Resumo: busca-se no texto abaixo, utilizando um pouco dos referenciais do filósofo e sociólogo Horkheimer, discorrer sobre o excesso de tecnização do conhecimento e consequentemente sua esterilização enquanto práxis que vincula pensamento e ação como movimento para se apreender a multiplicidade que age sobre dado fenômeno. Nesse sentido, a vida e o homem também se tornam produtos com prazos de validade conforme a técnica vai sendo substituída.

homem-descartavel

Horkheimer foi um dos importantes pensadores que fez parte da Escola de Frankfurt onde junto com Adorno, Habermas, Marcusse, Walter Benjamin e outros sacudiram a civilização no século XX e mostraram um horripilante diagnóstico sobre a humanidade. Uma das mais importantes obras de Horkheimer é a Eclipse da Razão (1955) onde o mesmo faz uma espécie de diagnóstico da forma de pensar do mundo ocidental (hoje, com a intensificação da globalização, pode se incluir também o oriente), que carrega junto com toda a crença do “progresso”, o seu lado de barbárie.

O filósofo usa dois termos para caracterizar as formas da razão, razão objetiva e razão subjetiva. A primeira diz respeito à capacidade de perceber modelos de ação comprometidos com a emancipação humana; já a segunda se refere a uma razão que tende a reduzir tudo a números, índices, fatores, enfim, as formas do homem querer “mensurar” e “calcular” a realidade.

Para ele, a razão objetiva entrou em eclipse cedendo lugar à razão subjetiva que predomina em um mundo sem seres humanos, apenas objetos que se relacionam de acordo com normas que vão se estabelecendo. Nesse sentido, a civilização foi levada à barbárie e à burocracia tecnocrática, em outros termos, trata-se de um racionalismo extremado. Para Horkheimer estamos reduzidos a operacionalidades no cotidiano.

A mesma ordem que se estabelece na economia se estabeleceu entre os homens, deixaram de ser humanos e se tornaram objetos com “preços” tal como os produtos. A vida não é outra coisa a esse homem senão um conjunto de ações que ofereçam a ele o passaporte de participar no meio dos produtos: o homem não é visto senão pela sua capacidade que tem a oferecer em termos de mão-de-obra.

O conhecimento sobre as coisas é reduzido sobre a forma do “como funciona” e não enquanto entendimento em movimento. Nesse sentido, se revela nas nossas vidas aquela ingênua crença de que o importante é a técnica e não a teoria, importa-se os resultados como se fossem concretudes antes do pensar. Para Horkheimer, o homem para tentar superar os níveis alarmantes da barbárie precisa superar a razão estritamente subjetiva. É necessário que o homem pare de agir como se o mundo lhe fosse um grande objeto que ele, com técnica e operacionalização, está inserido.

No entanto, não significa que a técnica deve ser eliminada. Pelo contrário, eliminando a técnica Horkheimer diz que o homem poderá ter problemas quanto a sua autonomia. Contudo, deve-se compreender que o excesso de racionalismo obscurece a razão.

O racionalismo é uma crença que está impregnada na nossa sociedade baseada nas leis de causalidade imediata, uma preocupação exacerbada com os resultados em detrimento do refletir sobre elementos que à primeira vista parecem não existir. Frequentemente se pensa no que é “útil” e “imediato”. Pode-se chamar essa maneira de agir e pensar vinda da razão instrumental, um termo também usado por Horkheimer e Adorno.

A razão instrumental tem se tornado um modo de pensamento único ao homem. Para Horkheimer a razão crescentemente está se transformando somente em operacional, ferramental e unilateral, com fins de controlar o mundo natural, os indivíduos e o meio.

Desse ponto de vista eis que um olhar sobre os homens revela que este é desprovido de significação pois se volta cada vez mais para a funcionalidade. As vidas são despedaçadas e recompostas mecanicamante, e o homem vira somente uma peça para aumentar a produtividade de objetos. Os objetos que deveriam servir para o homem acabam por cercear a vida na medida em que esta se pauta pelas possibilidades dos materiais e ferramentas presentes, incorrendo que homem e objeto se confundem em uma coisa só, isto é, as pessoas singulares são apenas unidades operacionais, que manejam métodos e técnicas, ferramentas e signos.

