deuses indianosEu sei tudo sobre a novela Caminho das Índias. Não, eu não assisti, só me deparei com o nome e os pombinhos da vez durante os comerciais. Mas isso já é o suficiente, basta saber que é uma novela, um pouco de conhecimento sobre os miasmas da cultura patriarcal, amor romântico, a instituição família, os modos de funcionamento do capitalismo e pronto, arquitetamos qualquer final de novela. As que já foram, as que estão em pauta na agenda da indústria cultural e as que ainda virão.

Dessa vez um elemento parece ser surpresa: a novela se passa na Índia. Errado! A novela se passa na Índia criada pela novela, uma Índia repleta de palácios e tesouros magnânimos, de vacas gordas e de uma profusão de misticismos convivendo harmoniosamente. A Índia não mostrada é aquela de mais de 40% da população em condições miseráveis, dos cadáveres de animais e pessoas que convivem em meio à civilização, das crianças famintas, dos ratos devorados, da exploração das grandes multinacionais, etc.

A Índia mostrada na novela talvez não esteja nem nos contos místicos de grandes maravilhas da cultura indiana. Mas nem por isso deixará de fazer sucesso, afinal, seus telespectadores são aqueles que aparecem no Fantástico e dizem “obrigado por proporcionar que nossas famílias tenham acesso a uma cultura tão rica e diversificada” (sic).

Como esse post já estourou o número de caracteres que os assíduos telespectadores do Caminho das Índias suportam ler, recorro à formula para revelar o final da novela:

Márcio Garcia e Juliana Paes são os pombinhos, ela, a pobrezinha, ele, o príncipe (ou é o contrário?). Um romance retirado dos já manjados contos de fadas, idealizado por criaturas modernas retiradas dos sonhos e fantasias do mundo ocidental.

Muitos obstáculos serão impostos na vida de pessoas que, como dizem, “só querem ser felizes”. Pessoas más, moralistas e machistas não querem a união sagrada; mas os “bonzinhos” querem. Na luta entre o Bem e o Mal – no melhor dos estilos cristão ocidental – o vencedor é claro, você já sabe.

Portanto, uma breve maharaja revelou: a mocinha, Juliana Paes, pobrezinha e mal tratada, vai virar princesa, casando-se com o bem sucedido príncipe, Márcio Garcia, e viverão felizes para sempre num belo palácio.

Ahhhh, mas isso é o de menos. Não nos esqueçamos da bela aula de cultura sobre a Índia em suas múltiplas riquezas e diversidades, encenada pelos branquinhos, loirinhos e outros personagens retirados da fábrica de ideais universais do homem civilizado ocidental.

Agora que você já sabe o final, que tal pegar um livro daqueles que mostram os edifícios não revelados por trás das câmeras? Talvez não mostrem palácios habitados por príncipes e princesas…

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