Nietzsche sem dúvida é um nome forte contra toda metafísica que sustenta o homem. A filosofia de Nietzsche é uma dinamite que atinge a todos os recônditos metafísicos, essenciais, normativos, imperativos, categóricos… do mundo. Em Nietzsche não há dualismos como corpo/mente, razão/irrazão, instinto/consciência, essência/aparência; há uma supressão das dicotomias em favor de uma coexistência de uma multiplicidade de forças que interagem no homem, e essas forças não são dualistas nem polarizadas, elas simplesmente agem. Desta forma não há separação entre mundo sensível e inteligível como sustentado por Platão (O Mito da Caverna).

Mas se não há distinção, o que é pensamento em Nietzsche? Pensamento não é senão a manifestação do corpo como um todo, de uma força que naquele momento, vencendo níveis de hierarquias internas, conseguiu sobressair, e me vem então o pensamento; porém essas forças e essas hierarquias são desconhecidas, não há propósito nem uma essência única que direciona o pensar. Nesse sentido assistimos uma derrocada da idéia de um “Eu”, um ego, um sujeito, um subjetivo, enfim, nenhum centro controlador de pensamentos que ao longo da história se encontra personalizado em vários termos.

Isso não implica que estamos condenados ao desconhecido como uma forma que nos tornará doente, estritamente, estamos sim fadados ao desconhecido, porém é justamente nessa condição que, em Nietzsche, emergi um homem que faz da vida senão uma arte, sendo ele próprio uma obra de arte produzida com o devir; uma vida que é leve e não comporta nenhum peso, nenhuma medida, nenhum critério que em última instância define um “dever ser”.

Abaixo dois trechos que clarificam, por si só, o que é pensamento para Nietzsche, deixando nas entrelinhas as questões levantas acima:

O pensamento emerge em mim – de onde? Por meio de que? Não o sei. Ele vem, independentemente de minha vontade, costumeiramente envolto e ensombrecido por uma multidão de sentimentos, desejos, aversões, também de outros pensamentos….Nós o extraímos de tal multidão, o limpamos, colocamolo sobre seus pés… quem faz isso tudo – não o sei, e sou aqui seguramente mais espectador do que causa desse processo. …Que em todo pensar parece tomar parte uma multiplicidade de pessoas –: isso não é, de maneira alguma, fácil de observar, somos fundamentalmente mais fortes no inverso, ou seja: ao pensar, não pensar no pensar. A origem do pensamento permanece oculta; é grande a probabilidade de que ele seja apenas o sintoma de um estado muito mais abrangente (…) - Fragmento póstumo, 1885, n. 38, GA XIV

Pois, eu o repito, o homem, como toda criatura viva, pensa continuamente, mas não sabe disso; o pensamento que se torna consciente é apenas a mínima parte dele, digamos a parte mais superficial, a parte pior (…) - Gaia ciência, Nietzsche, §354

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