Com os objetos exercendo domínio sobre o homem, as vidas também se tornam controladas pelos objetos, na iminência de guerras cada vez mais devastadoras, embora seja um homem que em última instância está por trás das “máquinas”, o poder que estas possuem superam os limites do humano, nesse sentido o medo da guerra é o medo sobre o que os artefatos presentes nessa situação podem causar. Assim, o progresso como crença de um desenvolvimento cada vez mais da razão e esta se justificando por si só como algo a ser sempre superado, é também o próprio colapso das complexas produções humanas: a civilização gera também sua própria barbárie.

Pessoas que se confundem como peças possuem papéis também como se fossem programações dadas a elas para cumprirem sem erros. Diz-se então que o homem que “pensa” não é produtivo, que o “teórico” não produz nada de útil, e a reflexão sobre a vida e os homens passa a ser vista como “perda de tempo”. A própria linguagem virou instrumental, tornando-se uma ferramenta cunhada pelos “comunicadores”, fala-se em “comunicação” e não em linguagem.

O homem que inventa a sua própria linguagem através da linguagem, que o faz dela uma arte para moldar-se também como obra de arte, é algo completamente impossível de ter alguma utilidade no palco dos utilitários oradores. A literatura enquanto arte fica retida aos grandes clássicos de homens de séculos passados e a alguns poucos escritores da atualidade que são superados numéricamente pelos comunicadores que publicam livros como se publicam os manuais, desprovidos de significação e criação mas imergidos em um caldo de idéias gregárias e “lições de moral” para se desenvolver enquanto pessoa-utilitária. Nesse mesmo trilho caminham a música e as artes; a música se torna barulho produzida por barulhentos preocupados em fazer coro através dos refugos processados na sociedade, e quadros e esculturas que deveriam ser protegidos e abertos ao público, tornam-se meros objetos a serem cotados em mercados financeiros que movimentam bilhões de dólares e acabam mofando na sala vazia de um homem-vazio ou até a próxima oportunidade de lucro.

Pouco importa pensar sobre os problemas que contribuem para o desenvolvimento do câncer e buscar agir no sentido de diminuir o número de pessoas que venham a desenvolver essa doença, a ciência que também se tornou utilitária movimenta bilhões e o interessante é desenvolver um produto que cure o câncer, uma espécie de “pílula” para os desesperados que puderem pagar e adiar o também utilitário rabecão que está repleto de produtos para quem quiser ser o cadáver mais rico do cemitério.

O conhecimento se transforma cada vez mais em panfletagem, com manuais e cartilhas que ensinam técnicos. O crescimento das universidades e faculdades é em grande parte um aumento da formação de técnicos prontos para serem usados no mercado de trabalho mas completamente vazios para pensar sobre sua própria situação a que está inserido e a condição humana.

O “simplismo”, isto é, a redução da complexidade em operações práticas, passou a ser um ideal universal. O homem utiliza suas bugigangas tecnológicas mas pouco sabe ele situar tal objeto em suas múltiplas dimensões e impactos na vida, sejam eles positivos ou negativos. Até o lazer já não é mais um tempo em que o homem tem para si mesmo onde o devir o mostra se percebendo como um existente, do contrário, é um tempo em que ele ocupa-se de seus plasmas e aparelhos com recursos que ultrapassam até mesmo o que os seus sentidos podem captar, mas o importante é que tais produtos sejam bonitos e deixam a vista em números os seus potenciais, mesmo que muitos dos signos utilizados ele os desconheça.

Dentro desse contexto proliferam os cursos de formação rápida que ensinam algumas técnicas para que o profissional seja inserido em um mercado de trabalho que só se interessa por ele enquanto produto, e assim, ele passa a “matar o seu tempo” conhecendo uma rotina de trabalho previsível dentro daquele rol de aprendizado e habilidades que lhe ensinaram, aguarda o fim de semana onde então se ocupa do tempo aguardando a rotina, repetição até a morte ou até que a sua função já não tenha mais valor dentro da sociedade e ele o seja expulso do trem da globalização que parte em alta velocidade e pouco se importa com quem não consegue se firmar no meio das multidões.

