Pensamentos, Existencialismo, Trágico, Absurdo, Música, etc.
Junto com o egoÃsmo e a maldade, a piedade também é outro elemento que na perspectiva de Schopenhauer atravessa todas as ações humanas. Não podemos considerar aqui que o filósofo está dizendo que os homens são “bonzinhos” e “piedosos” para com os outros, mas que, junto com seus quantum de maldade e egoÃsmo, a piedade também aflora nas relações. Se o mundo é dor, a piedade pode torná-lo um pouco mais suportável.
A piedade também deveria implicar na relação dos homens para com os animais. Schopenhauer foi um filósofo muito peculiar, os seus próprios escritos o revelam que ele não é um “espÃrito” qualquer. Seria o tipo de pessoa na qual todo corpo teórico da aclamada habilidades sociais dos behavioristas se desmontaria por completo, tornar-se-ia completamente inócuo. De fato, Schopenhauer não lidava muito com as convenções sociais. Com as mulheres o filósofo também não se deu bem, suas considerações sobre o feminino, em vários aforismos, se mostram em crÃticas infundadas. No entanto, mesmo assim, talvez pudéssemos chamá-lo de “filósofo do amor”, o amor é tema central em toda sua obra; certamente que não no sentido romântico, mas enquanto próprio impulso de vida. Dentro desse contexto, da natureza peculiar e solitária, Schopenhauer viveu sua vida “recluso” das pessoas e na companhia de seu cão ATMA (alma do mundo), dizem ainda os exegetas que quando este se comportava mal Schopenhauer referia-se a ele como um “bÃpede”, termo sarcástico à espécie humana.
Assim como Nietzsche, Schopenhauer tinha profunda admiração pelos animais. Não quer dizer que Schopenhauer não gostava do homem simplesmente por não gostar, é necessário tomar o seu contexto, seu pensamento e sua profunda insatisfação com o modo como os homens se organizam e se afligem uns aos outros de modo impactante dentro das condições materiais e espirituais de sua época. Para Schopenhauer, o homem pouco fazia na tentativa de tornar a vida mais suportável e tornarem suas relações mais amistosas.
Muito conforto encontrei em Schopenhauer, Nietzsche e Montaigne na questão do relacionamento entre homem e animal – assunto tão negligenciado entre os vários campos do saber -, vez que desde meus primeiros passos nesse mundo, com meus poucos significados de homens e animais, sofria irremediavelmente por esses seres que para mim é a manifestação mais pura da vida. Ainda hoje me é uma questão nuclear no sentido de desconforto diante da vida, trazendo-me até um certo distancimento com os homens, considerado em seu sentido geral. Assim, escasso de simbólico para tratar dessa questão, restando ao meu corpo se manifestar em suas dores e desprazeres, o que me é a maior prova da psicossomática ser uma ciência tão nobre, abaixo transcrevo partes de um aforismo de Schopenhauer sobre os animais:
A piedade, princÃpio de toda a moralidade, toma também os animais sob a sua proteção, ao passo que nos outros sistemas de moral européia, têm para com eles pouquÃssima responsabilidade e solicitude. A suposta ausência de direito dos animais, o preconceito de que o nosso procedimento para com eles não tem importância moral, que não existem, como se diz, deveres para com os animais, é justamente uma ignorância revoltante, uma barbaridade do ocidente, cuja origem está no judaÃsmo…
É preciso recordar, a esses desprezadores dos animais, a esses ocidentais judaizados, que assim como eles foram amamentados pelas mães, também o cão teve mãe que amamentou. (grifos meus)
A piedade com os animais está tão intimamente ligada com a bondade de caráter, que se pode afirmar que quem é cruel com os animais não pode ser bom.
“Que todos os seres vivos se conservem isentos de dores!” (aspas do próprio autor, talvez indicando que evitem-se as dores afligidas pelo outro no sentido de crueldade, vez que o mundo é dor)
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