Este pais tão humilde e tão achincalhado, quando sentar na mesa do G-20, certamente será um dos países que terá mais autoridade moral para falar de como se cuida de um país. (Lula)

Assim pronunciou nosso presidente ao participar da inauguração de uma rede de transmissão elétrica submarina em Florianópolis no dia 27. Ainda, segundo o Lula, há muita gente que adora falar mal do que é brasileiro tendo em vista o que é de fora. Caro presidente, levando em consideração que desde 97 a economia desse “país tão humilde” – frisado por V.Sª – é tão benevolente com o capital estrangeiro, tais como grupos de investidores espanhóis, portugueses, japoneses, alemães, estadunidenses, canadenses, franceses… – uma lista que ainda se estende -, fica difícil separar o que é brasileiro e estrangeiro.

Ainda hoje, parado no semáforo, dentro de um automóvel – que nem se compara aos blindados de V.Sª -, um garotinho tão frágil pedia trocados. Um pouco mais adiante, suas irmãs (2) e sua mãe com criança no colo. Mais adiante ainda, em outro local, uma mulher descalça, retalhos que cobriam o essencial dos pudores do corpo, cabelos cor de graxa e emaranhados, tentava a sorte com algumas moedas conquistadas com motoristas que fecham os vidros de seus carros e ficam sem saber para onde olhar – afinal, o que podem fazer? Dar uma moedinha e fingir que está tudo bem? – Ah, é bom lembrar que “fingir”, fazer de conta que tudo vai bem, é uma das coisas em que nossos políticos certamente possuem autoridade para falar.

Mas tais coisas  que se veem pelos semáforos são tão infinitamente ínfimas diante de tantas outras agressividades ao espírito de cada indivíduo que ainda se confrange com as aberrações que a civilização, racional e moderna, produz.

Esse texto é anêmico ante a incapacidade de encontrar palavras para descrever a globalização liberal da desgraça. Mas elas vão surgindo por mais que se queira tapar os olhos. Somos obrigados todos os dias a tomar conhecimento das múltiplas dela desgraça: como a corrupção sem precedentes nas instâncias básicas de uma “democracia”; um sistema de saúde na qual pessoas morrem na fila de espera não porque possuem câncer mortal, mas por doenças das quais a medicina tão facilmente já pode aliviar e até curar; um sistema de segurança que por demais envergonha até mesmo os protagonistas, como muitos policiais que escondem a farda porque temem consequências drásticas se os moradores da própria vizinhança vierem a descobrir suas identidades… e desnecessário é forçar a consciência para vomitar outras questões de autoridade brasileira.

São tantas as imundícies que fazem parte do dia-a-dia de cada brasileiro que eu, talvez um revoltado diante da nuvem de otimismo que paira a cabeça dos agradáveis dias do Lula, diante de tempos tão desvairados na qual a vida escorre como água em peneira aqui e pelos continentes afora, onde só resta o papel texturizado em cifrões e seu infinito poder de corrupção, que por demais meu espírito não daria conta de elencá-los e estraçalharia o meu coração aos poucos. Ficarei a imaginar como um sonhador que um catastrófico meteoro com cerca de 10 vezes maior que a Terra nos brinde com o extermínio total – até mesmo a vida inocente e pura como a dos animais, únicos seres que ainda são capazes de amar e são mortos brutalmente por eles, homens da razão -, para quem sabe aí, o inaudito possa trazer novas auroras que ainda não brilham.

“Esse país” é um termo muito abstrato. Mas esse governo em suas várias instâncias daquilo que se quer chamar democracia, tem muita autoridade para falar de corrupção, desigualdades e sonhos que viram túmulos esquecidos em valas porque não conseguiram sobreviver, quanto mais viver.

O Brasil tem autoridade moral sim, para falar juntamente com tantos países, até mesmo superpotências, de como arrombar os cofres públicos; como matar crianças, jovens e adultos de fome, doenças e violência; como criar cartões postais fantásticos como o carnaval, futebol e litorais paradisíacos sobre extensões de horror; como permitir desmatamentos e atrocidades contra a fauna de lugares que ainda conservam a beleza a que é tão carente a civilização, e tantas outras capacidades já consagradas quando a especialidade é ser brasileiro e não desistir nunca!

Já virou vício do nosso presidente acusar os brasileiros de serem culpados porque são pessimistas e denigrem o próprio país. O Lula ainda não aprendeu que o Brasil desses “baderneiros” não é aquele visto dentro de carros blindados, jatos presidenciais e uma vista, certamente paradisíaca, que nosso ex-metalúrgico que acreditou no Brasil – cof, cof - está acostumado.

Chega a ser coisa de facínora: querer sempre negar pelo menos reconhecer estado tão ultrajante que se apresenta em qualquer canto desse país.

Quanto mais ouço o Lula falar, mais eu creio na genialidade das planárias, bichinhos simples e tão simpáticos.

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