Um “neurótico” (não em estilo freudiano mas enquanto um certo modo de ser-no-mundo – amplamente indefinido mas com alguns contornos possíveis) é um terrorista das idéias. O que Marquês de Sade fez com a sexualidade, o neurótico faz com qualquer idéia, porém, sua guerra de idéias fica mais a nível do seu mundo interior, mas o pensamento de que gozou, ao tentar colocá-lo no papel, pode desaparecer: prolonga-se aqui, ainda mais, a sua masturbação mental. Pode fazer do Universo um monstro à sua caça. De um simples telefonema para dar um recado onde não se consegue por não conseguir falar com quem deseja, seguido de um outro, e mais outro… basta para fazer de seu espírito um vulcão em erupção: clama, então, por querer gritar ao mundo o seu ódio mas se vê intransponível diante da barreira da palavra. “Neuróticos” fazem infindáveis discursos para si mesmos: mudando os discursos passados, e outros que querem que venham a ser. Mas não se pode questionar quanta neurose há em toda arte. Uma poesia, uma pintura, um livro, uma música: podem ser demônios persecutórios que viviam no mundo da consciência – no nada – e conseguiram encontrar formas de expressão. Uma libertação. Mas convenhamos, uma nomenclatura ‘neurótica’ só é interessante na medida em que se toma consciência dela, e percebe em si mesmo uma certa “tendência” para agir em momentos de crise: a tendência de redenção/conciliação no aqui-e-agora à partir do que já foi. Talvez mais neurótico ainda seja o “neurótico” que faz de seu próprio modo “neurótico” de ser o objeto de sua neurose. Eis que gritar: aí está mais um motivo para criar-se/destruir-se.

Certamente que o leitor mais atento perceberá que esse próprio pensamento exposto é neurótico.

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