Frequentemente me delicio com a nona sinfonia de Beethoven. Esses dias, ao ouví-la, surgiram-me algumas boas palavras que gostaria de dedicar a ela, no entanto, como não as anotei, certamente a consciência, em seu estado normal, já nem as reconhece. Portanto, deixo aqui as palavras de Schopenhauer, que não são evidenciadas como especificamente a nona sinfonia, no entanto, falar em Beethoven é falar também do “Ode to Joy “.

Resumindo em uma metáfora, a nona sinfonia de Beethoven é o que mais próximo de deus existe. É a expressão mais crua do inefável.

Uma sinfonia de Beethoven descobre-nos uma ordem maravilhosa sob a desordem aparente; é como um combate encarniçado, que passado um momento se resolve num belo acordo: é o rerum concordia discors* - uma imagem fiel e perfeita da essência deste mundo, que gira através do espaço sem pressa e sem repouso, num tumulto indescritível de formas sem número, que se dissipam incessantemente. Mas ao mesmo tempo através desta sinfonia falam todas as paixões, todas as comoções humanas, alegria, tristeza, amor, ódio, medo, esperança, com infinitos cambiantes, e contudo perfeitamente abstratas, sem coisa alguma que as distinga nitidamente uma das outras. É uma forma sem matéria, como um mundo de espíritos aéreos. / Depois de haver meditado longamente sobre a essência da música, recomendo o gozo dessa arte como a mais deliciosa de todas. Não há outra que aute mais diretamente, mais profundamente, porque também não há outra que revele mais diretamente e mais profundamente a verdadeira natureza do mundo. Ouvir tantas e belas harmonias, é como um banho de espírito: purifica de toda a mancha, de tudo que é mau, mesquinho; eleva o homem e sugere-lhe os pensamentos mais nobres que lhe seja dado ter, e ele então sente claramente tudo o que vale, ou antes o quanto poderia valer. (Dores do mundo; Schopenhauer, Arthur. Ed. Edições e Publicações Brasil, 1960. – grifos meus)

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Obs.: só ouça em caixinhas de computador que fazem “zumbidos” em últimos casos ;)

*termo em latim para exprimir a harmonia presente nas discordâncias, literalmente: harmonia discordante das coisas. É uma “doutrina” que o próprio Beethoven utilizava para caracterizar sua obra.
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