Pensamentos, Existencialismo, Trágico, Absurdo, Música, etc.
Há tantas auroras que não brilham ainda
2fev2009 Categoria(s): Pensamentos Autor: adv
O blog ficará por algum tempo sem posts dos quais eu considero com alguma relevância. Enquanto isso o Ego Popular se encarregará de dar o andamento com suas idéias estúpidas e ingênuas. Isso quer dizer que os posts não terão outra função senão fazer parte dos pilares desse blog frente aos mecanismos de buscas, por assim dizer, posts merchandising que reproduzem, em geral, as tralhas tecnológicas ou alienantes do homem civilizado. Posts que em geral aumentam as visitas desse blog, geram cliques e consequentemente maior rentabilidade. – Isso é uma constatação triste: o público na internet, em sua grande maioria, não está interessado na condição do homem. Está interessado nos novos lançamentos da indústria cultural, que diverte e mantém entretido o homem que ama a tecnologia, a máquina e o artifical mais do que a si mesmo. – Mas quem sou eu, ou quem é o homem, para dizer que o céu estrelado é mais saboroso que um iPhone? Ora pois, se outros preferem fazer amor com seus espetáculos de última geração e crêem na tecnologia como salvação, que assim o façam: há muitos que morrem vivendo para as máquinas.
Fato é que não ando em um bom momento. As idéias “libertadoras”, por vezes com suas faces de horror, fugiram. No palco, agora, desfilam conflitos paridos por ela, consciência, ou espÃrito, ou seja lá o que for preferÃvel para se referir aos pensamentos.
Não que isso me afliga intensamente. Na verdade eu adoro esses momentos, pois me colocam em Ãntimo com o corpo, aprecio a ociosidade e me lanço ao nada-ser. Aceito o sofrimento e jamais desejaria o não-sofrer, pois não haveria mais auroras nem o céu imenso que se abre com tanta clareza depois das tempestades.
Nesses momentos faço experiências com meu corpo. Ausculto-o. Vejo perfeitamente acontecer a somatização dos conflitos: vêm gripes, dores de cabeça, pesadelos, febres e tonturas. Dependendo da gravidade o meu corpo fala através de problemas renais. Isso tudo é maravilhoso, na medida em que vejo “pensamento” e “corpo” se afetando mutuamente; não separo um do outro, pensamento-corpo na minha concepção é uno.
Concordo com Nietzsche de que não tem um “Eu” que pensa, o pensamento me vem à cabeça, portanto, nesses estados, eles costumam correr, fogem, sinto-me sem nenhum conhecimento. Parece que toda capacidade do intelecto virou pó e foi soprado pelos ventos fortes das tempestades.
Aproveito, assim, para me aproximar da vida, dos animais, da lua, do céu e da música. Livros? Nem pensar, só se for amigos “Ãntimos” como Dostoiévski e Nietzsche – e com moderação. Quem descobre o aconchego da companhia dos mortos, jamais esquece!
À minha perspectiva o sofrimento não é doença, portanto, abraço-o. Ele é legÃtimo e faz parte do existir. E na medida em que faço dele algo intrÃnseco do existir, o devir vai fluindo, o contato com o inefável vai borbulhando, novos sentidos começam a despontar, novas perspectivas e um horizonte majestoso, uma clareira repleta de gozo e júbilo costuma vir com seus frutos saborosos depois desses momentos. O estio sempre vem.
Nietzsche dizia que aos amigos desejava o sofrimento. Porque o sofrimento incomoda, clama por potência para conseguir grandes saltos, sofrimento é o motor da vida. Certamente, que o sofrimento aqui considerado não é o sofrer em sentido cristão, na qual compreende como condição para um gozo no Além; o sofrimento cristão julga a vida do aqui-e-agora como sendo indigna: é o sofrimento uma mostra de como essa vida “material” é suja e pecaminosa, e portanto, se vencida essas provações, herdará o reino dos céus.
O sofrimento na qual aqui compreendo é legÃtimo da própria condição do homem. De estar lançado no mundo, que se descobre como finito, e nesse finito percebe inúmeras possibilidades de existir. Mas nenhum caminho seguro e demarcado com pedrinhas brilhantes se revela por si mesmo. Os caminhos possÃveis são todos para serem explorados, e no decorrer podemos nos ferir ou ser ferido. O único caminho livre de espinhos é aquele inventado pelo cristianismo ou pelos arautos de grandes profecias e paraÃsos – que por demais nunca faltou aos homens.
É necessário conviver com os problemas, abraçá-los, acariciá-los e só depois, quando a clareira estiver intensa, quando tais problemas já não nos acometem mais porque o compreendemos ou criamos um mecanismo de apreendê-los, aà sim, devemos buscar a solução ou a resolução de tais conflitos.
Os pensamentos vêm naturalmente quando o desanuviar revela as auroras. Sendo assim, em meio a Händel, Mahler, Dostoiévski, Nietzsche e o inefável, tais como o sussurro das chuvas noturnas, a lua fantasmagórica de um céu sem estrelas, a ternura de um animal e o canto da vida, tenho então cuidado do meu corpo que ao mesmo tempo em que se confrange com a vida que parece desencantada, sabe que, como tantas outras vezes, o ar fresco tão logo anunciará o encantamento do viver, e os pensamentos virão como um turbilhão, desordenados, caóticos e sedentos por entrar na arena novamente: há tantas auroras que não brilham ainda. (Nietzsche)
Aos amigos e estranhos que de alguma forma aparecem por aquà com seus valiosos pensamentos, acrescentando, trazendo novas perspectivas e crÃticas bem elaboradas, fica aà meu aviso: pode ser que o Ego Popular apareça com maior frequência, já que não é preciso mais do que 1 simples neurônio para criar conteúdos que mantenham a vitrine sempre renovada perante as convenções numéricas da internet.
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