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Diálogo entre Nietzsche e Voltaire a partir do conto Micrômegas
28set2008 Categoria(s): Filosofia Autor: advMICRÔMEGAS, Voltaire, 1752 | download |
Diálogo de Micrômegas com o anão de Saturno
Na narrativa, Micrômegas, um gigante de quase 5.000 metros de altura que vive no planeta SÃrius, um dos seres mais cultos já visto, em suas aventuras pelas galáxias, encontra-se com um filósofo do planeta Saturno; este habitante saturnino tem quase 2.000 metros de altura, o que para Micrômegas é um anão.
Micrômegas e o anão são bons filósofos, na qual decorrerá daÃ, várias questões levantadas por Voltaire através do diálogo dos dois, para mostrar o quanto o homem faz um papel, literalmente, de ridÃculo ao se esconder como um cordeiro nas entranhas da razão e criar um mundo na qual ele acha ser universal.
Os habitantes de Saturno possuem 72 sentidos, e os sÃrius possuem quase 1.000, e tanto Micrômegas como o anão reconhecem que, embora possuam muitas paixões e curiosidades, decorridas de seus sentidos, são limitados e freqüentemente advertidos pelo sentimento de vazio e de tédio quanto à s suas condições ontológicas. Micrômegas diz que em suas viagens se deparou com vários seres superiores e inferiores em termos de evolução, na qual constatou que todos possuem mais desejos do que necessidades, e mais necessidades do que satisfações. – Obviamente que se trata de uma provocação de Voltaire à inquietação do homem.
Micrômegas pergunta ao anão qual o a duração da vida em Saturno, este responde que é bem curta (cerca de 15.000 anos humanos); o gigante também reclama da duração da vida em SÃrius (700 vezes maior que a de Saturno) e diz que acredita ser essa uma questão que atinge a todas as espécies “inteligentes”, porém: “Mas há em toda parte gente sensata que sabe tomar as coisas à boa parte e agradecer ao autor da natureza” – diz Micrômegas. – Certamente que ai é outra sutileza sarcástica de Voltaire, pode-se dizer, talvez, aos ascetas.
Em outra discussão, Micrômegas e o anão constatam que há uma grande variedade de diferenças entre os planetas, mas parece haver uma proporcionalidade entre as caracterÃsticas de cada planeta quanto ao nÃvel intelectual de cada espécie que vê o mundo de acordo com a matéria passÃvel à percepção de seus limites dos sentidos e da tecnologia.
Essas são apenas algumas das discussões iniciais de Micrômegas com o anão antes de partirem, juntos, para uma pequena “viagem filosófica” em outros planetas. Ambos partem, e encontram o planeta Terra, pequenino demais para os dois, ao ponto que, ao chegarem e devorarem duas montanhas para matar a fome, tiveram a impressão de que a Terra era desabitada, pois nenhum vestÃgio de vida se via.
Micrômegas e o anão no planeta Terra
A água do mar Mediterrâneo mal cobria os pés de Micrômegas, e quase batia no joelho do anão. Observaram atentamente ao redor para ver se encontravam vida. Nada suspeitando, o anão diz que a Terra não é habitada, na qual é repreendido por Micrômegas: “Com seus pequenos olhos, diria, o senhor não é capaz de ver certas estrelas da qüinquagésima grandeza que eu entretanto percebo distintamente; poderia concluir por isso que essas estrelas não existem?” – penso ser aqui o ponto central do conto; o homem moderno, iluminado pela razão, certamente que diria o mesmo que o anão.
Micrômegas e o anão conversam, e dizem o quanto o planeta Terra parece bem ridÃculo, caótico e desorganizado, com formas desproporcionais e irregulares. – Aqui é Voltaire provocando os fÃsicos, matemáticos e cientistas da época que acreditavam haver formas perfeitas na Natureza, que esta, de alguma forma, comportaria uma certa proporcionalidade e razões de medidas.
Finalmente os extraterrestres, a partir de gigantes microscópios, descobrem uma baleia. Logo depois descobrem algo no mar Báltico, era uma expedição composta por filósofos, cientistas e outros homens cultos. Micrômegas e o anão examinam a embarcação mas não enxergam os homens em primeiro momento, estes são muito minúsculos aos estrangeiros de Saturno e SÃrius.
Um trato mais minucioso com a embarcação e Micrômegas e o anão percebem os seres humanos. Ficam surpresos. O saturnino julga que apanhou a natureza em flagrante, isto é, aqueles homens que certamente estavam embriagados de susto diante da situação, estavam, para o anão, praticando a reprodução sexual; e o provocativo Voltaire diz: “Entretanto, iludia-se com as aparências, o que freqüentemente acontece tanto aos que se servem do microscópio, como aos que dele se servem.”
Micrômegas, mais atento, criando um instrumento com fibras retiradas da sua unha, consegue escutar os humanos e, dominando várias lÃnguas, assim como o anão, irão manter diálogos inteligÃveis. A partir dai uma série de questões filosóficas irão ser levantadas, sempre com o plano de fundo provocativo e irônico de Voltaire.
