O que é pós-modernismo, modernidade tardia ou era do vazio

Introdução

futuro-do-planetaMuito se fala em pós-modernidade, e mais do que isso, o termo “pós-modernismo” vem se tornando um “termo-gaveta”, isto é, um termo que age como um imã, saturando-se de significados quaisquer que sejam. Tais termos são perigosos, carregam Deus e o Diabo trocando condolências em uma mesma carruagem, querem dizer o “tudo”, mas se confundem em uma cacofonia de vozes. Tudo é “pós-modernismo”, dizem. No cotidiano encontramos a face de dois gumes do termo: pós-moderno é usado tanto em sentido pejorativo como em sentido virtuoso; o sujeito pós-moderno então pode ser visto de acordo com a preferência do observador.

Não é minha intenção discutir nenhum dos dois significados, mas sim, apresentar algumas considerações sobre o conceito de pós-modernismo dentro de uma perspectiva sociológica, sobretudo, com os contornos do sociólogo Zygmunt Bauman.

O próprio termo não é um consenso dentro da sociologia. Bauman diz que Giddens caracteriza a sociedade atual como “moderna tardia”, Beck como “moderna reflexiva” entre outros. Já ele, Bauman, opta pela sociedade “pós-moderna”: “A nossa sociedade (…) como prefiro denominá-la – pós-moderna é marcada pelo descrédito, escárnio ou justa desistência de muitas ambições (…) características da era moderna.”

O importante não é então a etimologia da palavra, mas sim, termos em mente que quando falamos em “pós-modernismo” fora do senso comum, estamos falando de um período marcado por algumas transformações, momento este que marca uma linha divisória mas não fixa e nem tanto inteligível entre o que é “moderno” e “pós-moderno”.

Usamos pós-modernismo para caracterizar uma época onde visíveis mudanças ocorrem na sociedade em suas múltiplas faces: política, arte, economia, ciência, técnica, educação, relações humanas, etc. No entanto, não significa que a humanidade abandonou a modernidade, são tênues divisórias imaginárias que marcam o que é moderno e o que é pós-moderno; o pós-modernismo, em seus vários aspectos que o distingue da era moderna, carrega também a modernidade; aliás, é tão platônico quanto os períodos anteriores.

Não reinventamos uma nova moral, uma nova ética, uma nova ciência, uma nova economia, etc., um dos princípios do debate pós-modernista é a liberdade, de tal forma que ela sorri abertamente para as divergências; o efêmero, outro princípio pós-moderno, necessita do debate de opiniões, mas a ordem é não manter nenhuma ordem, nenhuma opinião, nenhum valor que seja fixo. A liberdade pós-moderna permite tudo, menos a liberdade da não-liberdade, fixamente só está o valor supremo da efemeridade das coisas, tudo apresenta-se como líquido, disforme, fluido, impossível de constância – daí o termo modernidade líquida de Bauman em contraposição à modernidade sólida do período moderno onde o mundo era criado conforme uma ordem universal.

Modernidade: o modernismo

Penso que não dá para compreender pós-modernismo sem antes jogar um pouco de luz sobre aquilo que até então foi chamado de modernidade.

A modernidade tirou Deus do centro do universo e colocou o homem, os valores deixaram de vir do plano transcendental e passaram a ser ditados pela vida terrena. A Reforma e, sobretudo, as mudanças econômicas do século XVII, o capitalismo se despedindo de suas formas pré-capitalistas, o germinar do conhecimento moderno, a saber, o cartesianismo, o humanismo, o iluminismo entre outras fontes científicas e filosóficas, dotaram o homem de força e sabedoria. Até então, ele era um frágil, errante e pecador que deveria se sujeitar ao conhecimento dado pelo teísmo, mas na modernidade é ele, homem, que assume o posto da divindade.

Deus é destronado – o homem científico matou Deus, constatou Nietzsche -, o plano divino não é negado, mas a vida terrena é separada da vida eterna, na terra reina o homem, no céu reina Deus. O homem econômico liberal com seu “super-poder” – a Razão – irá buscar criar um mundo ideal, mais ou menos previsível, determinado, organizado, lógico, racional e, principalmente, ordenado – condições essenciais para que se possa atingir a felicidade também inventada pelo homem moderno.

A sociedade moderna deveria estar sobre o controle absoluto do Estado, os instintos e a vida cotidiana deveriam ser domados pelos mecanismos estatais de modo a controlar homens e mulheres para a boa ordem da civilização. Estradas planas e bem iluminadas eram necessárias para que o capital pudesse desfilar livremente rumo ao progresso, este, o novo dogma da era moderna.

A moral, a ética e a ciência ditavam uma ordem determinista e universal, o discurso que não se enquadrava no método lógico-formal não poderia ter lugar no palco científico. A era moderna foi marcada, sobretudo, pela crença na razão e no progresso – em outros termos, pela inversão do pólo transcendental para o terreno.

Mas o século XX iria colocar em xeque o mundo do progresso e da razão. A ordem e a inteligibilidade pareciam se tornar anêmicas diante de grandes colapsos gerados pelas guerras, revoluções, estragos ambientais, atrocidades e mortes em massa e outros conflitos marcados pelo horror.

Ora, pois, a Razão começava a perder a razão, a ordem mostrava o caos, e o progresso… bem, o progresso que prometia uma viagem tranqüila à estação felicidade parecia ser a trilha para o fim do mundo. – O homem passou a questionar-se sobre aquelas virtudes quase divinas que ele tinha atribuído a si mesmo. A euforia no progresso dá lugar à incerteza no futuro – eis aqui um dos componentes essenciais das “almas pós-modernas”.

