Estamos desorientados e não sairemos da itinerância. A renúncia ao paraíso está apenas começando. A aceitação da tragédia humana (e, sem dúvida, da tragédia do universo) é a condição sine qua non de toda antropolítica. Morin, Edgar. Para sair do século XX. Nova Fronteira, 1986.

Assistimos a Política, globalmente, ser meramente uma convenção social para aquilo que se chama democracia ou outros “modelos” perante o qual se estabelece que tais pessoas estão preocupadas em “cuidar da sociedade”. Ora, líderes políticos não estão interessados em sociologia, psicologia, antropologia, filosofia ou qualquer subsídio para uma práxis que pense no “bem maior da sociedade” senão em teorias que lhes possam auxiliar em ações que devem ser feitas para que sua popularidade aumente. Vejo um esvaziamento total do comprometimento do homem com seus problemas em sociedade; todos estão correndo atrás de soluções individuais para problemas sofridos coletivamente! O homem se esgotou, o homem matou deus e agora está matando a si próprio: já não aguenta mais olhar ao redor e ver o seu reflexo. A putrefação já começou. O amor fati possível nessa situação talvez seja amar todo esse horror como necessário para que o inaudito rabecão que for recolher os defuntos os lance à casualidade, e quem sabe uma nova raça em situação menos degradante a que chegamos possa vir a existir.

Parece-me que Edgar Morin deixa o jogo em aberto, não podemos esperar a Salvação, mas pode ser que encontremos formas de nos melhorar e salvar mais do que destruir; no entanto, parece-me que o autor ao olhar para a situação global vê que estamos mais próximos da derrocada do que das melhoras. Na minha perspectiva, pode ser daqui a poucas ou muitas gerações, mas o homem se destruirá, não que isso seja uma profecia, apenas uma opinião suscitada a partir da condição humana experienciada em minha existência nas condições da época; e que isso não seja motivo para a inação. Pelo contrário, é elemento para absorver todo esse horror da condição humana a que estamos e fazer de cada instante um comprometimento do Eu com o Outro. Por mais que muitos pensem que possam viver sem o outro, que seus méritos são somente seus e que a miséria do outro diz respeito somente a ele miserável, somos todos atores sociais de uma peça só. Num mundo onde nada se fixa, onde o potencial de destruição é iminente e não há bunker possível, não há nenhuma garantia de auto-sustentação a que se possa abdicar do outro. O discurso de Sartre já dizia que não há uma só ação do homem que não diga respeito a toda humanidade.

Embora eu seja um admirador de alguns pensamentos de Edgar Morin, experiência que se deu a partir da leitura de algumas obras dentro de um vasto repertório de suas publicações, quando parto para leitura de certos artigos científicos de profissionais de algumas áreas que se baseiam no pensamento do autor, o principal expoente do Pensamento Complexo, tenho receio. Parece-me que estão fazendo ciência filantrópica! A crítica se dissolve num jogo de possíveis onde tudo parece ser bem-vindo, restando à lógica formal, se firmar como único saco de pancadas. Ora, há muita gente pintando e bordando um mundo otimista à partir do pensamento complexo. Não que deveriam ser pessimistas, não se trata de ser “isso” ou “aquilo”, mas talvez ousassem ir além do que um falatório insosso de cordialidade civilizatória.

P.S.: Talvez eu não devesse explicações ao pensamento acima, um aforismo por si só não precisa se justificar, é pensamento livre onde o leitor deve se sentir a vontade para jogá-lo fora. Mas cabe aqui um parênteses. Não pretendi desmerecer o pensamento complexo, até porque não sou um profundo conhecedor do mesmo, ainda, muito me agradou o que já li de Edgar Morin; tampouco dizer que toda produção científica que se serve por tais pressupostos seja caduca. Pelo contrário, há muitos artigos subsidiados pelo pensamento complexo que são capazes de “tirar o mundo dos trilhos”. O exposto acima não tem outra prerrogativa senão a minha insatisfação com alguns artigos que li recentemente, dentro das áreas de psicologia e, principalmente, administração, na qual me motivou a tal insatisfação. É necessário colocar o pensamento complexo ao escopo da crítica também, pois não há como se fazer ciência com a simples aceitação e sem visão crítica, e ainda pouco se produziu a essa respeito.

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