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As muitas faces do tempo e o insustentável peso do ano-novo
30dez2008 Categoria(s): Filosofia Autor: advPrólogo: Olha, ouça, cheire, aprecie, sinta esse momento! O cheiro do perfume na camisa branca com as bordas roídas, amarelada pelo passado, lembra-me dos passeios contigo no pálido outono daqueles tempos. O vento, naquela ocasião, rufava em nossas faces, o seu sorriso parecia ter derretido o sol assim como a relva dessa noite acordou queimada pelo orvalho. Ahhh, tristes e alegres momentos, de tão belos eram os horrores que neste momento aprecio uma felicidade assustada pela beleza.
Seria o tempo uma entidade que nasce, vive e morre do feliz ano-novo?
O tempo linear
O tempo implícito no “feliz ano-novo” é um tempo absolutamente linear. A experiência do homem com o tempo não é somente através das divisões em passado, presente e futuro, e tampouco no tempo numérico dos relógios e dos calendários.
Esse tempo linear, que vingou na maioria das culturas, é um tempo que serve ao capital, à ciência, à lógica e todas tentativas dos homens em criar previsibilidade, ordem e controlabilidade sobre a natureza e o mundo das coisas – do nada.
Certamente que essa relação do homem com o tempo tem lá suas utilidades. Com o tempo linear podemos prever o nascimento de um bebê, conseguir melhores resultados em plantios e colheitas, organizar nossas vidas, etc. No entanto é capaz de aprisionar o homem em uma escala temporal ilusória, fazendo-o mero objeto a ser movido em um tabuleiro conforme as determinações deste tempo – que é determinista por excelência.
O tempo circular: o eterno retorno religioso
O budismo, o taoísmo, algumas outras religiões orientais, concebem o tempo dentro da circularidade. O símbolo da Mandala reflete uma relação do homem com o cosmo em uma relação circular, dentro do qual está o tempo.
Essa relação do homem com o tempo prescrita por algumas religiões orientais é chamada de eterno retorno, mas tampouco deve ser entendido na concepção nietzschiana do termo, na qual é a idéia que sustenta o nome desse blog.
O eterno retorno tradicional, em sentido religioso, está embebido de uma ordem determinista tal como o tempo linear, ora, pois, se este não corre em linha reta, simplesmente circula, eternamente circulando. Não se pode pular fora da ordem do círculo. Aqui são os ciclos que determinam a vida do homem: o que passou retornará; os ciclos se repetem na medida em que o homem “viaja” pelo círculo temporal. Essa relação cíclica do homem com o tempo só tem fundamento no símbolo religioso, o cosmo não “anda” em círculos, e se o vemos andar em círculos é produto da nossa visão: não há nenhum regente no Universo ditando as regras; em outras palavras, não há um regente em algum lugar do cosmo dando um
Se esse tempo linear tem suas utilidades e carrega ao mesmo tempo os seus tóxicos, convém ao homem saber que presente, passado e futuro em uma escala determinada por um “antes”, um “agora” e um “depois”, não é a única forma de concepção de tempo e tampouco o é o pano de fundo onde ocorrem as relações humanas no planeta.
O tempo em Heiddeger e o eterno retorno de Nietzsche
Heidegger, um dos maiores nomes da corrente filosófica existencialista do século XX, em sua obra “O Ser e o Tempo”, nos mostra que a vida está sustentada no tempo; o sentido do ser está no tempo, mas o tempo tampouco define o sentido do ser. Quer dizer que, o homem, quando em algum momento desenvolve a consciência, está lançado em um vir-a-ser: ele não é, ele será, mas também não é aquilo que será porque o que será deixará de ser. O sentido é o não-sentido experienciado em uma temporalidade.
Tentando clarificar essa idéia, o tempo na concepção existencialista de Heidegger é o caos, é o homem que se jogou ao abismo e sabe que não tem fundo para se apoiar, mas está constantemente num processo de criar pontes sustentáveis para trilhar. Estamos sempre querendo encontrar o fundo daquilo que não tem fundo, qual o fundamento disso ou daquilo? Dizemos isso e aquilo mais, mas ao tentar olhar mais profundamente “sentimos” que o fundo que damos se esvaece em um nada: encontramos o vazio.