Agravante ainda se torna o ideário de alunos e até mesmo professores que cristalizaram essa mentalidade social e não conseguem fazer conexão com teoria e prática e agir dentro do movimento de uma práxis que vincula pensamento e ação. Anseiam por manuais e cartilhas que o digam exatamente como agir e fazer em determinadas situações, mas como a realidade é muito mais complexa que a teoria eles se veem perdidos e acham que não foram capacitados o suficiente. Ora, certamente que a teoria não dá conta da realidade e isso não é um problema dela mas de quem não sabe “pensar”, cabe ao pensamento e a reflexão fazer o vínculo das teorias com a complexidade do aqui e agora. Quem entra em bons cursos onde o pensamento crítico ainda resiste e a filosofia ainda se mostra como o mais nobre dos conhecimentos, pensando que lá o ensinarão um código de conduta e ação para cada situação encontrada no cotidiano, certamente que serão brindados pela frustração.

Uma teoria se faz por pressupostos retirados dentro de uma determinada universalidade em um dado âmbito e a realidade comporta as singularidades em uma complexidade de âmbitos, no entanto o universal também está presente no singular e o singular no universal. É necessário ter um “pensador” para fazer bom uso da teoria e das teorias para encontrar uma possível superação do problema que se impõe na prática.

Horkheimer diz que a formalização e a instrumentalização da razão levaram à suspensão de conceitos como justiça, tolerância, igualdade e felicidade. Discordando do autor, digo que tais elementos estão impregnados na nossa sociedade, mas não enquanto conceitos que antes necessitavam de um constante movimento do pensar com a filosofia, do contrário, se firmam como valores com significados ideológicos mais ou menos fixos como crenças e desconexos de uma práxis em movimento.

No livro Eclipse da Razão, Horkheimer cita um escravagista americano, George Fitzhugh, que em 1854 disse que “A filosofia está sempre errada e o senso comum sempre certo, porque a filosofia é desatenta e raciocina a partir de premissas estreitas e insuficientes.” Essa frase não está muito distante da nossa realidade e do que é conhecimento na perspectiva anglo-saxão que pensa demasiadamente dentro do pragmatismo. Revela essa frase, entre tantas outras interpretações, que o pensar sem produzir resultados mensuráveis e imediatos não presta, e isso realmente faz parte do conservadorismo da nossa cultura. Os políticos de hoje, em outras palavras, estão sempre dizendo tais conteúdos. As empresas e organizações lucrativas, a grande maioria, só pensam em meios e técnicas para alavancarem seus lucros.

De fato, o verdadeiro conhecimento não se presta somente à utilidade e jamais pode ser resumido em um código de leis, em uma cartilha ou manual de comportamento, como bem o fazem certos estúpidos que vendem “etiquetas” e “comportamentos” nos palcos midiáticos. O verdadeiro conhecimento exige estar sempre em movimento e precisa de homens e mulheres que saibam antes de tudo pensar e agir, não somente agir conforme o que lhe colocaram em seus itinerários. Se por um lado o senso comum se perde apertando botões e aprendendo através de seus plasmas, acostumados a esvaziar suas vidas em cotidianos conformadores, a Filosofia e todo saber das ciências humanas preocupados com o homem e com a vida, poderão ganhar espaço justamente entrando por esses vazios.

A instrumentalização da razão e consequentemente do homem e da vida esvaziou o homem do homem, este se mostra hoje como um produto com utilidade ou do contrário não se presta. O homem moderno e pós-moderno é antes de tudo uma peça produtora de energia mecânica para a produção industrial, ele é um descartável dentro de uma vida que se tem produzido tão descartável quanto ele.

Não significa que o homem deve ser desprovido de técnica, mas que esta não deve ser desconexa de um pensar vinculado com a multiplicidade da realidade. Por demais os homens não só acertam em pensamento e ação, mas podem sim pensar os seus erros e agir em cima deles para desfazê-los e criar novos conhecimentos que potencializem a vida e o homem, não os objetos. Não significa que não devemos possuir razão instrumental, significa que esta em unilateralidade não deve existir, é necessário que o homem volte a ser humano, com suas emoções, medos, insatisfações, tristezas, alegrias e razão. A ética precisa constantemente ser (re)inventada.

Por ora, talvez quando o cheiro dos defuntos estiver insuportável os homens se desconfiem que não são peças e que a vida não é um progresso que se dá através de “controles remotos”.

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