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[Fonte dos fatos: BBC Brasil - 19/03/2009] Otto Baxter de 21 anos é ator e nasceu com síndrome de down; sua mãe, Lucy, diz que sempre incentivou o filho a levar uma vida “comum”, não fazendo da deficiência uma problemática ou obstáculo que o colocasse em posição de inferioridade diante da sociedade. O problema é que o discurso da inclusão das pessoas é só um “acessório” aos atores sociais, a realidade é muito mais cruel com as pessoas que possuem algum tipo de deficiência física ou mental.

Assim, Lucy e Otto estão numa luta: conseguir uma namorada. A mãe quer que Otto arrume uma namorada como todas as pessoas “comuns”. Diz já ter tentado agências de relacionamentos e divulgação na internet, o que resultou em fracasso; agora o canal da BBC irá transmitir um documentário sobre a vida de Otto e seu desejo de conseguir uma “namorada”.

Bem, certamente que a “BBC” irá arrumar uma namorada para Otto. A mãe parece ter dado um tiro contra todo seu empenho em fazer de Otto uma pessoa “comum”: as pessoas comuns não têm oportunidade de se mostrar em documentários para conseguir namoradas. Nesse sentido, é difícil dizer se Otto arrumou realmente uma namorada ou a pretendente não deixou escapar uma ótima oportunidade de se mostrar também no palco pós-moderno.

Todavia, o que me chama atenção é uma confusão entre o desejo de conseguir uma namorada ou ter relações sexuais. Lucy diz na entrevista que não deseja que o filho arrume alguém apenas para ter relacionamentos sexuais; por outro lado a notícia escancara que “A mãe de um jovem britânico portador da Síndrome de Down deu início a uma campanha para que o filho consiga ter relações sexuais…” – tudo bem, diríamos que o jornalismo comercial tem a função de distorcer as mensagens, pode ser que não foi bem isso que Lucy disse, por outro lado, Otto, afirma que “Eu realmente quero. Estou numa missão para encontrar uma namorada. O motivo é que eu quero ter sexo. Estou procurando namoradas em todo lugar“. Ora, não há nada de errado em pessoas procurarem namoradas(os) para ter relações sexuais, embora se empenhem com flores, caixas de bombons, elogios e toda “oratória” amorosa, em última instância o prazer dos dois corpos se “devorando” é o que se busca. Schopenhauer era um dos que sabia disso, mas as convenções sociais exigem que as embalagens sejam bem apresentáveis antes de la petite mort. Não me parece que alguém queira arrumar um parceiro(a) para uma relação amorosa sem pensar em sexo, mesmo os mais recatados religiosos praticam no reino da fantasia o que gostariam de fazer no aqui e agora. Mas e pensar em relação sexual sem ter um namorado(a)? Ora, não há nada de errado, para isso há as competentes garotas de programas ou prostitutas (usado aqui sem nenhuma conotação degradativa tal como é usado na sociedade), mas não é algo que faz parte do que as pessoas “comuns” buscam, tal atitude é evidentemente considerada pela sociedade como pertencente ao campo da “anormalidade”. Poderia ser também um amigo(a), mas ainda assim não seria o tão “normal” namorado(a)!

Que Otto e Lucy sejam felizes e consigam realmente atingir seus objetivos. Servirei-me desse ocorrido apenas como ilustração para apontar mais uma vez o quanto a moral implícita no “amor romântico” pode ser nociva. Na situação acima, Otto certamente está sofrendo por não encontrar um par, uma namorada, tal como as pessoas “comuns”. Esse modelo é uma ordem para muitas pessoas, é tão cristalizado que as pessoas agem inconscientemente sem levar em consideração que esse não é o único e “verdadeiro” modelo onde os laços afetivo-amorosos devem se processar, tal como está posto na fala de Lucy quando diz: “Não consigo ver como alguém pode ser um indivíduo completo em nossa sociedade sem participar de tudo de que participamos” – percebe-se algo está se revelando nessa fala. Um dos dados possíveis que se revela parece ser que “alguém” não pode ser “feliz” se não participar da “normalidade” da sociedade, e arrumar uma namorada faz parte da agenda das pessoas “normais”. Certamente, não me cabe e nem a ninguém, julgar os desejos de Lucy e Otto, todavia a situação ilustra o quanto o outro lado, quem não faz parte dos pares românticos, está “marginalizado” perante à sociedade.

