocar em xeque o mundo do progresso e da razão. A ordem e a inteligibilidade pareciam se tornar anêmicas diante de grandes colapsos gerados pelas guerras, revoluções, estragos ambientais, atrocidades e mortes em massa e outros conflitos marcados pelo horror.
Ora, pois, a Razão começava a perder a razão, a ordem mostrava o caos, e o progresso… bem, o progresso que prometia uma viagem tranqüila à estação felicidade parecia ser a trilha para o fim do mundo. - O homem passou a questionar-se sobre aquelas virtudes quase divinas que ele tinha atribuÃdo a si mesmo. A euforia no progresso dá lugar à incerteza no futuro - eis aqui um dos componentes essenciais das “almas pós-modernas”.
Pós-moderno: o pós-modernismo
Nesse contexto de profundas crises humanas, mudanças irão surgir nas múltiplas faces sociais e culturais. Podemos dizer que nas últimas décadas do século XX entra em cena um espectro fantasmagórico e um ar perfumado de incertezas e dúvidas: o pós-modernismo.
Há uma ruptura com o mundo ordenado da modernidade e a crença no progresso vira comicidade. Mudanças ocorrem em vários campos, as “certezas” se diluem em incertezas e a liberdade, tão cultuada, trata de dar os contornos das novas configurações econômicas, sociais, culturais, polÃticas, artÃsticas, cientÃficas e cotidianas - e ninguém sabe dizer para onde estamos indo; a modernidade respondia com autoridade que estávamos caminhando para o progresso, mas a pós-modernidade mantém-se na caducidade, e também não está interessada em responder questões existenciais.
Nesse novo palco nada deve ser fixado, a atmosfera social é marcada pela incerteza e pela nebulosidade, e deve ser organizada de modo que as celebrações de contratos possam contemplar uma fuga: nascer com um prazo de expiração é uma virtude no mundo pós-moderno.
Homens e mulheres pós-modernos sabem que durante a viagem as aventuras fazem parte do itinerário, mas a chegada na estação de destino costuma ser marcada pelo sentimento de vazio. - O pós-modernismo busca a todo instante a intensificação das sensações e dos prazeres da felicidade, mas jamais quer conhecer a face daquilo que procura.
Nas relações humanas as identidades são marcadas pelas incertezas. Os vÃnculos são ditados por um jogo onde o jogador deve conquistar o maior número possÃvel de admiradores, mas com o devido cuidado para manter uma distância que não permita criar laços sólidos. A instituição do casamento é um negócio mais com caráter de festividade do que o antigo pacto de homens e mulheres que adquiriam o alvará, perante Deus, para terem relações sexuais selados com a aprovação divina; o ar pesado do “até que a morte nos separe” é substituÃdo pela leveza de um contrato que deve deixar muito bem claro as fronteiras que dirão os rumos de cada um quando o amor perder o prazo de validade.
Até que provem o contrário, toda teia social é passÃvel de suspeita universal, nela estão emboscadas que podem tirar o participante do jogo, presume-se que tudo seja precário e duvidoso. A vida social é marcada por experimentos, uma vida experimental é provisória, na base de tentativas, homens e mulheres pós-modernos jogam sem saber a linha de chegada, o importante é não ser expulso do jogo e o fim deve ser eternamente adiado. O jogador jamais pode se declarar vencedor diante de tantas incertezas e da terrÃvel idéia de que a linha de chegada é o desfiladeiro para o horror; a regra é estar realizando jogadas estratégicas de modo a ampliar cada vez mais o repertório de sensações “boas”. Não há nenhum prêmio final em jogo, mas há um calabouço da qual os perdedores são enviados e dificilmente serão readmitidos novamente; poderão, quando muito, aguardar a morte trancafiados em porões que abrigam os inválidos, miseráveis, improdutivos, errantes, loucos e um exército de ex-soldados que foram expulsos do jogo do capital - aqueles que já não podem consumir mais.
