castelo-na-areia

Na tomada de um fenômeno qualquer é possível pintá-lo nas mais diversas cores do conhecimento. Reduzindo-o várias vezes a formas cada vez mais elementares. Alguns encontram ai o enigmático, o inaudito, o inefável, o desconhecido – que não se trata de nenhuma entidade transcendental, mas simplesmente o reconhecer do homem frente ao incognoscível.

Mas também há aqueles senhores da verdade que tratarão de colocar pesos e correntes sobre os elementos, e dirão: essa é divisão máxima, isso é isso e não pode ser outra coisa, a essência é este elemento.

Oh! Pobres velhacos, terão eles medo de se jogar ao desconhecido? O enigmático é espantoso, nele encontra o algo-que-sequer-existe, um problema que não pode ser saciado por nenhuma resposta, pois todas as respostas possíveis, a tomada do que por um porque, implica em infinitas ligações onde cada porque pode se ligar outros porquês.

Heidegger chama esse algo espantoso, a contemplação diante do inatingível por verdade, de algo prémundano. Nietzsche escolheu o termo trasmudo para expressar aquela aparência insubstancial, sem essência.

Assim, o homem não pode fazer outra coisa senão se lançar ao abismo e contemplar as aparências, é a eterna busca de algo-que-falta-para-completar. Ao longo do tempo os homens inventaram muitos objetos-de-completude, tais como deuses, um dia onde a felicidade irá reinar, paraíso, vida eterna, amor eterno, espíritos que voam no tempo, … uma infinidade de idéias, meramente idéias, imagens produzidas por aquilo que costumamos chamar de consciência.

Muitas dessas construções já perderam suas origens de arquitetação no tempo e no espaço, de tal forma que muitos de nós nos relacionamos com elas como se fossem seres que existissem em sua concretude; por assim dizer, criações da consciência que não se sabe ser criações intencionais e passam a dominar os próprios criadores como se fossem seres externos.

Construímos nosso mundo por “imagens” ordenadas de conhecimentos, tal como uma criança brinca de construir castelos na areia: inevitavelmente as ondas virão e apagarão, dando origem a novas construções, entrementes que alguns resquícios do construído poderão restar, alguns parecem ser até duráveis, mas nada que seja imune às transformações, por mínimas que sejam.

Haverá aqueles que se darão bem com esse movimento incessante do viver, e construirão castelos quantas vezes forem necessárias, sempre prontos a aceitar a próxima onda que trará um brinde à alegria da criação. Haverá aqueles que irão querer fixar moradias, desconhecerão a alegria da criação e irão presenciar suas moradias sendo solapadas, e com elas seus tesouros de verdades serem levados – e continuarão tentando construir as mesmas moradias e, fundamentalmente, recuperar os seus tesouros de verdades: são os insatisfeitos, rancorosos, ressentidos e atolados, buscando a qualquer custo se sentir um homem no centro do universo, crente na ordenação, na previsibilidade, na verdade e na essência imutável dos seres.

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