O homem, a Vida e a Arte

A arte, e nada mais do que a arte, temos a arte para não morrer ante a verdade. – Nietzsche, F.

Ao entrar em contato com a Arte atesta-se então a completa ignorância da Ciência. Com essa frase darei início a algumas considerações primordiais da relação do homem e da vida com a arte. Quero acreditar que a Arte seria a “salvação” do homem pelo homem – e não por alguma divindade de outro mundo. Se Marx um dia disse que o homem está em sua pré-história do desenvolvimento, então penso que seria através da Arte que ele poderá adquirir a maioridade: Arte, que atravessa toda história, mas que infelizmente chega a Modernidade e aos dias de hoje com tão escassa qualidade se levarmos em consideração dois profícuos períodos que atingiu não só a Arte mas várias produções, a Grécia Antiga e o Renascimento.

Quero aqui fazer uma breve explicação: quando uso o termo Arte estou me referindo às suas variadas manifestações, na música, nas pinturas e nas esculturas como formas primordiais, atingindo suas manifestações que dependem da aquisição de uma forma de linguagem mais estruturada, a poética.

Os chamados homens das cavernas com suas pinturas rupestres representavam sobretudo os animais em produções que dariam para “equiparar” com qualquer arte moderna. Picasso, quando viu uma das pinturas descobertas em uma caverna na Espanha, assim se expressou: “Não aprendemos nada!” – Não se pode dizer que os homens das cavernas representam apenas caçadas, suas pinturas não se resumem somente a animais que faziam parte de sua caça, pelo contrário, parece que as pinturas davam vazão a uma espécie de transe espiritual, quando algumas delas retratam os homens com características de animais.

Já na arte pré-histórica as esculturas e as pinturas sempre estiveram intimamente ligada com a figura humana. Nas “sociedades” primitivas, antes mesmo das sociedades mesopotâmicas, encontramos as pequenas esculturas “Vênus”. Classicamente fica a Vénus de Willendorf , descoberta em 1908, como o símbolo da primeira forma de arte já descoberta nesse período. venus-de-willendorf

Um olhar pré-reflexivo sobre essa escultura nos indica que para o homem daquela época algumas partes se destacavam: os seios, a barriga, a vagina e a barriga. Ainda, outras partes são claramente suprimidas ou de pouca importância: ausência de braços, pés e rosto.

Com uma percepção mais elaborada reflexivamente, o que dependeria de uma análise mais cuidadosa de outros materiais do homem primitivo do Paleolítico, é possível dizer que esse tipo de escultura retrata um ideal de fertilidade de certa forma cultuado, ainda, a figura da mulher como principal, o que marca, antes do patriarcalismo, uma sociedade matriarcal. Marca ainda, um período onde o culto era referenciado a uma deusa.

Caminhando largos passos no tempo, encontramos as sociedades mesopotâmicas, sendo o Egito a de maior destaque em produções científicas, espirituais e artísticas.

faraosAs tumbas dos faraós, certamente decoradas pelos melhores pintores egípcios, revelam uma série de figuras aparentemente “normais”, sem grandes exageros. Poderia se dizer que os egípcios produziam seus “faraós” em série, mas alguns elementos merecem destaque nesse tipo de arte: a sistematização dos desenhos, eles são matematicamente proporcionais e são ampliados ou reduzidos em razões proporcionais; e o interesse em mostrar as partes do corpo em vários ângulos, as faces, braços, mãos, pés, bustos, são exibidos em várias posições, com destaque a face de perfil, que parece deixar claro que era a mais admirada pelos egípcios. Sua arte sistematizada mostram que os egípcios antigos eram obsessivos em manter a organização e sistematização dos corpos, refletindo inclusive na disposição e preservação dos corpos mumificados em sarcófagos.

Outros avanços no tempo e chegamos até a Grécia Antiga, os gregos pré-socráticos, para Nietzsche, foram por excelência a civilização que mais utilizou da Arte como imitação da Vida (A vida como obra de arte). Para os curiosos, Nietzsche se refere à Grécia por excelência como “pré-socrática” porque para ele Sócrates veio como um jurista sobre a vida, trouxe a racionalização e o seu reino das verdades, culminando com o fim da Arte trágica.

Para Nietzsche esses helenos potencializavam a vida através da música, da pintura e do teatro; a espiritualidade desses povos era pautada pela aparência em detrimento dos princípios, do advento da verdade que teria como Sócrates o seu fundador, mas que viria a ganhar força sobretudo com o cristianismo e posteriormente com a modernidade.

kritios-boy Com Sócrates as formas, as medidas, enfim, a racionalidade, passa a ganhar mais força entre os gregos. Os gregos nunca foram bons escultores, suas esculturas eram pequenas e cabiam na palma da mão, mas com a “importação” do conhecimento e da cultura egípcia, a arte grega mudou radicalmente. E em 480 a.C os gregos foram os primeiros a criar uma escultura que buscava a realidade do corpo humano, Kritios Boy funda esse marco na história da arte.