Mas incrivelmente é a capacidade do homem de criar-se a partir do vazio, podendo configurar a si mesmo e o mundo, e também destruir a si mesmo e o mundo. No medo do vazio perdemos um mundo, e do nada podemos vivenciar outro mundo.
De alguma forma o homem toma consciência do tempo, mas este tempo não é consciente. A marca de sua condição é estar lançado no abismo, e é descoberto com a “preocupação” do homem que se revela no vir-a-ser. O homem gostaria de coisificar sua vida, transformá-la em algo concreto, ser, mas esse concreto sempre nos escapa diante de um horizonte temporal aberto e indefinido no qual a vida se encena.
Percebemos em Heidegger que o tempo é marcado pelo indefinido, pelo vazio, pelo nada, pelo caos, pelo abismo, pelo sem-fundo na qual o homem está lançado, contudo, não significa estar lançado ao niilismo. Heidegger reconhece a incrível potência do homem para criar os seus fundos – e também destruí-los – intensificando o prazer ou o desprazer do viver.
Nietzsche, em seu conceito de eterno retorno, controverso em suas definições, pois há várias interpretações sobre o tema, também apresenta a temporalidade marcada pelo caos, pelo indefinido, o tempo é acaso: não há nenhuma entidade no cosmo definindo que as coisas devem transcorrer ciclicamente ou linearmente. O tempo também não é entidade, ele não existe, não é um meio pelo qual nos movemos, mas é algo que produzimos, “temporalizamos” o tempo, colocamos nosso viver num espaço-temporal.
Nesse sentido, pela casualidade presente, o criar-se e o destruir-se também estão lançados à casualidade; pois a vida é jogo de forças que jazem no corpo em relação com o cosmo, ambos, em seu “real”, desconhecidos: não se sabe como um determinado afeto, uma determinada “vontade” de sentir-se no mundo de uma determinada maneira agora e não de outra me vem, os afetos se alternam, são perspectivas. De tal modo, o homem pode vivenciar aquilo que no “passado” foi de grande prazer ou de grande desprazer, tudo pode vir novamente mas não é um vir determinado pela ordem cíclica, por um vai-acontecer, é um pode-acontecer e um pode-não-acontecer mas nunca um não-acontecer.
Ora, nessa disposição do homem com o tempo, os afetos são outros. O homem não sente que carrega nas costas o peso do passado muito menos o irremediável destino reservado para si. Ele está lançado, flutua no nada angustiante, corre o risco de se perder no niilismo, mas não cai quando descobre sua força criativa capaz de (re)inventar-se, criar sentidos, destruir sentidos e colorir a alegria do viver. O tempo concebido no eterno retorno de Nietzsche ocorre no caos enquanto espaço disforme e sem fundamento, sua marca é a casualidade que confere que tudo que foi poderá ser novamente, e tudo que não foi poderá ser, e tudo que é poderá deixar de ser, e essa relação confere uma nova disposição afetiva do homem em seu vivenciar.
Conclusões: há espaço para o ano-novo no eterno retorno?
Diante da concepção existencial do tempo em Heidegger e o “dispositivo” do eterno retorno de Nietzsche, uma nova disposição do homem com a vida poderá surgir: este poderá superar o rancor, o ressentimento e a culpa; marcas bem características que o tempo linear quer nos imputar, pois é de interesse do homem querer demarcar todos os territórios, inclusive a vida. Esse tempo é um dos sustentáculos da vida ditada pelo capitalismo e pelo Estado.
É de interesse de “algum dispositivo” dizer que o homem que mantém relações sexuais fora do casamento é um pervertido, para esse fim, cria-se uma idéia para fixá-lo, transformá-lo em um é: esse homem é isso. De tal forma seu destino está traçado, de acordo com o passado imutável – ficou ancorado na perversão.