Ora, nascemos e somos invadidos por uma cultura que nos diz o tempo inteiro que devemos conseguir namoradas(os) belos, formar belos pares, nos casar e (ainda existe) “ser felizes para sempre”. Esse é o modelo que a maioria de nós conhecemos, creio que ninguém é “apresentado” ao sexo como uma das necessidades dos seres humanos e que ao longo da vida sentimos atração não por uma pessoa, mas por várias (as vezes 2, 3… ao mesmo tempo); e que isso é completamente natural. Ainda, sexo bom é aquele que se consegue dentro dos moldes do amor romântico. Quem não consegue uma namorada(o) é…? Sei que não faltarão opções para o leitor completar as nomenclaturas que a sociedade dá para os “fracassados” no amor romântico.

Relação sexual e amor também podem ser coisas completamente distintas e não somente um fenômeno só, no entanto, há uma moral que só consegue ver a possibilidade do sexo dentro do modelo romântico. Lucy, por exemplo, diz que está disposta a pagar uma prostituta para Otto ter a primeira relação sexual, mas isso é a última carta a ser usada, pois desse modo a imagem de alguém perante certos grupos (familiares, vizinhança, etc.) poderá ser maculada.

No caso de uma relação amorosa rompida, certamente que é normal um certo sofrimento, no entanto isso não é a regra. Há pessoas que caem em profundo desespero diante da perda da amada(o), levando até à consequências trágicas: suicídios ou homicídios. O que está em jogo em uma situação dessas não é o simples rompimento de um vínculo amoroso, mas sim toda uma atmosfera de valor advindas do modelo de amor romântico que não foi possível gozar. O amante não-correspondido se vê diante de uma situação de profundo fracasso e ódio, pois a mesma sociedade que o afaga quando o mesmo desfila de mãos dadas como um “lindo casal” também irá excomungá-lo por ter sido “jogado fora”. Muitos que não possuem namorado(a) podem se sentir excluídos da sociedade, sentem até mesmo pudor em saírem sozinhos em lugares onde “deveria” se estar com um parceiro(a).

Alguém poderá acreditar que vivemos em uma era de liberalidade sexual onde ninguém mais pensa em manter vínculos amorosos por longa data, que todos são livres para ter quantas relações sexuais aguentar querer e com quem quiser. Muito pelo contrário, se por um lado o discurso pós-modernista é uma total liberalidade flutuante diante da vida, inclusive com as parcerias (não mais vínculos) amorosas, o que se busca é sempre um ideal que acena graciosamente nos braços de uma moral que não admite a multiplicidade.

No caso dos relacionamentos afetivo-amorosos, os amantes “passageiros” projetam-se em um ideal amoroso advindo do amor romântico. Não estamos em uma época – como muitos o dizem – que os ideais foram deixados para trás. As condições de vida que pintam homens e mulheres com medo e ansiedade intensos fazem com que os mesmos não possam se estabelecer, se fixar, permanecer e pensar em projetos de longo prazo senão em “viver cada dia de uma vez” porque o amanhã é um espectro vazio e duvidoso; todavia no horizonte inatingível estão os ideais de uma moral identitária.

Para uma configuração de vida que veio no bojo dos grandes colapsos humanos que mostraram a besta terrível e real que o homem pode ser, ou se preferirem simplesmente chamá-la de “pós-modernismo” – não importa aqui o termo mas sim compreender as múltiplas mudanças em relação à onipotente era dos homens (modernismo), o que não o faz ser uma “nova era” -, faz com que homens e mulheres tenham vidas portáteis prontamente para aderir às mudanças que fluem sob um céu carregado de ideais, e a moral ainda se faz como verdade!

Nesse sentido, quantos Ottos e Lucys poderiam não se sentir excluídos e infelizes por não ter um namorado(a) e satisfazer suas necessidades afetivas e sexuais de tantas outras formas? Por outro lado, também é perfeitamente possível que muitos Ottos e Lucys se sintam bem se satisfazendo com namorados(as).

Imagem: L’Âge Mûr de Camille Claudel – Musée d’Orsay – Paris, 2008.

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