Não foram as coisas presenteadas com nomes e sons, para que o homem se recreie com elas? Falar é uma bela doidice: com ela o homem dança sobre todas as coisas. Quão grata é toda a fala e toda a mentira dos sons! Com sons dança o nosso amor em coloridos arco-íris. – Nietzsche, F.; Assim falou Zaratustra | O convalescente

Joan-MiroNesse pequeno trecho Nietzsche desautoriza a palavra. Desautorizar a palavra para Nit nos remete a sua forte crítica à linguagem enquanto palavra da verdade.

O universo conceitual do homem, moldado à palavra, é uma negação da vida na medida em que tenta encerrar o devir, a multiplicidade dos fenômenos, em conceitos. O homem usa a palavra, a linguagem, para ordenar o mundo, dar imutabilidade no tempo, fixar valores, criar identidades e sobreviver na ordem. Porém, tudo isso é ficção, uma ficção que entendemos como realidade.

A crítica de Nietzsche à linguagem não pretende destruir nossa comunicação e muito menos exterminar as palavras, antes é uma crítica a relação do homem com a linguagem.

Essa forma do homem se relacionar com as palavras remete a identidade das coisas encerrada nas palavras. É uma relação de nomear as coisas do mundo em sons, imagens conceituais e sentidos, como se aquele “nome”, aquela palavra, pertencesse a tal coisa. Nesse sentido, criamos identidade singular ao que nos rodeia, o que se constitui em uma negação da vida pois esta é antes de tudo uma multiplicidade de forças atuantes.

O que me autoriza dizer que a Terra é um planeta? O que me autoriza a chamar a “Terra” de Terra? Chamamos “isso” de “Terra” e finalizamos todas as interpretações possíveis desse “isso”.

Vejamos que a linguagem é fundamental para a sobrevivência do homem, sem a organização do mundo pelas palavras o que teria sido de nossas vidas? Nessa medida, a crítica de Nietzsche não é à linguagem em si, mas a forma como usamos as palavras.

A linguagem enquanto afirmação da vida para Nietzsche deveria ser, antes de tudo, vista como um instrumento para que nós possamos interpretar a existência, uma ferramenta capaz de criar múltiplas interpretações e não encerrar as coisas em nomes fixos como se elas fossem esses “nomes”. Essa linguagem seria uma linguagem da pluralidade e não da identidade tal como nós nos relacionamos com as palavras, a ordem da gramática, e toda malha conceitual do mundo.

Encerrada em conceitos, a linguagem é pesada, marca o mundo e as coisas sufocando a multiplicidade do devir; desautorizar a palavra é dar voz à palavra que até então tem sido usada para calar: o homem habita a palavra, diz Lacan, e com ela ele cala o mundo, complementando com a perspectiva de Nietzsche.

Cegamo-nos com as palavras e vemos somente aquilo que ela nos autoriza, ficamos cego frente o movimento incessante do devir. Nesse sentido, torna-se fundamentalmente necessário que o homem encontre a solidão para que consiga usar as palavras não para marcar, mas para dançar: é na solidão que ele encontra o indizível, a angústia que não encontra palavras, o sentimento que não se revela em palavras, e por tal, se vê obrigado a inventar nomes a essas pluralidades, mas nomes que devem se saber como maquiagem, que tão logo possam sofrer as transformações da criação novamente.

Brincar com as palavras, dançar com elas, recrear-se com os conceitos, isto é, a “bela doidice” do falar que se sabe ser mentira, é o que deve ser posto para uma linguagem afirmativa, e tal conseqüencia perpassa por todos nossos significados: o mundo, os valores, a Verdade, seriam desautorizados. Autorizar a palavra é dar vazão à multiplicidade em detrimento da identidade, da particularidade com que encerramos o mundo.

Nascemos em um meio comunicativo, enquanto normatividade a palavra se dá como uma regra de conduta a ser seguida por todos. A linguagem paira como uma nuvem a servir para todos, apreendemos o mundo por toda essa rede lógico-gramatical e nomeamos o que nos rodeia, dando identidade e imutabilidade no tempo, dando idéia de “ser”, de existência às coisas através das palavras. Nesse sentido, somos todos comuns, presos a um emaranhado de significantes e significados que tem a pretensão de comportar a palavra da verdade.

Nesse contexto a multiplicidade e as relações de forças presentes na vida, que se fazem em movimentos incessantes de expansão e resistência – pois onde há vida há “vontade de potência”, isto é, força criadora, luta constante para se tornar alguma coisa -, tornam-se abafadas pelo encarceramento da palavra dada pelas noções de identidade, de sujeito, de matéria, de existência, por fim, de imutabilidade e apreensão única da vida através de um conceito que vive às estruturas da linguagem.

A crítica da linguagem dada por Nietzsche é um assunto de difícil apreensão; esse pequeno texto, construído às mentiras das palavras, jamais encerraria o assunto, assim como nenhum outro conjunto de palavras daria conta de encerrar qualquer coisa que seja. Esse tema em Nietzsche é um dos mais originais que conheço até então. Perpassa por toda sua obra e mantém profunda relação com a transvaloração dos valores, o eterno retorno e a afirmação da vida.

Certamente, o leitor interessado nesse assunto deve procurar muito mais “palavras” sobre, para dar vazão a novas perspectivas e interpretações da linguagem presente no mundo humano.

Por ora, deixo a frase abaixo como um convite para reflexão:

Usamos as palavras não para falar, mas para calar – calar a vida.

*Imagem: João Miró, Constellation.

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