Os homens cultos do barco, de imediato, calculam, através das leis matemáticas, a altura dos estranhos. Diante do número correto revelado, Micrômegas fica perplexo, não consegue imaginar como seres tão Ãnfimos em termos de tamanho possuem tanta inteligência. Diante da surpresa, o gigante diz aos homens do barco que nunca encontrou verdadeira felicidade, mas que certamente iria encontrar na Terra.
A essas palavras de Micrômegas, os filósofos que estavam no barco foram unânimes na discordância. Um deles afirma que, com exceção de uma pequena parte, a maioria dos habitantes do planeta Terra era “um conjunto de loucos, malvados e infelizes”. Ao revelarem uma série de atos “maldosos” presentes entre os homens, Micrômegas e o anão passam a sentir repulsa pelos humanos.
O gigante diz aos barqueiros que poderia muito bem esmagar esse formigueiro de ridÃculos assassinos em três passos. Os filósofos respondem que não valeria a pena, pois os homens já estão trabalhando suficientemente para sua ruÃna. – Aqui talvez seja necessária uma pausa para conseguir digerir esse pensamento que nos permite imensuráveis reflexões.
Enfim, entre outras sucessões que irão ocorrer entre os filósofos humanos e o de SÃrius e Saturno, vale destacar ainda, a ácida crÃtica de Voltaire a Descartes que acreditava no caráter inato das idéias: O cartesiano tomou a palavra e disse [um dos barqueiros]: “A alma é o espÃrito puro que recebeu no ventre materno todas as idéias metafÃsicas, e que, saindo desse lugar, tem de ir à escola, aprender de novo o que sabia tão bem e não conseguirá saber nunca mais”.
Considerações
O conto Micrômegas, de Voltaire, embora seja curto, permite-nos uma vasta produção reflexiva sobretudo do homem em relação com o mundo, com o conhecimento, com a razão, com a vida que até então tem construÃdo para si. Talvez, muitos leitores, acostumados a viver sobre as estradas universais criadas pelo saber moderno, possam sentir asco de Voltaire, afinal, poderão se ver nu e se envergonharem de si mesmo.
Voltaire consegue com muita precisão colocar o homem num tribunal que não é humano, sem, contudo, fazer dos julgadores os “verdadeiros”.
Inicialmente os dois habitantes extraterrestres se comprazem com os seres humanos; acreditam que são seres Ãnfimos, depois, com os detalhes, são revelados seres que são capazes de se matarem uns aos outros. O matar aqui pode ser entendido como uma figura de linguagem para as mais diversas formas que corroem as relações humanas que, ironicamente, são belas ao primeiro olhar, mas poucas resistem ao que se revela no tempo.
Ao longo da história da humanidade, com rarÃssimas exceções de algumas culturas, verificamos que aquilo que foge ao potencial de captação da razão costuma não fazer parte do mundo humano, e mais do que isso, não apenas não faz parte como é improvável que exista, construÃmos então um mundo guiado pela universalidade, marcados por caminhos forjados como “verdade” ou “mentira”. O mundo do homem civilizado tem a incrÃvel pretensão de acreditar que os fenômenos são passÃveis de completa elucidação pelas vias da razão.
Ainda é muito recente os abalos que a razão moderna sofreu, e mesmo entre aqueles que questionaram a razão, pode ser que a lógica tenha permanecido a mesma mas com roupagem diferente (Marx, Freud, etc.); a pretensão de buscar uma essencialidade, uma substância elementar para o mundo pode, a partir de Nietzsche, estar camuflada nos pseudópodes da linguagem.
Os rios navegados por Voltaire podem muitas vezes unir-se com as águas navegadas por Nietzsche, e a partir dai podemos vislumbrar um horizonte extenso que nos permite não negar a nossa condição, mas constatar que a vida em si não nos cabe julgar, e que nossas ações, estas sim, podem ser (re)compreendidas. Compreendidas enquanto uma forma de dar sentido à vida, uma razão que busca pôr certa previsibilidade e organização no mundo inaudito, mas que se sabe que é não-razão, uma consciência que tem consciência de seus limites.
Esse saber é aquele que podemos encontrar para afirmar a vida e não negá-la através de uma artilharia pesada de idéias totalitárias que querem agarrar com unhas e dentes cada fenômeno, tomando posse e universalizando-os como saber fixo e verdadeiro.
Tudo não passa de perspectivas e a alegria se dá através da criação que se lança no horror do inefável e modela sentidos, leves e mutáveis, em constantes (re)criações – eis o que Nietzsche, fundamentalmente, nos leva a refletir. E Voltaire, a partir do diálogo de Micrômegas e o anão com os seres humanos, consegue ilustrar muito bem o quanto esse mundo que criamos como universal é frágil e insustentável.
Será que um dia chegaremos perto de Micrômegas, que compreende as perspectivas e que, mesmo com um brilhante intelecto, reconhece os limites do compreensÃvel?
Os filósofos do barco responderam que nós não só estamos caminhando para as ruÃnas como estamos trabalhando para isso. Passados mais de três séculos dessa constatação de Voltaire parece que estamos trabalhando muito bem!
*Imagem: O gigante Micrômegas, Charles Monnet
O "enigma" do tempo no Zadig de Voltaire | Eterno Retorno
janeiro 24th, 2009 at 11:54
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