Pós-moderno: o pós-modernismo

Nesse contexto de profundas crises humanas, mudanças irão surgir nas múltiplas faces sociais e culturais. Podemos dizer que nas últimas décadas do século XX entra em cena um espectro fantasmagórico e um ar perfumado de incertezas e dúvidas: o pós-modernismo.

Há uma ruptura com o mundo ordenado da modernidade e a crença no progresso vira comicidade. Mudanças ocorrem em vários campos, as “certezas” se diluem em incertezas e a liberdade, tão cultuada, trata de dar os contornos das novas configurações econômicas, sociais, culturais, políticas, artísticas, científicas e cotidianas – e ninguém sabe dizer para onde estamos indo; a modernidade respondia com autoridade que estávamos caminhando para o progresso, mas a pós-modernidade mantém-se na caducidade, e também não está interessada em responder questões existenciais.

Nesse novo palco nada deve ser fixado, a atmosfera social é marcada pela incerteza e pela nebulosidade, e deve ser organizada de modo que as celebrações de contratos possam contemplar uma fuga: nascer com um prazo de expiração é uma virtude no mundo pós-moderno.

Homens e mulheres pós-modernos sabem que durante a viagem as aventuras fazem parte do itinerário, mas a chegada na estação de destino costuma ser marcada pelo sentimento de vazio. – O pós-modernismo busca a todo instante a intensificação das sensações e dos prazeres da felicidade, mas jamais quer conhecer a face daquilo que procura.

Nas relações humanas as identidades são marcadas pelas incertezas. Os vínculos são ditados por um jogo onde o jogador deve conquistar o maior número possível de admiradores, mas com o devido cuidado para manter uma distância que não permita criar laços sólidos. A instituição do casamento é um negócio mais com caráter de festividade do que o antigo pacto de homens e mulheres que adquiriam o alvará, perante Deus, para terem relações sexuais selados com a aprovação divina; o ar pesado do “até que a morte nos separe” é substituído pela leveza de um contrato que deve deixar muito bem claro as fronteiras que dirão os rumos de cada um quando o amor perder o prazo de validade.

Até que provem o contrário, toda teia social é passível de suspeita universal, nela estão emboscadas que podem tirar o participante do jogo, presume-se que tudo seja precário e duvidoso. A vida social é marcada por experimentos, uma vida experimental é provisória, na base de tentativas, homens e mulheres pós-modernos jogam sem saber a linha de chegada, o importante é não ser expulso do jogo e o fim deve ser eternamente adiado. O jogador jamais pode se declarar vencedor diante de tantas incertezas e da terrível idéia de que a linha de chegada é o desfiladeiro para o horror; a regra é estar realizando jogadas estratégicas de modo a ampliar cada vez mais o repertório de sensações “boas”. Não há nenhum prêmio final em jogo, mas há um calabouço da qual os perdedores são enviados e dificilmente serão readmitidos novamente; poderão, quando muito, aguardar a morte trancafiados em porões que abrigam os inválidos, miseráveis, improdutivos, errantes, loucos e um exército de ex-soldados que foram expulsos do jogo do capital – aqueles que já não podem consumir mais.

Difícil enquadrar o momento atual em um conceito, nenhum caminho está traçado para a humanidade, o discurso do progresso como uma linha reta rumo à felicidade desmanchou-se no ar. O pós-modernismo está marcado por uma atmosfera do vazio, do tédio e do completo niilismo; o niilista passivo, tal como previsto por Nietzsche, é marca fundamental dos personagens responsáveis pelo show. Nietzsche disse também que o niilismo poderia se “quebrar”, e a completa vontade de nada poderia não mais suportar a si própria, e novos sentidos poderiam ser inventados, mas por enquanto o incerto caminho da humanidade está em aberto, certo é que está bem mais para a destruição do que para a criação.

Caracterizar o pós-modernismo não significa negar a época atual em detrimento do modernismo, não é querer uma volta ao passado. Pós-modernismo e modernismo não são gladiadores a se digladiarem para ver quem é o vencedor e quem é o perdedor; são momentos, paisagens da humanidade que buscam, pretensiosamente, descrever os caminhos por onde têm andado a humanidade. Não nos cabe o julgamento, olhar para o passado e acusar o presente ou negar o passado enaltecendo o presente.

O passado, o presente e o futuro não escondem nenhum ponto arquimediano, são antes de tudo invenções nossas, cabe-nos, a partir do aqui e agora, decidirmos se queremos reafirmar a vida que até então tem sido negada por uma vida marcada pelo mundo ideal, ou – o que parece ter sido mais confortável até aqui -, vivermos no mundo do simulacro. Estamos, como nos diz Saramago, através de um dos personagens de “Ensaios sobre a cegueira”: (…) cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem.”

O que estamos fazendo de nossas vidas?” – perguntou Foucault -, o pós-modernismo ainda vai adiar qualquer tentativa de resposta, não se sabe até quando. No momento os deuses pós-modernos, o Capital e o Consumo, só aceitam oferendas marcadas pelo efêmero, pelo incerto, pela dúvida, pela liberdade e pelo eterno adiamento.

caracteristicas-pos-modernismo

Fontes bibliográficas e leituras recomendadas:

Bauman, Z. Vidas desperdiçadas.
_________ Modernidade líquida.
_________ Amor líquido.
_________ O mal-estar na pós-modernidade.
Ferreira, J. F. O que é pós-moderno.
Lipovetsky, G. A era do vazio.

Comentário(s): 18

  1. Jana

    Muito bom o texto! Parabéns! Além de ajudar a pensar “sociologicamente” o conceito, faz refletir… Reitero o pedido pelas referências do texto para citação!

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  2. milena

    o texto é até bom mais em muitas partes achei ridícula as falas em que deus não é centro de tudo e sim os homens mais os homens só tem a inteligencia graças que deus os deu.mais fazer o que se eles acham que foi macaco!!

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