casamentoTentando dar uma clarificada na questão do casamento enquanto instituição social, suscitado no texto A mulher na visão da Igreja , deixo abaixo um trecho de um pequeno livro do psicanalista Reich. Embora suas contribuições à psicologia enquanto bases teóricas não vingaram muito, suas colaborações em relação à sexualidade são inegáveis. Questionava a moralidade que atravessa a sexualidade humana em suas dimensões sociais e culturais. Para ele, todos deveriam saber que o desejo sexual por outras pessoas constitui parte natural da pulsão sexual, que não deveria estar subjugada à rigidez da moral.

Parte dos psicanalistas dizem que Reich é uma continuidade de Freud, outros discordam veementemente. A questão é que Reich introduziu o corpo como palavra na psicanálise: o corpo fala tanto quanto o verbal. Também, Reich introduz na psicanálise o princípio da “auto-regulação”, que advém da biologia; nesse sentido, corpo e “mente” formam um todo único, onde afetam-se mutuamente, sendo o organismo dotado de auto-regulação nas suas afetações com o ambiente.

Penso que a questão fundamental levantada por Reich, e que pouquíssimo a Psicologia tem trabalhado, na qual não deixa de ser um tema que eu ainda penso em explorar, diz respeito às torturas e crimes passionais que diminuiriam, assim como desapareceriam inúmeros fatores e causas de perturbações e conflitos psicológicos, caso a perniciosa moral que sustenta a sexualidade humana fosse denunciada e questionada pelas ciências, o que para Reich pouco se tem feito. Enquanto psicanalista e psiquiatra, Reich dizia que as enfermidades psíquicas são consequências da situação de miséria sexual da sociedade, já que a saúde mental depende do potencial orgástico das pulsões sexuais.

Para além de psicanalista e psiquiatra, Reich foi um grande “historiador crítico” do extenso tema da sexualidade. Pesquisou muito a respeito dessa temática na primeira metade do século XX, buscando apontar causas de um estado de miséria sexual a qual os seres humanos estão engendrados. Isso culminou no lançamento do livro “A revolução sexual“, que inclui ainda, além de uma crítica às bases morais da sexualidade, uma experiência na ex-URSS de como a sexualidade poderia ser trabalhada de forma mais satisfatória, o que na época, também não foi isenta de dificuldades. Por fim, Reich era contundente ao dizer que a espécie humana é a única que não satisfaz a naturalidade sexual.

Enquanto a sexualidade ainda é uma questão ocultada por perniciosas morais (escolástica religiosa principalmente), sendo assunto mascarado na família e na sociedade (a idéia de que vivemos tempos de liberalidade sexual não está isenta de uma rígida moral depreciativa da sexualidade), assistiremos jovens e adultos se matarem devido a atmosfera nefasta que gira em torno do “amor romântico”.

Casamento, amor romântico, sexualidade, identidade de gênero e sexo, entre outros, são temas bem amplos quando se pretende tomá-los sob um olhar crítico e que certamente ainda serão melhor abordados por aqui.

“Os diversos autores chegam a buscar os argumentos mais estranhos e absurdos para justificar a manutenção do casamento indissolúvel. Esforçam-se, por exemplo, por demonstrar que o casamento e a monogamia são fenômenos naturais, isto é, biológicos. Procedem a árduas pesquisas entre as espécies animais que, incontestavelmente, vivem sem leis sexuais, para daí isolar as cegonhas e os pombos que – temporariamente – vivem em monogamia, donde logo concluem que a monogamia é ‘natural’. Paradoxalmente, o homem deixa de ser um ente superior, incomparável aos animais, quando se pretende defender a ideologia do sistema de casamento monogâmico. Em contrapartida, quando se discute o casamento do ponto de vista biológico, esquece-se que a promiscuidade é a regra entre os animais; agora, subitamente, o homem volta a ser diferente dos animais e deve elevar-se a ‘um nível superior’ de atividade sexual, ou seja, o casamento monogâmico. O homem, proclama-se, é um ’ser superior’, com uma ‘moralidade inata’, e a economia sexual é combatida, porque demonstra, efetivamente, que essa ‘moralidade inata’ é uma ficção. Ora, se a moralidade não é inata, só pela educação pode ser incutida. Quem realiza essa educação? A sociedade e sua fábrica de ideologia, a família autoritária fundada na monogamia compulsiva. Isso basta para demonstrar que a família não é um fenômeno natural, mas uma instituição social. Quando se tende a admitir que o casamento não é uma instituição natural nem sobrenatural, mas, sim, uma simples instituição social, tenta-se de imediato provar que a humanidade viveu sempre na monogamia, negando-se quaisquer evoluções e mudanças das formas sexuais. Chega-se ao ponto de falsificar a etnologia, para estabelecer a seguinte conclusão: se os homens sempre viveram na monogamia, daí se pode concluir que esta instituição é indispensável à existência da sociedade humana, do Estado, da cultura e da civilização. Omitem-se todos os ensinamentos da história que demonstram terem também existido a poligamia e a promiscuidade sexual, as quais desempenharam papel de grande importância. Mas, para contornar essa objeção, a ideologia monogâmica substitui então O ponto de vista da moralidade inata pelo da evolução.” – REICH, Wilhelm. Casamento indissolúvel ou relação sexual duradoura? São Paulo: Martins Fontes, 1972.

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