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Das dores e da felicidade do mundo
3nov2008 Categoria(s): Pensamentos Autor: adv
Uma notável forma de operacionar a felicidade ou a desgraça na vida de homens e mulheres é a observação desses estados na alteridade. Em toda a história, os nÃveis de prazeres e desprazeres, a alegria e a tristeza, são respaldadas, muitas vezes, conscientemente ou não, na vida do outro.
Um exemplo de peso na história vemos em Jesus Cristo que fora tomado como um modelo de perfeição. Vê-se uma vivência acometida de desgraça e há sempre uma audiência capaz de nos lembrar que o suposto Crucificado sofreu bem mais, de tal forma que somos pressionados a dar glória por nosso sofrimento, trocando as palavras, o nosso sofrimento é insignificante perto daquele, portanto, devemos nos regozijar. Esse tipo de relação é bem comum em nossas vidas, senão em comparação ao Messias, às pessoas significativas ao nosso redor.
Quando somos nós que nos comparamos ao sofrimento do outro, tomamos como critério a suposta felicidade do outro – sempre bem aumentada aos nossos olhos -, e, como uma rasgante inveja, atestamos o nosso fracasso e nos tornamos ainda mais sofredores: sofrer, também, porque o outro possui determinadas virtudes que eu não possuo. Percebe-se que é a audiência que nos compara ao sofrimento do outro para justificar o nosso, e se o faz tomando por base a felicidade é sempre batendo continência ao sofrimento, aquele que mesmo sendo mais desgraçado que nós exibe felicidade; e nós fazemos o contrário, esquecemos aliás, que o outro também pode experienciar o sofrimento.
Aqui se comete a ingenuidade de tomar o sofrimento como objeto quantificável e mensurável, o que em últimas palavras é um dito, por assim dizer, de espectador ao sofredor: sofra mais, se queres reclamar.
Não nos esqueçamos daqueles que criam risos pelas dores do outro. Em ocasiões que estamos felizes ninguém notará nossa felicidade para comparar com a do outro e então torná-la ainda mais felicidade, pelo contrário, a audiência se esconde por trás de uma censurada inveja diante dos nossos prazeres. Mas nesse caso, sabemos muito bem, como a partir de uma fagulha de riso, criar um mar de gargalhadas, tanto quanto maior for a desgraça alheia que buscamos para avaliar nossas virtudes.
Certo é que sob o manto de uma moral cristã que busca no sofrimento alheio uma atestação para dizer, dissimuladamente, para o outro sofrer mais, o contrário, isto é, a felicidade, o riso e os prazeres do sensÃvel, como bem demonstrados em milênios, são ramos de atividades compreendidos sob a gerência daquele prÃncipe das trevas que Diabo o chamam.
Para além da ordem moral, a extraordinária capacidade do homem em fazer riso através do sofrimento que lhe é exterior desempenha um papel fundamental para os nossos prazeres. Por outro lado, temos a nossa moralizada capacidade de fazer sofrimento através das alegrias do outro – nesse caso é sensato que o outro não saiba que o tomamos como modelo de “alegria”, pois se sabendo tomado como alegre e sentindo-se sofredor, poderá sofrer mais ainda por questões de injustiça suscitadas contra à vida. E nos casos onde nos fazem sofrimento a partir das dores do outro -, talvez seja necessário, o homem aprender também, a dizer para o outro que está tomando o “sofrimento” dele para atestar um sofrimento ainda pior, e talvez este se alegre por saber que existe um sofredor mais sofrido ainda.
E assim dou por finalizada essas considerações sérias e longas acerca dos critérios de avaliação do homem para estados de sofrimento e felicidade, porém curtas e irônicas: há tanto mais felicidade quanto mais desgraça houver, e mais desgraça há quanto mais felicidade houver.
O “espetáculo” oculto da “tragédia” em Santa Catarina | Eterno Retorno
novembro 30th, 2008 at 10:38
[...] livremente vagando pelos pensamentos, eu disse que as pessoas criam risos pelas dores dos outros (Das dores e da felicidade do mundo). De modo bem mais gritante, a mÃdia torna as coisas mais evidentes, quase uma experimentação [...]