Existencialismo, Ciências Humanas, Música, Web, etc.
Momentos de férias: férias da faculdade, daquele ambiente agradável e desagradável. Agradável pelo lado da convivência com amigos de pensamento, pelos professores que derrubam aquilo que até então gostávamos de chamar de realidade e nos colocam inquietações, pelo conhecimento que nos serve para o viver e para entender os seres humanos sem nunca entendê-los. Desagradável pelo lado de se deparar com os homens do saber técnico, com os professores religiosos que vêem o mundo pelas suas lentes que se confundem com olhos, com os alunos em busca de receituários técnicos para aplicar e atender demandas hodiernas, os que estudam visando os tÃtulos, notas numéricas, certificados de parede, publicações cientÃficas como obrigação… Mas cada um que seja responsável com suas escolhas, uma preferência aqui não se quer fazer destoar a outra, são apenas pontuações que demarcam que os diálogos nesses casos não ocorrem entre as partes, ou se ocorrem serão meras conveniências sociais: que os conflitos humanos sejam inerentes à própria condição humana, um condição do nada desejante.
Esses lares da educação, tão cultuado pela humanidade, a que se chamam de Universidades, costumam ter ares tão pesado que chamo de férias quando o ar já não é esse, mesmo tendo que respirar aquele das atividades a que se chamam de profissionais, que movem peças pré-estabelecidas na vida ordinária encenada no grande tabuleiro do ganhar e do perder onde só há perdedores.
Férias que eu quero fazê-la como momento de profunda ociosidade - que deixa de ser quando este estado é interpretado em seu esquecido sentido literal. Assim não sendo, a ociosidade é uma benção senhores! Quem disse que a ociosidade é doença foi a condição de vida moldada ao capital que não suporta o homem que não esteja produzindo; em outras palavras não suporta o homem que busca viver a vida para si mesmo. Revela-se então que ociosidade não se trata do encontro com o estático, imutável, parado.
Ociosidade às normas sociais é quando se deixa de produzir produtos e serviços de consumo - e necessariamente, que também deixa de consumir: não produzir mas consumir sabe-se bem qual nome tem.
Ocioso é o homem que perde seu tempo pensando na vida, que se perde em seu Ãntimo e se paralisa dançando com o delicioso mistério do ser-consigo-mesmo-no-mundo; o homem que perde seu tempo com leituras improdutivas: aquelas que não ensinam a técnica; que não gasta seu tempo com educação: aquela conhecimento que seja prático para “fazer” dinheiro; que joga tempo consigo mesmo deitado em uma cama pensando no mistério e sentindo os calafrios no espÃrito rodeado de pensamentos sobre a condição própria de ser e não-ser.
Contemplar a Lua é uma ofensa quando se pode contemplar os movimentos dos indicadores técnicos da bolsa de valores. Sentir a brisa noturna iluminada pelo imenso abajur celeste é coisa de bárbaros que não conhecem as “maravilhas” da civilização.
Ahhh, a ociosidade: que benção que é esse momento onde o homem pode vir a viver a própria vida, mas tão enredado no processo civilizatório estão os homens que eles costumam entender esse estado como doença, e o estado anti-natural criado por eles, aquele estar sempre ocupado do “homem dos negócios”, como saúde.
Minha agenda está ocupada, em linhas brancas pois o meu corpo sem anotar traz o anotado como ele bem entende, não sei por quê o anotado é isso e não aquilo, mas ocupadÃssimo está, seja: dialogar com a noite, fazer amor com a Lua, provocar o Sol, conversar com os animais, cheirar as plantas, acariciar o vento, fazer cócegas nas estrelas, contemplar o abismo sem-fundo do existir, abraçar as nuvens, voar pelas abóbodas celestes sem fim… e até tu amada que nunca conheci mas quando nos encontramos no acaso o meu corpo desejou-te ardentemente, nunca me disse ele o que queria de tu, mas por vezes nossos corpos se entendem sem saber por quê e fazem uma festa que desejamos eternizar, mas não temos órgão para isso, pois a consciência ordinária é uma doença que se quer ser um Ser dividido do corpo: o homem lançado na civilização precisa sufocar os estados corporais para conquistar a razão.
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