Salvador-Dali-Persistence-Of-MemoryOs homens inventaram um tempo e o celebram com o relógio: inventaram a finitude da vida. Estão a todo milésimo de segundo, a todo segundo, a todo minuto, a toda hora, a todo dia, a toda semana, a todo mês e a todo ano sendo lembrados: os ruídos do tique-taque do relógio lembram os homens a todo instante de que a morte está por vir. Poucos o são avisados pelo século, mas se assim o forem, sabem que jamais serão novamente condecorados por essa medida.

E essa silenciosa e misteriosa senhora que ama a todos aqueles que são vivos, não faz outra coisa senão rir das travessuras mensuráveis que os homens adotam para o tempo, o espaço, a vida. Sorrateira e imprevisível, ela frustra homens e mulheres, mesmo aqueles que ainda não sentiram a vida sendo erodida pelas próprias ferramentas que inventaram.

Que se diga sobre aquele tão sonhado tempo infinito que os homens buscaram em grande parte da história - e ainda não despertaram desse que parece ser um sonho condenado à eternidade. Isso fez com que ocupassem do tempo a pensar sobre o tempo e pariram invenções metafísicas, muitas delas como um consolo a afagar os ânimos daqueles que se perdem no mundo ordenado da civilização.

Talvez o homem sinta grande inveja daqueles que vivendo no tempo, desconhecem o tempo, de tal modo que vivem no tempo infinito. Assim estão todas as coisas situadas no mundo menos o homem: não seria o tão terrível medo da morte que assola até o mais fiel dos ascetas e o mais cruel dos filósofos senão essa sensação invejante de partir sozinho?

O que será que ocorreu quando o homem das cavernas viu que o seu companheiro ou companheira não se levantou mais? Não se sabe qual a cômica reação que porventura se sucedeu ali, mas é certo que os homens tinham a eternidade, vivendo no desconhecido conheciam o tempo infinito. Ainda hoje buscam por aquilo que tinham, mas o tempo inscrustou de tal modo em suas entranhas que só poderá ele pensar na eternidade da finitude: são todos suicidas.

Imagem: Persistence of memory, Salvador Dali, 1931.

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