(…) Sim, as coisas podem ser atraídas, mas você deve desejar adequadamente, lembrando que sua intenção deve alinhar-se, com a consciência cósmica, e que você deve ser criativo ao desejar. Por isso, você não pode simplesmente não fazer nada e esperar que as coisas venham a você.

quem-somos-nos-rmvbAo ler o trecho acima, talvez pudéssemos dizer que foi retirado de algum livro de auto-ajuda; livros que se fossem do plano da imaginação não teriam problema algum, porém são pretensiosos demais, em geral, se propõem, através de falácias, a oferecer soluções para aporias ou sucesso absoluto.

Amit Goswami é o autor do trecho acima, apresentado no programa Roda Viva. Esse polêmico “cientista” formado em Física conquistou fama e repercussão graças ao filme “Quem somos nós?“; um perigoso filme que pega um elemento científico e joga num lamaçal de misticismo, parindo um “monstro” prepotente que diz ter as respostas, ou melhor dizendo, os segredos, para resolver todos os mistérios.

O filme “Quem somos nós?” pegou um dos princípios da física quântica de que a matéria enquanto imutável não se sustenta mais e vestiu mantos sagrados e pinturas esotéricas; para Goswami a consciência é a base de todo universo, o que não muda muita coisa em relação a supremacia do mundo das idéias que remonta do platonismo.

Goswami adota uma estratégia “gandhiana” para se esquivar das críticas e das perguntas que lhe pedem sustentações. Sua “teoria” embora diz não desconsiderar os outros pensamentos, deixando transparecer que esse paradigma abraça qualquer causa, deixa bem evidente a sua intenção, aliás, prepotente intenção: o golpe de misericórdia, a chave do universo, a solução para todas as respostas: eis ai a “consciência”, a essência, o elementar de todas as coisas que Goswami tem a oferecer.

A grande questão para Goswami é que temos possibilidades, e conseguimos realizá-las de acordo com nossa vontade, é esse fundamento que parece ser física quântica para o físico indiano. Ao contrário da física quântica no meio científico que, entre outras questões, trata sim das possibilidades, mas não enquanto determinadas pela nossa vontade, isto é, não temos o tal “poder” de alterar as suas conseqüências e muito menos prevê-las.

Particularmente não conheço a obra de Goswami, suas pretensões me parecem ingênuas demais para não vê-lo enquanto um “guru”. Goswami critica as concepções fundamentadas na moralidade tradicional da “Verdade”, porém, o mesmo oferece uma outra “Verdade”. Nesse sentido, o que Goswami chama de “nova ciência” ou “novo paradigma”, que busca unir ciência e religião, não é muito diferente de um platonismo em linguagem diferente. A verdade está sob a ordem da consciência no pensamento de Goswami.

Para além do sensacionalista e fantasioso “Quem somos nós?” que claramente apela para seduções populistas, o programa Roda Viva contou com uma mesa de convidados para fazerem perguntas a Goswami, na qual estavam alguns que compactuavam e outros que divergiam com as idéias do físico. Esses últimos, físicos “sérios”, penso que foram bem felizes em suas perguntas, de maneira totalmente respeitosa e aberta ao debate, tentaram ver quais as sustentações que Goswami oferece para aquilo que ele chama de física quântica. Da parte de Goswami a recíproca não existiu, transpareceu-me que o mesmo buscou a todo instante se esquivar, seja por meio da tática “gandhiana” ou por um discurso tautológico que se justificava pelas exortações das filosofias religiosas do oriente, que são um mar de possibilidades para se alcançar o desejado desde que use “métodos de pensamento” para tal.

Para conferir o programa na íntegra, através do YouTube, acesse o link abaixo, são 9 partes.

Amit Goswami entrevistado no Roda Viva >>

* Imagem: capa do filme “Quem somos nós”, versão especial distribuida no Brasil.

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