em-nome-de-deusImaginemos um deus monoteísta, o deus cristão, ou simplesmente Deus. Suponhamos que ele exista, tal como nos moldes que há milênios são passados de gerações em gerações.

Certo é que Deus também vai sendo modificado ao longo dos anos, de homem para homem, de religião para religião. Mas algumas características são mantidas e aceitas por todas as religiões cristãs. A saber:

Deus é onipotente: de poder absoluto e que, portanto, tudo pode. O imaginável e o não imaginável. Deus é onisciente: de sabedoria também absoluta, nada que exista e não exista não é sabido por Ele. Deus é onipresente: que está presente em todo lugar e ao mesmo tempo. Ele, de tantos nomes e tantos poderes, à semelhança com os desejos dos homens, criou o Universo, as estrelas, os planetas, o homem e todo ser vivo.

Essa resumida descrição dos poderes de Deus parece não ter sofrido alteração ao longo dos anos. Deus é mantido como aquilo que perscruta tudo, sabe tudo, pode tudo. Entre as tantas dissidências dentro do cristianismo, de Deus não se discorda, ele é absoluto e tudo pode.

Agora voltamos àquele que tão fraco e de ínfima ignorância é diante de Deus, segundo os mandamentos: o homem.

Lançamos sobre essa criatura que acredita ser uma espécie superior às outras. Observemos suas relações, consigo mesmo, com os outros de sua espécie e com os animais, com o mundo e todas as coisas, seu saber e suas construções: físicas e espirituais.

Por certo, muito respeito, franqueza e consideração podem ser vistos nas relações entre os seres humanos. Mas quanta miséria não há em todos os cantos?

Homens se matam, degolam, esfaqueiam e dilaceram os membros uns dos outros, por vezes guardam restos cadavéricos em congeladores. Quanta escravidão, física e espiritual, encontramos entre esses seres, uns sendo subjugados por outros em nome das mais vis palavras de verdade. Crianças morrem de fome ou doença quando abrem os olhos pela primeira vez. Pelo homem, milhares de animais são dilacerados, sacrificados, degolados, estripados em nome de Deus ou para o “conforto” da sociedade; são vítimas de testes cruéis e agonizam em nome da ciência; alguns vão para a água fervente ainda vivos para saciar os mais imundos apetites culinários; e tantos outros têm suas vidas cessadas pelos meios mais brutos e torturantes – que fogem ao pensamento daqueles que ainda valorizam uma vida -, em troco de dinheiro. Ah! o dinheiro! o que dizer de tanto sangue e sofrimento causados ante o infinito poder de corrupção dos homens por ele, dinheiro?

E o que são essas poucas palavras, desconexas, por vezes mal elencadas e organizadas ante a dificuldade de se falar de tais coisas, diante do imenso inferno que podemos ver por toda parte, e nos mais recônditos lugares, que lancina e confrange o coração daqueles que amam a vida, e por isso são afligidos a cada ato daquele que também é a sua espécie?

É tanto insulto, tanta penúria e tanta desgraça produzidas pelos homens, na qual não encontramos um único responsável, que por demais, eu desejaria imensamente que Deus, o Todo Poderoso, existisse. Seria tão grato por olhar toda essa desgraça e saber que há um responsável por tudo isso: Ele, o absoluto, criador de todas as coisas, sabedor de todas as situações, que já aconteceram, que acontecem e que ainda irão acontecer.

Ele, como onisciente, saberia de antemão de toda essa ignomínia encenada por homens. Mas, com toda sua onipotência, estaria lá, nos céus, decerto jubilando do mar de sangue proporcionado por esses facínoras. Há muitos ateus que desejariam a existência desse Deus cristão, só para poder acusá-lo por ser um monstro beberrão de sangue, sangue e mais sangue – de homens e animais.

Ah, senhores cristãos, admiradores desse Deus onipresente, onisciente e onipotente, não me venham com a desculpa daquela famosa isenção de responsabilidade do Criador: a crença no livre-arbítrio.

Se um deus fez este mundo, eu é que não gostaria de ser este deus: a miséria aqui presente despedaçaria meu coração. (Schopenhauer)

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