A concepção linear do tempo institui o homem em âncoras: afunda-o no passado, no presente e o seu futuro é irremediável de acordo com o que aconteceu no passado.
As ciências estão carregadas desse tempo pesado e rancoroso. Talvez ninguém mais depositou tanta confiança no tempo linear, na modernidade, como Marx. A História para Marx é o Tribunal da humanidade. A psicologia também contribui muito para sustentar o homem do ressentimento: Skinner e Freud, também personagens modernos, foram dois grandes nomes que se perdem ao serem confrontados com o abismo sem-fundo.
Convém ainda ressaltar que a interpretação do tempo a partir do eterno retorno nietzschiano não tem nenhuma pretensão de ser a ordem do tempo. O tempo não é o eterno retorno: este não é senão uma interpretação daquilo que chamamos de tempo, algo muito mais para ser “sentido”, vivido, do que explicado. O eterno retorno não é uma essência que está no cosmo, tal como é a circularidade para o tempo no eterno retorno em sentido religioso.
O tempo pelo pensamento nietzschiano permite uma disposição afetiva do homem diante do mundo onde a tristeza e a alegria podem estar presentes ao mesmo tempo; diferentemente do tempo linear onde dois sentimentos, duas coisas, não podem ocupar o mesmo lugar no espaço. Também não permite nenhuma fixação de valor, a idéia que uso para conceber tal fenômeno não passa de uma idéia do momento; se eu digo que o Brasil é um país democrático, sei que é apenas uma idéia que me vem à cabeça por uma série de motivações, assim, o Brasil está um país “democrático” neste momento para mim, pode ser que para minha amiga ele não esteja democrático. A qualquer momento pode deixar de ser, como também, se assim o for, poderá voltar a ser; e se o Brasil não é um país democrático, poderá vir a ser. São questões estéticas e não essenciais.
Nessa relação com o tempo não faz sentido usar as separações presente, passado e futuro, a vida é tudo isso ao mesmo tempo: são alternâncias de vivências. Meu passado está “presentificado” no agora, assim como o futuro que é vivido no aqui-e-agora enquanto o abismo que ainda não sei como será: um mistério que o homem pode encontrar potência para o viver, assim como também poderá se quebrar no completo niilismo diante da vida.
Nesse sentido, se ainda não ficou evidente, a comemoração do ano-novo tal como a conhecemos só se sustenta no tempo linear. Ela não existiria sem as âncoras temporais: passado, presente e futuro. Os 365 dias (por vezes 366) que morreram se cristalizaram em passado, é matéria morta que não volta mais, porém, esse “morto” exerce violentamente sobre o homem do agora as suas conspirações, este homem paga, por assim dizer, o que foi no passado. Por outro lado, este homem pode ser aquele sem passado, que por um passe de mágica passou a existir agora, a partir do dia 1º: o homem da renovação, que vê um novo mundo nascer, uma nova vida, e outras idéias advindas dos contos de fadas (?).
Mas, para ambos, o tempo continua sendo linear. Seja no passado que vem sendo arrastado como um fardo, seja no presente que acredita ser uma nova vida: nova vida disposta linearmente, dia à dia, mês a mês, ano a ano. Pois o homem não perde sua vida para adquirir uma nova.
Este homem que adquire sua “nova vida” todos os dias que sucedem os 365 que passaram (ou 366), tão logo se vê embriagado das relações fastidiosas do seu trabalho, da família, do cotidiano; pois irá se deparar com um mundo que não foi transformado, que os homens não passaram a ter uma nova disposição afetiva diante do mundo, que continuam fixos nas mesmas tramas sociais. Ora pois, obviamente que a simples mudança numérica do tempo no calendário do homem, por si só, não traz nenhuma transformação.
