prades-the-villageUma crueldade há muito consagrada no cotidiano para tentar apaziguar os desprazeres é o mitigante “tudo vai ficar bem”. Remontado da egoísta esperança, esse dito não diz outra coisa senão a ingenuidade dos homens em achar que há alguma entidade no mundo que está olhando por suas situações, ou que o mundo de alguma forma irá se adequar ao que nós queremos.

Cada qual, em seu dia-a-dia, não espera outra coisa senão que o mundo seja organizado de acordo com os seus desejos. Qualquer incidente no trânsito já é muito motivo para alguém começar a esbravejar da suposta incompetência, ignorância, negligência entre outras qualidades do outro que “não sabe dirigir”. Assim seguem os homens, vivem no mundo que imaginam, e como a realidade não foi montada de acordo com as regras da vontade subjetiva, a equação resulta em frustração.

A dona de casa que ao limpar o vaso de porcelana, por descuido que não se sabe, logo que vê o conjunto ordenado na forma de vaso em um vaso desordenado em forma de cacos, expressa raiva e ira, no que resulta em uma insatisfação e logo vem a incômoda sensação de mal-estar, no que pese o corpo e o “espírito”. – Tudo porque no mundo da nossa dona de casa em questão é inaceitável quebrar vasos.

Freud, em “O mal-estar na civilização”, já alertava o quanto a civilização tem desejos por limpeza, ordem e segurança – aspectos cotidianos da neurose. O mundo criado pela civilização é ordenado de tal forma que não vê com naturalidade muitas coisas que acontecem no mundo “real” e que não temos nenhum controle.

Inconscientemente agindo como se o mundo devesse ser aquele que é projetado em pensamento, o homem acaba, muitas vezes, desnecessariamente experienciando mal-estar.

Não que os infortúnios devam acontecer, e muito menos que se deva justificá-los, mas é perfeitamente compreensível que as pessoas cometam descuidos em trânsito e que ficar irritado não irá resolvê-los. É compreensível que vez ou outra alguém deixe cair das mãos o copo de cristal. Há que se esperar que num daqueles dia onde se acorda atrasado para um compromisso, no meio do caminho um pneu poderá furar, quem sabe dois ou três.

Há uma infinidade de eventos possíveis que podem frustrar os desejos advindos do mundo ideal. Tão mais ordenado e organizado o homem acredita ser o mundo talantemente moldado no seu pensamento, tão mais intenso serão os sentimentos de frustração.

Bem se sabe que o meio em que vivemos é muito favorecedor para essa situação: homens e mulheres costumam ser punidos quando fazem algo supostamente “errado”, mas pouco elogiados quando fazem o que é suposto como “certo”.

A sociedade de tal forma está organizada, que tudo se torna competição que clama por buscar os melhores ideais de inteligência, aparência, habilidade, quinquilharias sociais entre outros desejos. Homens e mulheres são rispidamente exigidos pela sociedade do capital para que sejam cada vez mais os melhores, e os erros e falhas humanas que são naturais por mais que nos esforcemos para evitá-los, acabam sendo vistos como inadmissíveis, tornam-se anti-naturais.

Não que seja apenas uma característica da sociedade atual, os homens sempre imaginaram um mundo ideal e agiram como se este fosse o “real”. Quantos servos e criados já foram torturados por singelos descuidos no que tange às regalias de seus senhores. Calígula, sanguinário imperador romano, ordenava que os infelizes que por descuido cometiam acidentes banais ao servirem pomposas festanças imperiais – como deixar cair um copo da bandeja -, fossem lançados aos lobos e leões famintos. Entre tantas outras coisas que se sabe e não se sabe do mundo ideal de Calígula, certamente uma delas é que os copos jamais caiam de bandejas!

O sonho da modernidade impera querendo ser realidade, no mundo ideal do homem moderno não há espaço para as intempéries, os eventos incontroláveis e casuais que podem ocorrer. Bem cristalizadas são as crenças de que o homem tem um “Eu” interno controlador, e que portanto, este deveria saber de antemão as conseqüências de suas ações, e que a ciência, o progresso, a técnica e a tecnologia oferecem controle total dos eventos.

O mundo técnico-industrial enreda de tal forma a vida de homens e mulheres que já não se sabe mais o que é a difícil tarefa de pensar buscando exílio de todos os objetos, conceitos e conexões que o homem o faz de acordo com o material de sua época, sem, contudo, desfazer-se completamente das idéias.

Como se torna bem mais leve e alegre o viver quando o homem descobre que não tem controle de tudo, e que o mundo não é ordenado nos mandamentos de sua subjetividade, nem o dos seus semelhantes. Buscará ele evitar aquilo que considera “errado”, porém consciente de que é perfeitamente compreensível que as coisas podem – e quase sempre acontece -, não sair da maneira como era de se esperar.

A raiva e a frustração são sentimentos perfeitamente legítimos e que jamais serão extintos. Sempre estarão presentes nas vivências, contracenando com sentimentos mais escassos como os da felicidade e da alegria, embora a pós-modernidade se empenha frenética em promessas de felicidade eterna. Mas também, tais sentimentos podem ser ilegítimos na medida em que o homem não consegue perceber que o mundo não foi fabricado nos conformes dos seus pensamentos.

Admira-me a estratégia de Schopenhauer: sorrir para o sofrimento e para a dor porque são elementos inevitáveis. Talvez o homem se sinta melhor esperando sempre o “pior dos mundos possíveis”. Sabendo de antemão que frustrações podem ocorrer, a situação do inesperado que ocorre quando o mundo contrasta com aquele dos nossos desejos, se desbota e se esvai, fortalecendo uma postura de enfrentamento durante esses momentos, ou até mesmo de um sentimento de terna aceitação – que não deve ser confundido com conformismo – diante de surpresas que o devir nos prepara.

* Imagem: MIRÓ, Joan; Prades, the Village.

Esses links são para compartilhar o conteúdo em redes sociais ou por email.
  • Rec6
  • Ueba
  • Dihitt
  • DoMelhor
  • LinkTo
  • LinkLoko
  • TwitThis
  • E-mail this story to a friend!