zadigNo conto Zadig ou o destino – história oriental , de Voltaire, um dos personagens, o grande mago do reino de Babilônia, propôs alguns enigmas aos candidatos a trono de rei, para governar juntamente com a rainha Astartéia. Seria a fase final aos candidatos que combatera na arena e derrotara certo número de combatentes.

O mago propôs o seguinte enigma (o primeiro): “Qual é, de todas as coisas do mundo, a mais longa e a mais curta, a mais rápida e a mais lenta, a mais divisível e a mais extensa, a mais negligenciada e a mais irreparavelmente lamentada, que devora tudo o que é pequeno e que vivifica tudo o que é grande?”

Uns disseram que seria a fortuna, outros a terra, outros a luz. Zadig acertou dizendo que seria o tempo. “Nada é mais longo (…) pois que é a medida da eternidade; nada é mais curto, pois que falta a todos os nossos projetos; nada mais lento para quem espera; nada mais rápido para quem desfruta a vida; estende-se, em grandeza, até o infinito; divide-se, até o infinito, em pequenez; todos os homens o negligenciam, todos que lamentam a perda; nada se faz sem ele; faz esquecer tudo o que é indigno da posteridade, e imortaliza as grandes coisas.”

Não sei se Heidegger teve conhecimento dessa passagem no conto de Voltaire, certamente teria se maravilhado; embora o tempo em Heidegger não é uma “coisa”, um elemento presente e indissociável do homem. Nesse sentido, o tempo só existe ao homem, na medida em que ele se depara que está lançado no nada ser. É o tempo que de certa forma dá sentido ao ser, mas também o sentido do ser não é o tempo, diz Heidegger.

Voltaire é mais conhecido como um dos grandes ateístas, mas me parece uma alcunha errônea se tomar o termo em sua versão mais radical desse movimento, isto é, o sujeito que nega qualquer referência divina em prol de uma continência à ciência e ao empírico: esse tipo de ateísmo chegou a ser criticado por Voltaire.

Não conhece Voltaire? Não sabe o que está perdendo ;)

Um pouco mais em:
Voltaire – vida, obra e muitos contos
Diálogo entre Nietzsche e Voltaire a partir do conto Micrômegas

*Ilustração de Zadig desconhecida.

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