As metáforas Deus e Diabo serviram aos homens durante milênios, e ainda, um pouco desbotadas, tem lá suas utilidades. Deus e o Diabo, o Bem e o Mal, o Certo e o Errado, a Verdade e a Mentira… são algumas das muitas explicações forjadas que pairam sobre o que é mundo, homem e vida.

Deus é o Bem e o Diabo é o Mal, dizem os sacerdotes. Não nos esquecemos que o Diabo é criação de Deus. Fora aquele preferido bom amigo chamado carinhosamente de Lúcifer, que Deus, considerado também o Pai do perdão, resolveu por pequenas picuinhas expulsá-lo de sua casa, de lá para cá o Diabo reside no mundo. Eis ai mais uma explicação decorrente da metáfora original: Deus está no Céu, o Diabo no Mundo, e os homens, por morarem no mundo, não lhes restam senão conviver com a maldade.

Desse modo, a Vida ao homem é aquilo que se tem de mais pecaminoso e sujo aos olhos de Deus, de tal forma que seja necessário purificá-la através de freqüentes atividades que os sacerdotes criaram para tal – a confissão, a penitência e outros rituais.

Pode-se ir mais adiante, levar até as últimas conseqüências a grande sujeira criada por Deus ao ter ficado emburrado com o seu grande amigo Lúcifer. O final nos revelará que Deus não é senão a própria origem do Mal que após ter feito suas artes, vestiu-se da máscara do Bem.
O Bem só pertence a Deus porque ele criou o Mal personificado no Diabo, trocando as palavras diremos que os homens só reconhecem o Bem em Deus porque antes conhecem o Mal no Diabo. Dir-se-á que o Senhor reza tantos “pais nossos que estais no inferno” todos os dias.

Há que se considerar também, a justificativa das ovelhinhas de Cristo diante das conseqüências do Mal criado pelo Criador. Deus criou o Diabo ou o Mal para aplicar provas e testes aos homens, de tal modo que aqueles que por ventura conseguirem tirar boas notas segundo os critérios divinos, herdarão o reino dos céus – dizem os homens. Nesse sentido, diremos que o Diabo é uma espécie de tutor de Deus que se encarrega do ofício de aplicar um processo seletivo aos homens.

Eis então que a Origem era o Mal, e o Mal pariu o Bem, e visceralmente ligados, o Bem se desmancha sem o Mal. Vislumbrar-se-á que Deus, o Pai do Perdão que não perdoou seu grande amigo Lúcifer, obtém reconhecimento à partir do Diabo. Resta reconhecer a astúcia perversa da engenhosidade divina em ter feito de um bom amigo uma forma de conquistar poder e glória aos olhos dos homens.

De outro modo, vemos na relação entre Deus e o Diabo a grande piada divina. A justificativa para a existência do Diabo, e conseqüentemente a do Mal, não é senão a desculpa de Deus que, ao longo dos anos, mostrou-se um beberrão em meio a um mar de sangue que se fez por milhares de corpos destroçados em seu nome: Deus e os personagens celestes se divertem à custa dos homens e do Diabo.

Chegamos então na antinomia Deus e o Diabo: o primeiro subjuga o segundo que por sua vez dá sentido de poder e glória ao primeiro. Não será daí que os homens aprenderam a também manter seus laços de amizades, compactuados no âmbito de uma disputa de poder e glória disfarçadamente ao talante de cada um? – Mais sensato também, seria dizer que a amizade malograda de Deus e o Diabo foram modeladas e eternizadas de acordo com as relações de amizade dos homens.

* Imagem: A queda do Diabo, Gustave Doré, 1866

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