Pensamentos, Existencialismo, Trágico, Absurdo, Música, etc.
Como é de práxis a igreja católica se manifestar no dia da mulher, o papa Bento XVI, aquele cadáver medieval em batina luxuosa, voltou a condenar os anticoncepcionais (já havia feito isso na comemoração dos 40 anos da encíclica Humanae vitae de Paulo VI em algum momento de 2008). Não que só o Ratzinger seja um depravado insano a cuspir câncer na sociedade, ele é só mais uma peça demoníaca aguardando seu sepultamento, logo vem outro, e assim sucessivamente a supremacia dos loucos vai tecendo a história dos porta-vozes oficiais dela, imunda por natureza, Igreja. Assim, queiram os senhores fiéis, pelo amor de Cristo, pedir a Deus para que essa instância maior da degradação não queira ainda continuar a levantar voz sobre as coisas que se devem a organização dos homens em sociedade, já há miséria o suficiente nesses lugares para que um nobre caduco se disponha a governar.
Para Bento XVI o anticoncepcional vai contra o objetivo do casamento. É sabido que a igreja vê o cônjuge com a função de procriar, e o anticoncepcional seria uma forma direta de um posicionamento contra a procriação. Mas o papa aceita a anticoncepção natural (sic), ou seja, o fiel que seguir os conselhos do papa, e não quiser ter filhos, poderá sim usufruir dos prazeres da carne enganando Deus através do controle dos ritmos naturais da fertilidade da mulher.
Ora, como se sabe, o cristianismo [e não Jesus Cristo] entre tantos absurdos, é uma religião absolutamente machista; é incontestável essa herança dos grandes patriarcas, embora muitos cristãos costumam dizer que a bíblia evidencia que o marido deve amar a sua esposa, do contrário será pecado. Sobre o assunto, o papa na sua mais recente aparição desagradável, disse que muitos tentam distorcer a visão da igreja sobre as relações sexuais, para ele a mensagem “defende a beleza do amor conjugal em sua forma natural ” (sic – grifos meus). Embora amor não combine em nada com Deus e os mandamentos da bíblia, a igreja usa muito bem esse artífice na tentativa de se safar de seus fundamentalismos. No caso, até se pode dizer que o homem deve amar sua esposa é um ensinamento, desde que ela seja fiel e submissa ao marido que representa o centro da família, do contrário é excomungada.
Essa visão de posse da mulher tão característica de religiões monoteístas, foi também muito apreciada pelo Estado capitalista [e ainda hoje se encontra presente em muitos países], já que era muito mais interessante organizar as pessoas em famílias nucleares, o que vai de encontro a muitas formas de controle exercido pela palavra da verdade . É daí, e somente daí, que encontramos a família nuclear (papai, mamãe e filhinhos) enquanto um valor supremo que ainda persiste em muitas sociedades. Ora, um casal homossexual com filhos [e sem], ainda é execrado em grande parte do mundo.
Outra influência dessa visão da mulher é o amor romântico, absolutamente predominante nas culturas. Nesse tipo de amor o homem pertence a mulher e vice-versa; a fidelidade, um valor criado pelo homem, torna a sexualidade em algo antinatural, isto é, é inconcebível entre os parceiros manter relações sexuais com outras pessoas enquanto estão “namorando”. Para se ter uma noção da dimensão dessa influência, é algo tido como natural até por estudiosos de áreas que devem levar em conta as dimensões biológicas, sociais e culturais do homem.
Mas enfim, guardando esse rico conteúdo para outra oportunidade, detenho-me a mulher dentro do cristianismo. Deus criou o homem do barro a sua imagem e semelhança segundo o código dos loucos; já a mulher só foi criada a partir do homem. Deus, o machão, que nunca manteve relações com uma figura feminina, criou a mulher depois do homem. A mulher é dissidente do homem. A ressonância machista que isso assumiu é imensa e recai sobre toda história de tortura e sofrimento a qual a mulher passou ao longo dos séculos, vindo a “conquistar” – o que ainda não é uma realidade – maior liberdade e autonomia somente a partir do século XX, quando intensificou a luta pela emancipação que veio no bojo de várias conquistas, entre elas o anticoncepcional.
Ainda hoje, é notório o quanto parece que a mulher é diferente do homem, o que fica evidente nas várias situações onde ela é posta em situações de inferioridade. Há leis específicas para mulher justamente porque há essa separação; e os índices de violência contra a mulher sempre permanecem nos patamares, fora as que de alguma maneira não registram queixa: porque não basta apenas separá-la do marido, a situação envolve também uma colocação social pois muitas dessas mulheres sequer tiveram oportunidades para concluir certos níveis de educação e muito menos trabalhar senão dentro do próprio lar.
