Blaise PascalJá fiz algumas pontuações sobre o Pascal nesse blog (A filosofia dos religiosos Pascal e Kierkegaard ). Aqui vai uma outra: os escritos de Pascal são deliciosos para ler. É impressionante a clareza e a contemporaneidade desse pensador do século XVII. A principal obra de Pascal chama-se “Pensamentos”, um livro de baixo custo, que se acha em qualquer livraria, mas de uma riqueza incalculável. Quando adquiri meu exemplar deixei-o como “livro de cabeceira”, cada dia lia alguns pensamentos, ainda não terminei, mas me surpreendo com Pascal cada vez mais!

Abaixo um aforismo belíssimo onde Pascal desconstrói a idéia de um “eu” substancial que toma o indivíduo como se fosse exatamente esse “eu”, uma idéia que transcende, aquele “Eu” bem ao estilo cartesiano; além de colocar o sentimendo do amor fora da órbita romântica. Algumas das influências mais importante de Pascal se deu no pensamento de Nietzsche, mesmo que este tenha mantido certa distância devido à religiosidade do pensador francês, e também, mais contemporâneo ainda, Pascal influenciou o Pensamento Complexo de Edgar Morin.

§323

“O que é o eu? Um homem que se põe à janela para ver os passantes, se eu estiver passando, posso dizer que se pôs á janela para ver-me? Quem gosta de uma pessoa por causa de sua beleza, gostará dela? Não, pois a varíola, que tirará a beleza sem matar a pessoa, fará que não goste mais; e, quando se gosta de mim por meu juízo (por minha inteligência), ou por minha memória (capacidade de memorizar), gosta-se de mim? Não; pois posso perder essas qualidades sem me perder. Onde está, pois, esse eu, se não se encontra no corpo nem na alma? E como amar o corpo ou a alma, senão por essas qualidades, que não são o que faz o eu, de vez que são perecíveis? Com efeito, amaríamos a substância da alma de uma pessoa abstratamente, e algumas qualidades que nela existissem? Isso não é possível, e seria injusto. Portanto, não amamos nunca a pessoa, mas somente as qualidades. / Que não se zombe mais, pois, dos que se fazem homenagear por seus cargos e funções, porquanto só se ama alguém por qualidades de empréstimo” (Pascal, Pensamentos, Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1973, p. 121).

Para saber mais sobre a crítica do “Eu”: O que é pensamento para Nietzsche; Nietzsche contra o “Penso, logo existo” de Descartes.

Esses links são para compartilhar o conteúdo em redes sociais ou por email.
  • Rec6
  • Ueba
  • Dihitt
  • DoMelhor
  • LinkTo
  • LinkLoko
  • TwitThis
  • E-mail this story to a friend!