Existencialismo, Ciências Humanas, Música, Web, etc.
Pensamento de Cioran para um visão crÃtica da Guerra entre Israel e Palestina
10jan2009 Categoria(s): Filosofia Autor: adv
Emil CIORAN foi um filósofo romeno, que passou grande parte de sua carreira intelectual na França, do século XX (1911-1995). Cioran costuma ser conhecido como filósofo do pessimismo, recaindo em um ceticismo e niilismo radical - tem fortes influências de Schopenhauer, Nietzsche, Heidegger, etc. Porém, não devemos tomar um filósofo como aquilo que ele transparece aos “estudiosos”, mas sim, por aquilo que seus pensamentos fazem conosco. Assim, reconheço o “pessimismo” de Cioran de uma outra perspectiva: seus pensamentos servem para nos tirar o mundo de órbita, e no descarrilhar, por vezes encontramos um sentido à vida no não-sentido, por mais que seja momentâneo.
O “pessimismo” de Cioran é uma arguta chamada para à alegria: não se trata daquela ingenuidade de predispor no futuro ou no agora o paraÃso inexistente, mas tampouco é o pessimismo ingênuo de colocar no presente e no futuro o inferno; o pessimismo de Cioran é um crÃtica que nos mostra além das máscaras que desfilam no contingente das relações e produções humanas, é um pessimismo que busca criar um sentido de vida a cada momento, pois estamos lançados ao sem-sentido. É nesse sentido que Cioran se revela à minha perspectiva como uma intensificação da alegria daquilo na qual considero prazeroso à vida na medida em que o horror se revela através da agudeza de espÃrito desse autor, sendo cada um o artista de sua própria obra de arte - a vida (A vida como obra de arte ).
Fatos muitos curiosos de Cioran revelam o seu “pessimismo”. Em resposta à mãe que disse que se soubesse que o filho seria tão infeliz teria realizado um aborto, o filósofo disse que sua existência era apenas um acidente, indagando-se: “por que levar isso tão a sério?”. Uma frase marcante de Cioran é: “Só vivo porque posso morrer quando quiser. Sem a idéia do suicÃdio já teria me matado há muito tempo”. - Essa frase, dita por muitos como uma evidência do pessimismo e do niilismo de Cioran, do meu ponto de vista não é senão uma afirmação da vida dentro da perspectiva do pensamento trágico, na medida em que o autor reconhece o horror da existência mas diz “Sim” à vida - optando pelo não suicÃdio.
As obras desse filósofo romeno traduzido para o português, pela Editora Rocco, são: Silogismos da Amargura; Breviário de Decomposição; O Livro dos Logros e História e Utopia.
Muitos dos pontos de vista de Cioran eu discordo, principalmente sua visão cética, e é exatamente nessas discordâncias que a leitura tem se revelado extremamente enriquecedora, na medida em que me obriga a considerá-lo, do seu ponto de vista, e ao mesmo tempo ir além do pensamento de Cioran e trazer, a partir dele, um pensamento ou uma perspectiva, sobre um determinado assunto, da qual me vem à cabeça depois de decantado nos meus próprios pensamentos.
Abaixo uma passagem bem contemporânea de Cioran, que pode ser muito bem lançada como luz nos conflitos atuais e históricos da qual presenciamos na Faixa de Gaza, e não somente aà mas nas relações polÃticas, ideológicas, religiosas e culturais, da qual, infelizmente, os homens ainda estão na idade da pedra enquanto compreensão dessas dimensões e seus impactos na sociedade e no mundo.