DifÃcil enquadrar o momento atual em um conceito, nenhum caminho está traçado para a humanidade, o discurso do progresso como uma linha reta rumo à felicidade desmanchou-se no ar. O pós-modernismo está marcado por uma atmosfera do vazio, do tédio e do completo niilismo; o niilista passivo, tal como previsto por Nietzsche, é marca fundamental dos personagens responsáveis pelo show. Nietzsche disse também que o niilismo poderia se “quebrar”, e a completa vontade de nada poderia não mais suportar a si própria, e novos sentidos poderiam ser inventados, mas por enquanto o incerto caminho da humanidade está em aberto, certo é que está bem mais para a destruição do que para a criação.
Caracterizar o pós-modernismo não significa negar a época atual em detrimento do modernismo, não é querer uma volta ao passado. Pós-modernismo e modernismo não são gladiadores a se digladiarem para ver quem é o vencedor e quem é o perdedor; são momentos, paisagens da humanidade que buscam, pretensiosamente, descrever os caminhos por onde têm andado a humanidade. Não nos cabe o julgamento, olhar para o passado e acusar o presente ou negar o passado enaltecendo o presente.
O passado, o presente e o futuro não escondem nenhum ponto arquimediano, são antes de tudo invenções nossas, cabe-nos, a partir do aqui e agora, decidirmos se queremos reafirmar a vida que até então tem sido negada por uma vida marcada pelo mundo ideal, ou - o que parece ter sido mais confortável até aqui -, vivermos no mundo do simulacro. Estamos, como nos diz Saramago, através de um dos personagens de “Ensaios sobre a cegueira”: (…) cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem.”
“O que estamos fazendo de nossas vidas?” - perguntou Foucault -, o pós-modernismo ainda vai adiar qualquer tentativa de resposta, não se sabe até quando. No momento os deuses pós-modernos, o Capital e o Consumo, só aceitam oferendas marcadas pelo efêmero, pelo incerto, pela dúvida, pela liberdade e pelo eterno adiamento.

Fontes bibliográficas e leituras recomendadas:
Bauman, Z. Vidas desperdiçadas.
_________ Modernidade lÃquida.
_________ Amor lÃquido.
_________ O mal-estar na pós-modernidade.
Ferreira, J. F. O que é pós-moderno.
Lipovetsky, G. A era do vazio.
Religião e consumismo - os deuses nas vitrines da pós-modernidade | Eterno Retorno
outubro 14th, 2008 at 6:45
[...] discorrer sobre vários aspectos que marcam o perÃodo atual que vivemos, chamado por ele de “pós-modernidade“. Vale lembrar que este termo não é um consenso para designar a contemporaneidade, embora [...]
Tiago Zortéa
novembro 22nd, 2008 at 16:52
Cara, muito bom o texto! Parabéns! Excelente forma de escrita, crÃtica e articulação muito interessante sobre o conceito de pós-modernismo!
adv
novembro 23rd, 2008 at 18:30
@Tiago Zortéa: tk´s ;)
Sil Drabeski
janeiro 28th, 2009 at 6:25
“um espectro fantasmagórico e um ar perfumado de incertezas e dúvidas: o pós-modernismo”. Seu texto está bem coerente, e expressa realmente as caracteristicas desse tempo, incerto, meio ao vazio, imbuÃdo de coisas lÃquidas, intáteis.. Adorei o que li!
Eu já li um livro do Zygmunt Bauman, Modernidade e Holocausto, e agora quero ler os demais! Anotei suas outras indicações!
Estou me aventurando agora neste seu espaço e tenho encontrado muita coisa, muitos textos que me interessam!
E sem falar que ‘eterno retorno’, é para mim, também uma palavra preferida! Posso pegar seu contato?
Adriel
janeiro 28th, 2009 at 13:36
@Sil Drabeski: olá, obrigado pelas suas considerações. Dei uma espiada no seu blog e guardei para olhá-lo com calma depois, a primeira impressão me agradou muito e certamente creio que tem muita coisa ali que vai me servir também ;)
Abaixo segue meu mail e msn ok.
adrieldutra(arroba)msn.com
Amores despedaçados | Eterno Retorno
março 20th, 2009 at 13:43
[...] a besta terrÃvel e real que o homem pode ser, ou se preferirem simplesmente chamá-la de “pós-modernismo” - não importa aqui o termo mas sim compreender as múltiplas mudanças em relação à [...]