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Quem sou eu? – Quem consegue responder?
2dez2008 Categoria(s): Pensamentos Autor: adv
O Orkut e outros sistemas de relacionamentos virtuais costumam começar com uma pergunta básica após a criação do registro: quem sou eu?
Uma pergunta aparentemente simples, porém, de grande impacto à quele sujeito que se quer fazer ter uma identidade bem cunhada perante uma audiência. Mas tão logo ele se molda à s palavras, tão insatisfeito se encontra ao ver que nunca consegue dizer-se aquilo que ser. Tal pergunta é impossÃvel de responder senão através das mutilações daquilo que ele deseja ser.
Ao dizer que é isso o sujeito se vê expulso daquilo que também gostaria de ser. É a impossÃvel tarefa de colocar toda a água do oceano dentro de um copo, não admitindo vazões. Alguns desistem da tarefa, e colam uma porção de ditos populares já feitos, modificáveis ao longo dos momentos mas não sem muitos conflitos. – Mas o Orkut virou um mundo próprio, com suas paranóias e conflitos tão problemáticos quanto o “real”, e exigiria uma melhor atenção que não esse texto.
O Orkut aqui é a tomada de um exemplo para dizer como a sociedade resolveu o problema do eu, do sujeito, do homem que se quer ter identidade. Sabe-se que a economia nos moldes capitalistas atrelou todo conhecimento ao seu favor, e tratou bem de ver com bons olhos o dito conhecimento técnico e operacional daquele que é humano.
Os conhecimentos humanos ou qualquer atividade que exija a reflexão são tidos como excessos desnecessários, um filósofo é mais visto como um estranho do que como aquele que pressupomos dominar certa área do saber.
Nesse sentido, o pensar e a reflexão são vistos como perdas de tempo diante da nossa lógica cultural, afinal, pensar e refletir pode revelar as muitas faces ocultadas que não são interessantes quando se quer estabelecer ordem e progresso. Para que se dar ao luxo de pensar e refletir se o pensado já é entregue nas medidas certas e necessárias?
Os desviantes, andarilhos e outros refugos que ficaram de fora da órbita globalizante, são considerados, por conta própria, os próprios deficientes sob vários aspectos, entre eles o de não conseguir, sabe-se lá por que, captar as receitas que são dadas e elogiadas em suas formas de “Saiba como fazer…”, “Descubra o que é…”, “Entenda em 1 minuto o que é Filosofia”, “Os melhores/piores…”, “Descubra as 10 maneiras de enlouquecer uma mulher”… etc., impossÃvel esgotar tantas “fórmulas mágicas” bem operacionalizadas que prometem o encontro do sujeito com a Falta de.
Antes se pede os resultados concretos: o seu conhecimento oferece conhecimentos concretos? – Como se os resultados fossem anterior à atividade do pensamento, que seria dizer, em outros termos, o absurdo: antes de pensar na ferramenta eu já criei. Querem prática mas não querem pensar! Nesse sentido, só é conhecimento bom aquele que oferece um produto visÃvel que renda lucro.
Basta andar alguns quarteirões pelas metrópoles – e até mesmo em cidades do interior – e se deparar com as várias escolas de formação de técnicos, através de cursos rápidos e voltados para transformar o sujeito em mercadoria. O sujeito-mercadoria oferece suas habilidades motoras subsidiadas por regras e normas cognitivas já entregues a ele e encerra a vida no seu fazer.
Evidencia-se a forma bem prática da nossa cultura escapar daquilo mesmo que ela aboliu (a vida). Através da operacionalização, a identidade do sujeito não é senão o que ele faz: a sua profissão.
As pessoas não são vistas pelo que são, mas pelo que fazem e o que têm. A existência pouco importa, quando se olha para o que produz e o que consomem.
Nos encontros sociais, quase que se pergunta antes a profissão para depois o nome, ou a primeira resposta já eliminaria a segunda pergunta. Mas por questão de conveniência, pergunta-se primeiro o nome e depois a profissão. A resposta da segunda pergunta delimitará todo um universo de relações em termos de aproximações e distanciamentos, para cada produto (sujeito).
Não que uma ou outra forma possibilita o encontro de um sujeito com o outro; pouco nos conhecemos, e o silêncio é o diálogo mais eloqüente nos nossos encontros sociais. Vivemos em solidão em meio a multidão. E para aqueles que compreendem a solidão apenas como a falta de outra pessoa, basta olharem para si e se verem o quanto não suportam ficarem sozinhos quando o olhar do outro não está à vista – a vida começa a se desbotar.
Outra forma de se apresentar na sociedade é escolhendo os acessórios e os objetos de enfeites para o corpo, bem como as indumentárias. Mas tais escolhas dependem do passaporte de consumo. De acordo com a configuração resultante se consegue mais ou menos sorrisos, simpatias, conquistas e aceitação. Não se trata de ser uma escolha harmônica ou não, mas uma escolha que mostre o maior número possÃvel de nomes que comprovem que você tem o passaporte social: o dinheiro.
Sem o passaporte não há consumo, sem consumo não há nenhuma possibilidade de se ter identidade, por mais mutilada que seja. Nesse sentido, o pensar se isenta, pois o necessário para consumir é um conhecimento bem prático, muito bem já pensado e elaborado por outros e entregue àqueles que desejam mostrar-se ao mundo que existe, pelo menos enquanto mercadorias intercambiáveis.
EpÃlogo:
Pode ser que ao longo da vida as pessoas fiquem doentes. Às vezes elas até chegam a morrer! Nesse caso a identidade também dependerá do passaporte social, ele definirá se a identidade será fixada no túmulo; ou se será apenas varrida para as valas comuns. No segundo caso é como retirar um lixo de um local, chega a ser agradável. No primeiro caso, resguardadas as devidas proporções do luto que se encerram na vida privada, nas outras instâncias da vida, pouca falta se dará do morto, que será reposto por uma novo sujeito-mercadoria, tal como se repõe, num sistema, uma peça quebrada. Pode ser que seja também mais agradável, de acordo com os resultados da produção.
PatrÃcia
dezembro 2nd, 2008 at 10:31
Ola´, estou escrevendo o meu trabalho de conclusão do curso de Pedagogia, e gostei muito do artigo O fetichismo da mercadoria, escrito por adv em 23 de setembro de 2007 – 22:51, gostaria de utilizar algumas partes que achei interessante e que estão relacionadas um pouco com o meu trabalho como citação, gostaria de saber se é possÃvel ? se for por favor me mande o seu nome completo para eu citar na bibliografia, meu trabalho está relacionado com indústria cultural e educação. Desde já obrigada pela atenção.
adv
dezembro 2nd, 2008 at 17:11
@PatrÃcia: Olá PatrÃcia, a responsabilidade da nota será toda sua ok ;) – segue:
VIEIRA, A. D. (2007) O fetichismo da mercadoria. DisponÃvel em: . Acesso em: XX/XX/XXXX
Desde já parabenizo pelo tema que acredito ser fundamentalmente necessário; por coincidência peguei esses dias o livro do Adorno “Educação e emancipação”, ainda não comecei a ler, estou na ânsia, mas tão logo que terminar outras leituras mais urgentes começo =)
lais paixao de souza
maio 4th, 2009 at 14:08
primeiramente parabenizao
e critico esse tema