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Viver e morrer – dois dançarinos inseparáveis
29nov2008 Categoria(s): Filosofia Autor: advA orca, mais conhecida como “baleia assassina”, costuma pegar filhotes de leões marinho que se arriscam a nadar pelas praias; uma tentativa arriscada pois em seu Ãmpeto, a orca pode acabar se encalhando uma vez que violentamente invade partes mais rasas do mar, nesses casos ela se debate freneticamente e freqüentemente acaba se dando bem – é um animal inteligente.
Mas quem não se dá bem é o pobre filhote de leão marinho que, se capturado, será levado em alto mar onde um bando de orcas o aguarda para ficarem arremessando o indefeso animal que literalmente “voa” em grandes alturas – a orca faz isso através de golpes com sua “cauda”, e não importa o quanto ele emita sons que expressam sua dor, a orca só pára quando o filhote morre.
Não se sabe ainda por que a orca faz isso com sua presa. Mas convenhamos, é um animal de grandes estratégias de caça. Sempre em bandos, também ataca filhotes de baleia, tentando, através de golpes com a cauda, tirá-lo da proteção da mãe; quando conseguem o matam facilmente e se saciam com uma parte da mandÃbula inferior e a lÃngua do filhote, desprezando o restante. Por esses e outros hábitos é que a orca é chamada de baleia assassina.
Mas a baleia assassina não amedronta os pais leão marinho, que tão logo irão dar vida a um novo filhote, lançado ao mundo de olhos arregalados e sem chorar, irá saborear do leite e do calor materno antes de se aventurar com toda sua curiosidade por tudo aquilo que se lhe apresenta como inaudito. Tão logo irá querer capturar pequenos peixes e para isso irá com outros filhotes brincar na praia, etapa de aprendizado de natação antes de se lançar nas fúrias do mar. Ele quer viver! Mas poderá se surpreender com algo tão enorme que costuma aparecer de surpresa: a orca! Nesse caso não irá julgar a vida, simplesmente irá em sua forma de vida tentar se salvar. Os humanos à observar, poderão dizer que ele foge de medo. Mas o filhote de leão marinho, ou o que se passa no interior daquela forma de vida visÃvel, suas células, seus órgãos, seu sistema nervoso e outros sistemas, certamente que não usam nomes de sentimentos carregados de valores para designar aquelas circunstâncias, mas não medirão esforços e lutarão bravamente para tentar sobreviver. O filhote de leão marinho quer viver!
A natureza está repleta de episódios de esvaziar e de encher emocionalmente muitos homens. Já esse animal que ao longo dos tempos passou a andar sobre duas patas e desenvolveu uma massa encefálica robusta, chamado homem, formou a civilização para se proteger dos “horrores” e perigos da natureza: a civilização é uma forma de defesa do medo do homem que fugiu do desconhecido e inventou um mundo para si, ordenado, classificado, identificado e tecido por um emaranhado de redes de idéias, conceitos e teorias: o homem se salva pela linguagem.
Schopenhauer, provavelmente observou muito bem a difÃcil competição pela sobrevivência na natureza. O homem, seu animal de observação preferido, foi eleito como o mais cruel dos animais. Constatou que o mundo é sofrimento, viver é sofrer e experienciar a dor; via expresso nas relações entre os homens a face do horror, e os poucos momentos de felicidade e prazer são timidamente sufocados pela profusão em dor. Em toda expressão de vida havia luta, necessidade de desferir golpes, ser sangrado, rasgado, violentado e acabar sendo devorado, e aqueles que se saem sobreviventes não se sabe até quanto tempo.
Esse impetuoso princÃpio de toda vida, na qual Schopenhauer chamou de vontade, não quer nada mais além de satisfazer as necessidades do corpo. De tal forma, o confronto com outras vidas gera dor e sofrimento. Retomando, o mundo em uma palavra para Schopenhauer, é sofrimento. – Eu concordo com essa idéia: o mundo é sofrimento.
Nietzsche, outro filósofo atento a vida em suas várias expressões, também constatou que o sofrimento e a dor são inerentes a toda forma de vida. Mas o sofrimento e a dor presentes não são aqui, revestidos de suas conotações valorativas, são simplesmente condições presentes na vida, independente de ser “bom” ou “ruim”.
Com essa concepção Nietzsche diria que o mundo tem sofrimento, e é compreensÃvel que tenha dor e sofrimento, mas ele também percebeu que o viver pode ser a afirmação da vida, expressão da alegria e da criação.
Para Nietzsche, toda forma de vida está constantemente lutando por um vir-a-ser. O corpo orgânico é uma arena onde ocorrem batalhas incessantes: células morrem para outras viverem; órgãos passam por transformações, tornam-se mais eficientes; formam sistemas mais robustos e assim por diante. Assim, morte e vida são personagens presentes o tempo inteiro, e o viver é resultado dos combates entre forças destruidoras e criadoras – certamente uma batalha que já sabemos de antemão quem vence.
Nietzsche compreendeu o sofrimento e a dor como condições para a vida. Constatou ainda que em toda forma de vida há uma força criadora, nada é mas está em constante mudança e transformação. Assim, a vida só tem sentido se houver sofrimento e dor, daà a afirmação positiva do filósofo para a dor e o sofrimento que da perspectiva de Nietzsche são fontes riquÃssimas para se experienciar antes de ascender a formas mais criativas e potentes.
Nietzsche chamou essa força criadora de vontade de potência. Mas não como Schopenhauer onde a vontade era essência, para Nietzsche não há nenhuma essência, sua filosofia é estética, de tal modo que o conceito empregado por ele sabe-se que é apenas um nome para designar essa potência que toda forma de vida possui para vir-a-ser.
Potência também não quer dizer sempre algo positivo. Nietzsche é um filósofo para além do Bem e do Mal, é necessário cuidado para escapar das difÃcies artimanhas e dos alçapões que os valores que são tomados como verdadeiros possuem, de alguma forma temos que nos desvestir – tarefa difÃcil esta – do que é valoração nossa para poder compreendê-lo. Um bom exemplo é o tipo de homem que mostra-se na época atual, um homem que “quebrou-se” com a técnica, com o progresso, com o conhecimento e com os valores até então produzidos. Esse homem, através de sua capacidade criadora, sua vontade de potência, veio a ser um niilista: vazio, asséptico, indiferente, sem forças, um fraco que se entregou ao próprio devir, um negador da própria vida.
Nietzsche, diferentemente de Schopenhauer que só via raros momentos de felicidade conseguida à s custas da negação da vida, compreendeu que há sofrimento e dor em toda forma de vida, mas são condições para a transformação e a criação, vislumbrando nessa perspectiva uma possibilidade de afirmação positiva da vida; tal como os gregos pré-socráticos faziam. Esse povo, mesmo sabendo de toda dor e sofrimento, tão presentes em suas narrativas mÃticas, afirmavam sempre a vida, através da música, da arte, das festas. A vida enquanto obra de arte que precisa ser (re)inventada a todo momento. – Também concordo com essa idéia: há sofrimento e dor, mas a vida enquanto obra de arte pode dar vazão a um viver alegre, e uma alegria que só se reconhece porque também conhece o sofrer.
Reformulando:
Viver é desprazer,
é sofrer e morrer.
Viver é prazer,
alegria de criar e fazer,
nas surpresas constantes do vir-a-ser.
Viver é um constante destruir-se,
e um constante criar-se.
*Imagem: Le poète alongé, Marc Chagall, 1915.
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