Pensamentos, Existencialismo, Trágico, Absurdo, Música, etc.
Sobre o amor e o “Eu” no pensamento de Pascal
10jan2009 Categoria(s): Filosofia Autor: adv
Já fiz algumas pontuações sobre o Pascal nesse blog (A filosofia dos religiosos Pascal e Kierkegaard ). Aqui vai uma outra: os escritos de Pascal são deliciosos para ler. É impressionante a clareza e a contemporaneidade desse pensador do século XVII. A principal obra de Pascal chama-se “Pensamentos”, um livro de baixo custo, que se acha em qualquer livraria, mas de uma riqueza incalculável. Quando adquiri meu exemplar deixei-o como “livro de cabeceira”, cada dia lia alguns pensamentos, ainda não terminei, mas me surpreendo com Pascal cada vez mais!
Abaixo um aforismo belÃssimo onde Pascal desconstrói a idéia de um “eu” substancial que toma o indivÃduo como se fosse exatamente esse “eu”, uma idéia que transcende, aquele “Eu” bem ao estilo cartesiano; além de colocar o sentimendo do amor fora da órbita romântica. Algumas das influências mais importante de Pascal se deu no pensamento de Nietzsche, mesmo que este tenha mantido certa distância devido à religiosidade do pensador francês, e também, mais contemporâneo ainda, Pascal influenciou o Pensamento Complexo de Edgar Morin.
§323
“O que é o eu? Um homem que se põe à janela para ver os passantes, se eu estiver passando, posso dizer que se pôs á janela para ver-me? Quem gosta de uma pessoa por causa de sua beleza, gostará dela? Não, pois a varÃola, que tirará a beleza sem matar a pessoa, fará que não goste mais; e, quando se gosta de mim por meu juÃzo (por minha inteligência), ou por minha memória (capacidade de memorizar), gosta-se de mim? Não; pois posso perder essas qualidades sem me perder. Onde está, pois, esse eu, se não se encontra no corpo nem na alma? E como amar o corpo ou a alma, senão por essas qualidades, que não são o que faz o eu, de vez que são perecÃveis? Com efeito, amarÃamos a substância da alma de uma pessoa abstratamente, e algumas qualidades que nela existissem? Isso não é possÃvel, e seria injusto. Portanto, não amamos nunca a pessoa, mas somente as qualidades. / Que não se zombe mais, pois, dos que se fazem homenagear por seus cargos e funções, porquanto só se ama alguém por qualidades de empréstimo” (Pascal, Pensamentos, Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1973, p. 121).
Para saber mais sobre a crÃtica do “Eu”: O que é pensamento para Nietzsche; Nietzsche contra o “Penso, logo existo” de Descartes.
Margareth Duval
janeiro 11th, 2009 at 13:21
Um homem que se põe à janela para ver os passantes, põe-se ali para ver os que passam, simplesmente e nada mais, provavelmente.
Gostamos facetariamente. Somos facetários. Nossa avaliação do outro nasce em nós. Avaliamos o outro por aquilo que somos. É necessário ao outro, para que lhe admiremos, ou não, para que lhe gostemos, ou não, que ressoe em nós, que seja parte da imagem (também facetária) que temos de nós mesmos.
Os que gostam de mim, gostam-me em partes e podem não gostar-me, por fim, integralmente. Gostam-me com as ressalvas que me fazem diante de seus parâmetros estritamente pessoais.
ABÇos.
MDuval
adv
janeiro 11th, 2009 at 14:05
@Margareth Duval: olá, obrigado pelas contribuições, colocando mais lenha: a avaliação do outro nasce em nós (sejam elas quais forem), o que implica que também somos avaliados pelo outro; assim sendo o outro nos avalia e avaliamos o outro, sem ordem pré-estabelicida, mas concorrendo em um ‘caldeirão’ só onde tudo se mistura: logo, muitos correm o risco de nunca se conhecerem senão através (somente) do outro; faltando aquele olhar para si mesmo onde pode se deparar com os calafrios do abismo sem-fundo que ressoa da impotência de uma identidade primordial, única, indivisÃvel, essencial… =)
Margareth Bravo
janeiro 11th, 2009 at 21:00
As vezes, me pego na janela para ver os passantes, e penso… tudo me parece tão irreal, eu chego a pensar que tudo não passa de pura ficção… mas eu quem?
No meu entender, amamos outro numa busca de significado, por maior amor próprio que se tenha, sempre estaremos refletindo e refletidos no outro, amamos projeções que criamos ao nosso bel prazer. Mas a aventura do corajoso mergulho à dois, despindo couraças, expondo fragilidades, revelando abismos, pode nos auxiliar ao portal o auto-encontro.
Estou adorando seus temas!
Um grande abraço