A nossa cultura é extremamente patriarcal, até as mulheres que se dizem autônomas não escapam de um pensamento machista, é algo inconsciente. Por exemplo, os filhos de hoje continuam sendo educados dentro de uma concepção que estabelece valores específicos para meninas ou meninos (mulher e homem); o senso comum concorda muitas vezes que homens são mais fortes, não choram, pensam diferente da mulher (“respaldados” por diferenças na formação neurológica) e assim por diante; já as mulheres são consideradas sensíveis, frágeis, pensam de outra forma etc., como se homens e mulheres fossem realmente dois seres distintos e não duas invenções criadas pelo homem para a espécie ser humano, que só há uma. Esse tipo de educação estritamente realizado em divisórias, masculina e feminina, é uma própria afirmação da sociedade patriarcal, daí que mesmo que as mulheres tenham conquistado muitas coisas e isso é evidente, as sociedades modernas ainda comportam o patriarcalismo, uma vez que a moral que sustenta tais e tais valores, principalmente envolvendo a sexualidade, permanece intocada em muitos aspectos.
As passagens que confirmam a mulher enquanto objeto do homem na bíblia são várias. Alguns cristãos chegam mesmo a afirmar, ainda hoje, que mulher deve obedecer e permanecer em casa (sic)!
Ora, para além da bíblia que é clara no papel da mulher, quero reiterar que o amor romântico, tão presente na nossa sociedade, costuma ser tão nocivo quanto as palavras de patriarcas de séculos passados. Pensem na fidelidade e na monogamia que são valores tão presentes nos repertórios de mocinhas e mocinhos que se dizem tão comprometidos com os seres humanos em suas várias diferenças culturais, não encontraram terreno tão fértil quanto o patriarcalismo. Daí, talvez, seja necessário a sociedade moderna pensar também duas vezes antes de sentir repugnância com os exemplos bíblicos abaixo.
Não quero dizer que os namorados não devem ser “fiéis” uns aos outros, mas desautorizar essa visão predominante que homens e mulheres têm em relação ao enamoramento. É perfeitamente legítimo que parceiros engajados em namoro sintam atração por outras pessoas, que possam desejar sexo com outros, sair com outra pessoa e depois novamente com a mesma… e uma série de outras questões. Certamente que o tipo de contrato estabelecido entre as partes deve ser claro para que um “polígamo” não venha a frustrar um “monogâmico” e vice-versa. A relação monogâmica que é instituída como a naturalidade entre os homens, deve ser clarificada e posta no seu devido lugar de uma relação antinatural; não há fisiologia alguma que foi criada dentro do princípio da monogamia nem da heterossexualidade. Seres vivos são múltiplos em sua opção sexual. E o homem se é hetero, homo ou bissexual, se é monogâmico ou não, é somente por fundamentações morais que foram instituídas, seja pela religião, pelo Estado ou pelas tribos. Assim, o “reino” dos valores vão sendo cristalizados e muitos nascem adotando tais discursos como se fossem princípios do mundo.
Não há nada mais terrível do que uma besta religiosa sair bradando que o homossexualismo é antinatural, só para citar um exemplo tão gritante em qualquer ponto dessa sociedade. Todavia, em matéria de sexualidade a bíblia é uma completa palração de anedotas brutais e violentas.
Se uma mulher der a luz a um menino ela ficará impura por sete dias. Mas se nascer uma menina, então ficará impura por duas semanas. (Levítico 12:2-8)
As mulheres têm de ser submissas aos vossos maridos. (I Pedro 3:1)
Mulheres, sede submissas aos vossos maridos, como convém no Senhor. (Colossenses 3:18)
A cabeça do homem é Cristo, a cabeça da mulher é o homem e a cabeça de Cristo é Deus. (I Coríntios 11:3)
O homem não foi criado para a mulher, mas a mulher para o homem. (I Coríntios 11:9)
As mulheres devem ficar caladas nas assembléias de todas as igrejas dos santos, pois devem estar submissas, como diz a lei. (I Coríntios 14:34)
Que a mulher aprenda em silencio com total submissão. A mulher não poderá ensinar nem dominar o homem. (I Timóteo 2:11-12)
O marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da igreja. Do mesmo modo que a igreja é submissa a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo aos maridos. (Efésios 5:22-24)
A lista se estende.
*Imagem: Figura Feminina, João Guimarães Vieira, s/data, óleo sobre tela, 71×58.5 cm
Gabriel
março 11th, 2009 at 13:47
Super crítico! Suas análises sobre a sociedade são otimas, sua escrita e seu sarcasmo são bem nietzschinos! Esse texto me lembrou muito “A origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado” do Engels. Recomendo!
adv
março 12th, 2009 at 15:23
@Gabriel: Olá Gabriel, com as ressalvas de que o “nietzschiano” diga respeito somente ao Nietzsche e a mais ninguém, tenho um apreço em não expor os pensamentos em embalagens bonitas para quem sabe chamar atenção do leitor. Minhas influências também nunca foram românticas =)
Esse livro aí está na minha lista de um dia ser lido hehe, já pelo menos umas dezenas de pessoas recomendaram essa leitura. Com alguma noção de Marx e quase nenhuma de Engels, mas se tratando de dois grandes amigos, creio que deve ser uma leitura muito boa mesmo!
Ademais, queira também, por gentileza, se sentir “em casa” quando quiser desferir as críticas no autor desses posts desavergonhados.
Abraço
Gabriel
março 12th, 2009 at 19:10
@adv: Acho que cometi um engano ne! rsrs. Quando falei em “nietzchiano”, queria me referir que sua reflexão parece muito com a de Nietzsche.
Com relação ao livro, é muito bacana! Me surpreendi com Engels. rsrs
Enfim, até mais e muita vida!
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