Ver aqueles que se dizem “cristãos” como eufóricos nos palcos das ciências humanas a querererem defender suas palavras de verdade advindas de um livro insano é como presenciar a ignorância elevada a sua infinita potência.

Algumas pessoas que tenho conhecido no meio acadêmico – colegas e até mesmo professores -, embora se declarassem como “ateus”, são como fiéis temerários de pecado em confrontar a miséria religiosa que irrompe cada dia mais. O argumento principal é que não devemos generalizar a religião, pois há uma multiplicidade de outros elementos, “positivos” e “negativos”, que fazem parte da fé. Entendo que fé e religiosidade singular é uma coisa, religião, na conotação usual, é outra; em se tratando do ocidente, o termo “religião” em sentido usual traz em tona o cristianismo. Diz respeito às instituições em geral nefastas e nocivas à vida em todas as suas dimensões. É necessário ser contrário sim a certas questões que estão permeando nossa sociedade, e isso não significa ser o “outro lado do fundamentalismo” como costumam se defender certas mentes que adotam um diálogo de aceitação do “tudo” que vem pela frente.

É necessário pensar a multiplicidade, mas isso não significa abrir as portas para tudo que está posto na sociedade, sempre pensando que há os lados “bons” e os “ruins” – há questões que são puramente nocivas, demonstradas categoricamente em suas atuações desastrosas na vida concreta. Aliás, bem se sabe que os pós-modernos adoram colocar o “pensar a multiplicidade” de Nietzsche nos seus assentos do “tudo pode”, nesse sentido é um passo em falso usar o múltiplo como passaporte universal.

A fé e a religiosidade singular devem ser preservadas e respeitadas sim, não temos nenhum argumento para chegar ao vizinho católico devoto e querer argumentá-lo contrariamente à sua fé, ou seja lá qual for a “religião”. Por outro lado, a crítica à religião, ao cristianismo, ao catolicismo, aos “oficiais” que estão por trás de todo esse terreno pantanoso, não só podemos como me parece ser um dever de todo profissional não conivente com as variadas formas de “agressão” à verdadeira multiplicidade das pessoas. É necessário não se acovardar diante da idéia de que a religião por si só já basta para ser mantida guarnecida em recipientes de cristais intocáveis.

Não foi uma nem duas vezes, mas várias as situações onde tive que presenciar discussões em pleno espaço acadêmico porque determinado devoto ali presente se “ofendeu” com algo dito a respeito da “sua” religião; isso foi comum em seminários e apresentações, talvez uma “imaturidade” daquele grupo, mas é bem certo que muitas situações desse tipo acontecem em ambientes acadêmicos. Creio que não é uma questão de “respeitar o outro” e, portanto, recusar-se a ver os danos da religião em vários contextos. Silenciar muito da filosofia e da ciência nas diversas áreas do saber perante à “intocabilidade” da religião é que deve ser combatida: que os santos, anjos, deuses e outras entidades do Além fiquem do portão para fora! Do contrário, se em espaço acadêmico as religiões também serem vistas como “sagrado”, onde mais ela poderia ser abordada dentro de uma visão crítica? – É necessário desmascarar certos medievais da fé intelectualizados, pois o seu sentir-se ofendido com quem pisa no sagrado é antes sim uma inaceitação ao outro e um firmamento de sua palavra como verdade indubitável.

(Quando escrevo tais palavras me vem à cabeça desagradáveis cenas em seminários de colegas nas aulas de desenvolvimento e educação sexual e questões especiais da sexualidade humana onde a religião (cristã), como uma das dimensões inerentes à repressão sexual, era abordada em vários conteúdos e, certamente, evidenciou toda imaturidade do grupo em relação à crença.)

michel-onfray Para finalizar, tais palavras rabiscadas são só uma situação recorrente que clamava por alguma elaboração, por mais “pré-reflexiva” que seja, na qual aproveito para apontar um link onde o filósofo francês Michel Onfray também, entre outras, trás em tona através de uma entrevista concedida a Marta Fantini no Carta Maior , essa questão da religião (institucionalizada) em tempos atuais ser tão pretensiosa quanto em tempos medievais. O filósofo aborda ainda, a questão recente envolvendo o aborto de uma criança, estuprada pelo padrasto, em Pernambuco, na qual, não obstante o sofrimento da família e da vítima diante da situação, ainda fora afligida por um arcebispo que os excomungou. O assunto é contemporâneo e na minha perspectiva se revela como de importância fundamental – por mais que soem os arautos de que vivemos na “era de todas as aceitações”.

A Igreja defendeu a vida ao dar a bênção às bombas atômicas que explodiram em Hirocsima e Nagasaki? Ela defendeu a vida ao dar a bênção às armas que serviram para assassinar os republicanos espanhóis durante a Guerra da Espanha?. A Igreja pretende defender a vida, mas o que ela defende é o poder em vigor. Na verdade, o que fascina a Igreja é a morte. É a morte que lhe interessa.

(…)

Minha proposta é sair da era religiosa e teológica para entrar na era filosófica. É preciso parar de projetar a vida em universos inexistentes para construir a sua existência. Devemos nos contentar com este mundo real, examinar o que podemos fazer de nossas existências nesta vida que é pós moderna, pós industrial, pós fascista, pós comunista e pós cristã, seguramente. O que podemos fazer num período de niilismo? Somente a Filosofia poderá trazer as respostas. Gostaria que os livros de catecismo fossem substituídos, nas escolas, por ateliers de Filosofia, gostaria que todos nós refletíssemos juntos para, pelo menos, provocar a vontade de adquirir conhecimento. Sobretudo para aqueles que ficaram às margens, pois um dia, alguém disse que a Filosofia não era para eles; que ela foi feita para a elite, para a aristocracia e quem não fizesse parte dela, não teria direito a ela.

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Para quem se interessar mais pelo filósofo, recentemente foi publicado no Brasil sua mais atual obra, o fascinante Tratado de ateologia (ed. Martins Fontes).

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