Cabe ainda ressaltar que não se trata de querer instaurar uma nova temporalidade em detrimento de uma velha, é necessário que várias formas de vivenciar o tempo possam existir: que cada um invente o seu tempo! O eterno retorno nos oferece uma possível interpretação, se ela não te faz bem jogue fora! O fundamental aqui é desautorizar a idéia de querer estabelecer verdades. O tempo linear precisa ser desautorizado de ser uma entidade absoluta a condenar os homens e determiná-los de acordo com o que eles foram no passado, mas não exterminado. Ora pois, tão mais saboroso se torna experienciar uma relação “fluidificada” com o tempo conhecendo outras formas mais “sólidas”.
O “feliz ano-novo” do Eterno Retorno
Diante de tudo isso, resta a este blog, ou ao autor por traz disso tudo, desejar tristes e alegres momentos não em 2009, mas nos momentos. Que estes possam ser vivido intensamente em suas alegrias e tristezas, que as tristezas possam ser alegres e as alegrias tristes; que o perfume da primavera possa trazer novamente as vivências do “passado” mais intensificadas de acordo com as experiências do agora; que os desprazeres de vivências “passadas”, se recordados, possam adquirir um sentido de intenso prazer que se revela com a nova disposição do momento, da mesma forma que os prazeres possam ser recordados com sentidos de desprazeres que poderão vir a ser prazeres, ou continuarem desprazeres…
Seria ingenuidade repetir as palavras daqueles ventríloquos já bem conhecidos: que nesse ano tudo possa se realizar e que seja repleto de felicidade. Ora, sabemos que “tudo” não irá se realizar, e que a felicidade não vai transbordar no copo, e se assim o fosse, tampouco teria sentido, seria algo simplesmente estático, determinado. Se fosse só felicidade ninguém conheceria o sofrimento, se fosse tudo realizado as coisas já seriam, não precisaríamos viver, seríamos uma pedra, algo que já é, uma pedra não pretende ser uma não-pedra. Tais considerações nem existiram, pois o feio precisa do belo para se revelar, e vice-versa. Nietzsche dizia que aos amigos ele deseja os mais intensos sofrimentos, justamente porque via no sofrimento um possível momento para que o homem pudesse encontrar consigo mesmo, descobrir suas potencialidades transformadas e buscar criar a vida. É justamente nos contrastes e nos paradoxos que o homem encontra a sua força criativa.
Sentido nisso tudo? Parece não haver, as próprias palavras da nossa linguagem estão na ordem linear, não permitem com fidedignidade passar aquilo que se gostaria. Poderia ainda dizer que o autor não foi claro, também poderia se dizer que por mais apto que seja a criar luz no escuro, jamais conseguiria atingir em palavras a multiplicidade dos afetos. Seria ainda, incoerente, com todo pensamento existencialista, que exerce grande impacto na construção desse texto, querer oferecer um caminho demarcado com pedrinhas brilhantes que prometem levar ao fim do arco-íris, ou qualquer tipo de trilha que tenha pretensão de levar a algum messias.
Se decantarem essas palavras, talvez fique uma mensagem: não deixe que te prendam em um passado, muito menos no destino, e tampouco no presente. Jogue-se dançando ao abismo sem-fundo mas não se perca no sem-fundo, crie fundos, destrua outros, mova-os, (re)construa-os. Apenas uma mensagem estética, asséptica de essência e sem nenhum fundamento universal.
Obs.: há uma série de definições sobre o conceito de eterno retorno na concepção de Nietzsche; há inclusive aquelas que irão dizer que é uma experiência cíclica com o tempo, que tudo se repete eternamente em uma relação circular, na qual eu discordo plenamente, pois seria o mesmo que querer dizer que é uma experiência com o tempo ordenada (determinista), um contra-senso em Nietzsche; penso que o cerne desta questão está na alternância das vivências mas não se resume a somente isso, e que necessariamente deve perpassar por uma relação sensorial e afetiva, isto é, aquele que deseja compreender essa idéia não irá compreendê-la se não sentir ao menos os calafrios do abismo sem-fundo, da alternância de vivências que pode trazer nada de novo mas tudo de novo, dos contrastes, dos paradoxos, do tudo e do nada ao mesmo tempo.
Imagem: “A Persistência da Memória” (1931) – Salvador Dali
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