Um jargão bem conhecido para caracterizar a relação entre as pessoas é o “levar vantagem em tudo”. Certo que costuma ser visto com aversividade nas coletividades, mas nem por isso ele é menos praticado.

Roger Martin elenca quatro características do sujeito que quer levar vantagem em tudo: 1. ganhar sempre; 2. manter a ordem e o controle; 3. evitar situações que podem gerar embaraços e 4. tentar manter-se “racionalizado”.

O autor diz ainda, que a “missão” desses sujeitos são pautadas por um sistema de pensamento fechado na crença de valores tais como: Eu: sei as respostas corretas; o Outro: ele não sabe, é desinformado ou mal-intencionado; minha tarefa (missão): fazer com que os outros vejam as coisas tal como eu quero (à minha maneira).

Tais costumes bem praticados nas civilizações são de espantar quando lhes são privados de suas indumentárias suavizadas. Tacitamente tão arraigada nas nossas relações, essa prática é alma das civilizações globalizadas. É o estandarte da globalização que não é muito diferente das épocas de colonialismo senão pela técnica: “colonizar” o maior número possível de “povos primitivos” dos países em desenvolvimento e de culturas diferentes; temos que levar o “progresso” e a “ordem” para esses povos, pois é o “avanço” que irá possibilitar o desenvolvimento humano dessas civilizações.

As conseqüências disso tudo também passam pelas técnicas de ficção dos instrumentos de divulgação, mas são bem evidentes fora dos estúdios de gravação: culturas inteiras sendo solapadas e padronizadas, características pessoais transformadas em padrões de conduta “militante” das causas dominantes e toda produção material e espiritual desses povos sendo pejorativamente rebaixadas em prol de padrões consumistas dos países desenvolvidos. Em última instância, a caridade do progresso é a de controlar e manipular, fazer dos miseráveis mais miseráveis, fazendo-os comprar nossos refugos tecnológicos a preços exorbitantes.

Assim, a democracia na qual vivemos oculta do olhar coletivo o seu amante autoritarismo, este não é convidado nos palcos pois vive bem acomodado nos cômodos particulares da democracia, e só durante as noites de núpcias lhe passa as coordenadas.

Aos acostumados a pensar pela lógica-binária, cabe aqui uma ressalta: tecer críticas ao progresso não signifca fazer oposição; não significa querer o regresso.

MARTIN, Roger (2004). O vírus da responsabilidade. São Paulo: A Girafa Editora.

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