La Rochefoucauld foi um pensador francês do séxulo XVII que escreveu em forma de aforismos, seu ponto de vista e analítico da moral que perpassa as relações humanas, sendo um primeiro esboço de psicologia que viria no século seguinte a ser feita dentro dos moldes empíricos. Os aforismos viraram febre na França dessa época e exerceram fortes influências em filósofos posteriores, tais como Nietzsche, Cioran, Adorno entre outros.

Abaixo um dos aforismos presentes na obra mais importante do autor, Máximas e Reflexões (1664), que retrata, através da forma livre e quase sempre artística dos aforismos, a situação daquele que “ama” sem amar; algo bem comum entre os casais onde um e outro se relacionam por obrigação, por esperar do outro o rompimento, por achar dispendioso emocionalmente o término do enlace, por medo de se sentir sozinho, entre tantas outros sentimentos que concorrem em miríades nessas situações.

Do Amor e do Mar

Aqueles que quiseram nos representar o amor e seus caprichos o compararam de tantas maneiras ao mar que é difícil acrescentar o que quer que seja ao que disseram. Fizeram-nos ver que um e outro têm inconstância e infidelidade iguais, que seus bens e seus males são inumeráveis, que as navegações mais felizes ficam expostas a mil perigos, que as tempestades e os escolhos sempre devem ser temidos e que, muitas vezes, mesmo no porto se naufraga. Mas, ao nos exprimirem tantas esperanças e tantos temores, não nos mostraram de modo suficiente, me parece, a relação que há de um amor desgastado, inerte e em fase final com essas longas bonanças, com essas calmarias aborrecedoras que são encontradas no percurso: cansados da longa viagem, desejamos que chegue ao fim; avistamos a terra, mas o vento não sopra para chegar a ela; vemo-nos exposto às intempéries das estações; as doenças e a apatia nos impedem de agir; a água e os víveres faltam ou mudam de gosto; recorremos inultimente a um socorro estranho; tentamos pescar, mas só conseguimos alguns poucos peixes, sem deles tirar alívio ou alimento; estamos cansados de tudo o que vemos, ficamos sempre com nossos próprios pensamentos e estamos sempre aborrecidos; vivemos ainda, mas lamentamos viver; esperamos por desejos que nos levem a sair de um estado penoso e apático, mas os que conseguimos ter são fracos e inúteis.

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