“Genealogia do fanatismo” (primeira parte do livro Breviário da Decomposição):
“Em si mesma, toda idéia é neutra ou deveria sê-lo; mas o homem a anima, projeta nela suas chamas e suas demências; impura, transformada em crença, insere-se no tempo, toma a forma de acontecimento: a passagem da lógica à epilepsia está consumada… Assim nascem as ideologias, as doutrinas e as farsas sangrentas. Idólatras por instinto, convertemos em incondicionados os objetos de nossos sonhos e de nossos interesses. A história não passa de um desfile de falsos Absolutos, uma sucessão de templos elevados a pretextos, um aviltamento do espÃrito ante o improvável. Mesmo quando se afasta da religião o homem permanece submetido a ela; esgotando-se em forjar simulacros de deuses, adota-os depois febrilmente: sua necessidade de ficção, de mitologia, triunfa sobre a evidência e o ridÃculo. Sua capacidade de adorar é responsável por todos os seus crimes: o que ama indevidamente um deus obriga os outros a “Em si mesma, toda idéia é neutra ou deveria sê-lo; mas o homem a anima, projeta nela suas chamas e suas demências; impura, transformada em crença, insere-se no tempo, toma a forma de acontecimento: a passagem da lógica à epilepsia está consumada… Assim nascem as ideologias, as doutrinas e as farsas sangrentas. Idólatras por instinto, convertemos em incondicionados os objetos de nossos sonhos e de nossos interesses. A história não passa de um desfile de falsos Absolutos, uma sucessão de templos elevados a pretextos, um aviltamento do espÃrito ante o Improvável. Mesmo quando se afasta da religião o homem permanece submetido a ela; esgotando-se em forjar simulacros de deuses, adota-os depois febrilmente: sua necessidade de ficção, de mitologia, triunfa sobre a evidência e o ridÃculo. Sua capacidade de adorar é responsável por todos os seus crimes: o que ama indevidamente um deus obriga os outros a amá-lo, na espera de exterminá-los se se recusam. Não há intolerância, intransigência ideológica ou proselitismo que não revelem o fundo bestial do entusiasmo. Que perca o homem sua faculdade de indiferença: torna-se um assassino virtual; que transforme sua idéia em deus: as conseqüências são incalculáveis. Só se mata em nome de um deus ou de seus sucedâneos: os excessos suscitados pela deusa Razão, pela idéia de nação, de classe ou de raça são parentes dos da Inquisição ou da Reforma. (…) O diabo empalidece comparado a quem dispõe de uma verdade, de sua verdade. Somos injustos com os Neros ou com os Tibérios: eles não inventaram o conceito de herético: foram apenas sonhadores degenerados que se divertiam com os massacres. Os verdadeiros criminosos são os que estabelecem uma ortodoxia no plano religioso ou no polÃtico, os que distinguem entre o fiel e o cismático. No momento em que nos recusamos a admitir o caráter intercambiável das idéias, o sangue corre… Sob as resoluções firmes ergue-se um punhal; os olhos inflamados pressagiam o crime. Jamais o espÃrito hesitante, afligido pelo hamletismo, foi pernicioso: o princÃpio do mal reside na tensão da vontade, na inaptidão para o quietismo, na megalomania prometéica de uma raça que se arrebenta de tanto ideal, que explode sob suas convicções e que, por haver-se comprazido em depreciar a dúvida e a preguiça - vÃcios mais nobres do que todas as suas virtudes -, embrenhou-se em uma via de perdição, na história, nesta mescla indecente de banalidade e apocalipse… (…) Disso resulta o fanatismo - tara capital que dá ao homem o gosto pela eficácia pela profecia e pelo terror … Só escapam a ela os céticos (ou os preguiçosos e os estetas) porque não propõem nada, porque - verdadeiros benfeitores da humanidade - destroem os preconceitos e analisam o delÃrio. (…) Em um espÃrito ardendente encontramos o animal de rapina disfarçado; não poderÃamos defender-nos demasiado das guarras de um profeta… Quando elevar a voz, seja em nome do céu, da cidade ou de outros pretextos, afaste-se dele: sátiro de nossa solidão, não perdoa que vivamos aquém de suas verdades e de seus arrebatamentos; quer fazer-nos compartilhar de sua histeria, de seu bem, impô-la a nós e desfigurar-nos. Um ser possuÃdo por uma crença e que não procurasse comunicá-la aos outros é um fenômeno estranho à terra, onde a obsessão da salvação torna a vida irrespirável. (…) O fanático é incorruptÃvel: se mata por uma idéia, pode igualmente morrer por ela; nos dois casos, tirano ou mártir, é um monstro. (…)”
Acredito que o trecho acima dispensa comentários, dado a clareza com que Cioran expõe seus pensamentos, ficando ao leitor, a partir do seu entendimento, refletir e enriquecer as perspectivas.
Texto “Genealogia do Fanatismo”, Cioran, na Ãntegra >
Schopenhauer e a psicanálise: do egoÃsmo e crueldade dos homens | Eterno Retorno
março 5th, 2009 at 14:21
[...] Cioran é outro personagem para o qual o mundo também é dor, a existência é um mau gosto da matéria. Não podemos dizer que Schopenhauer é um Nietzsche sem amor fati, são formas de pensar bem distintas. Já uma análise simplista entre Nietzsche e Cioran, podemos dizer que o filósofo romeno é um Nietzsche sem amor fati. Ambos são pensadores da aparência, não há nenhum princÃpio na natureza; já Schopenhauer é metafÃsico, o princÃpio está na vontade. [...]