planeta terraEu, a que vocês humanos chamam de Terra, tenho-vos algo para lhes dizer. De tais em tais palavras que não fazem parte do meu dialeto, mas que são a partir delas que vocês humanos demarcam cada coisa e dão o seu devido valor, que não muito raro carrega a perigosa sensação de “verdade”, tentarei fazer-me de entendida ou entendido, pois para mim de tão pouco me importa o sexo binário que também é criação de vocês, mas para facilitar a comunicação me passarei por feminina. Perdoem-me se nessa construção em linguagem humana contenha erros ou pequenos detalhes que o desagradem dos quais vocês tanto abjetam uma vez que primam pela ordem, beleza, limpeza, identidade entre tantas outras categorias que se fossem eliminadas nem todos os visionários juntos saberiam dizer o que viria a ser de vossa espécie: comeriam uns aos outros em sentido puro e sem malícia do termo, se tal consideração já não fosse uma realidade.

Os segredos da vida que tanto vocês procuram, esquecendo até mesmo de suas vidas, não lhes revelarei, confesso que nem eu sei e que tampouco me importa. Mas como disse acima tenho a difícil tarefa de me expressar e tentar me fazer de entendida a partir de palavras, e sei bem que elas não sabem o que dizem, por mais que sejam autoritárias e pretensiosas em significados únicos. A partir da razão, de passo em passo, por A e B, sem muitos descaminhos, primo pela clareza para que a complexidade e o sentimento do inaudito não lhes venham a causar impacto, pois sei que todo mistério que cutuca o espírito não é saboreado por muito tempo como contemplação; pelo contrário, é terreno fértil para criação de deuses, e como estou caduca de saber, todo deus precisa ser mantido por festivais de sangue humano ou de animais: esses últimos, por sinal, tão negligenciados por boa parte de vocês, animais que defecam, comem, bebem e morrem - que me perdoem aqueles animais.

Do meu ventre, em parceria com os mistérios de Urano ou se preferirem, simplesmente Céu - questão de escolha pois nenhuma dá conta desse inefável -, e seu rastro de gases atmosféricos, veio à luz todos os seres que nascem, passam por transformações a que vocês chamam de desenvolvimento ou crescimento e por fim morrem, o ato final este que vocês tanto temem e que às escusas se fazem em prostrações e choros intermináveis em busca do paraíso da eternidade que eterno parece ser a capacidade de vocês criarem nome para tal desejo. - Permitam-me uma nota: não tomem tais palavras como verdades: talvez seja esse o vício maior das civilizações.

O que digo pode ser um mito como toda humanidade e toda a sua produção, tudo aquilo a que o homem dotado de consciência e linguagem já criou ou pensa em criar, ou o que ainda será criado e não foi pensado, são: mitos. Fábulas sobre a vida, sobre o homem, sobre os princípios, sobre tudo que há de mais sagrado e mais insano e mais divino. Eu, Terra, digo-vos: com os homens, estendeu-se sobre um mim um imenso véu de fábulas.

Antes de continuar, peço desculpas - embora não me sinto na necessidade de apresentar-lhes justificativas - se o que virá possa parecer insolente. Não tenho problemas com aquilo a que se chamam de etiquetas ou bom comportamento social ou o que certos psicólogos gostam de chamar como habilidades sociais - e se gabam por isso -, faço-me saber que as intempéries do nada (não busquem explicações para o nada porque o nada nada é) e nas delícias com Urano, buscávamos fazer obras de arte para que pudéssemos contemplar juntos. Seriam ornamentos para nossas noites daquilo que vocês chamam de amor, e ainda, sendo mais sincera, confesso que seres móveis e mutáveis espalhados pelo corpo me seriam úteis no processo prazeroso de masturbação. Não queiram imaginar como é cansativo masturbar um corpo desse tamanho todo. Não me levem a mal se a partir daqueles preceitos a que vocês também inventam, divinamente cultuados por muitos, a que se atribui o termo moral, eu lhes pareço insana e condenada ao caldo sem fim e escaldante dos inúmeros nomes que se pode dar para expressar as insatisfações de vossa espécie.

Mas nem todos os seres nasceram de uma noite de núpcias, (…)

[continua algum dia desses...]

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