Mas como a arte nunca é mera abstração da realidade, bronce-di-riaceestando intrinsecamente ligada com os valores culturais da época, é necessário ter em mente os deuses gregos. Para além de suas virtudes individuais, eles eram “humanos”. Mas não um simples humano, suas potencialidades eram elevadas, assim eram fortes, altos, ágeis e belos. Qualidades que refletiam seus corpos que deveriam expressar a perfeição do corpo humano. E foi com o físico Polyclitus que o grau máximo da perfeição do corpo humano na história da arte foi atingido em uma obra escultura: Bronces de Riace , descoberto em 1972 por um mergulhador italiano a 8m de profundidade. Composta por duas estátuas, este conjunto de esculturas retrata dois corpos nús em uma perfeição jamais conseguida até hoje na arte, e muito menos na realidade. Pode-se dizer que pelo excesso de perfeição dessas duas esculturas é que elas se tornam irreais no retrato do corpo humano. Os gregos estudaram cada parte do corpo, e buscaram em suas esculturas e pinturas, retratar o corpo humano “deusificado”.

Uma coisa em comum podemos perceber nesses períodos e da Arte em geral: a realidade tal como ela é não interessa a Arte. Os gregos antigos atingiram de tal forma a perfeição que ultrapassaram a realidade. Porém, não se pode dizer que uma obra de arte não é capaz de dizer mais verdades a um homem do que páginas e mais páginas de ciência. A Arte une, a ciência moderna separa. A Arte é uma verdade que se sabe ser ilusão, a Ciência é uma invenção que quer ser verdade. A Arte exige as interpretações individuais, é necessário um contemplador a dar sentidos através dela e com ela pintar a própria vida. A Arte pode até significar alguma coisa na história ou aos estudiosos, servir como objeto para teorias e marcos culturais, mas quando se exige dela um sentido ou um significado universal ela deixa de ser arte para ser fetiche: e é essa que parece ter sido a forma de se relacionar com a Arte desde a modernidade. A Arte virou um objeto de valorização, mofa na sala de um milionário até a próxima oportunidade de lucro.

Certamente que a Arte não se resume nessas breves considerações. O período renascentista seria outro e talvez o último período grandioso da Arte até os dias de hoje. Busquei apontar alguns elementos centrais a fim de traçar um paralelo com os dias de hoje: os gregos antigos com sua busca pelo corpo perfeito e nós, homens e mulheres pós-modernos.

Primeiro, uma diferença fundamental: enquanto eles, os helenos, buscavam, através da Arte expressar a perfeição do corpo humano, intimamente ligado com as características de seus deuses (os deuses gregos pontecializavam a vida e não negavam como o Deus cristão, o que implica em uma relação completamente diferente), os homens e mulheres de hoje querem atingir a perfeição fazendo do próprio corpo não uma obra de arte, mas um exigência em suas variadas expressões patológicas.

Ainda, para os gregos antigos a Arte era uma forma de pontecializar a vida, os homens e mulheres de agora denigrem a vida em detrimento de ideais de vida, o corpo humano é projetado em um ideal de corpo a ser atingido – não cultuamos o corpo, apenas um ideal de beleza a ser atingido, o que implica ainda na negação do próprio corpo -, e nessa corrida há uma busca desenfreada para o aperfeiçoamento de cada dimensão que aprenderam a desejar: a espiritualidade comprada nos livros que prometem desvendar os segredos da “mente” para atingir a harmonia e os códigos secretos do bem-estar; as cirurgias plásticas que rasgam e preenchem na tentativa de dar formas de perfeição às mais variadas partes do corpo; uma imensa gama de produtos que prometem a cura, a potencialidade e a beleza através de pílulas, cremes e líquidos: os deuses pós-modernos se revelam em cada embalagem de seus produtos que desfilam imponentes nas prateleiras, seduzindo seus compradores que desejam como se fossem “amuletos” – e consequentemente mágicos – para poderem viver.

Os gregos antigos faziam da Arte uma imitação da vida, os homens e mulheres pós-modernos querem fazer da vida uma imitação da “arte”: porém, uma arte racionalizada e técnica que se apresenta com ideais a serem atingidos para poder então viver a vida. Enquanto os gregos antigos aceitavam a vida tal como ela é, com todo seu sofrimento, dor e alegria, os pós-modernos denigrem a vida em prol dos ideais: estão sempre em busca da felicidade! – O que é a felicidade senão um ideal germinado na modernidade para resumir toda a negação dessa vida!

Há uma idéia de que vivemos na aparência. Muito pelo contrário, essa época é movida, talvez como nunca antes, por ideais a serem atingidos. Um exército de valores pregados por uma moral gregária que despreza a vida: não se ama o próprio corpo, costuma negá-lo na medida em que ele nunca está refletido nos ideais de beleza que querem ser universais; não fazemos festas nem comemorações como alegres convivas e parceiros de vida, comemoramos ideais junto aos amigos e se dá festas para se eleger com valores sociais admirados pelo rebanho.

A Música que na voz de Beethoven, Mozart e outros músicos expressavam o indizível e elevava os espíritos a uma completa integração com a vida, já fora sepultada, e hoje vemos uma proliferação de “barulhos” que buscam o mais elevado grau de barganha do entretenimento fugaz: a fuga da própria vida e da responsabilidade de ser com os outros e consigo mesmo.

O espanto do homem que um dia olhou para o negrume do céu com seus pontos de brilhantes e sentiu invadido por um indizível sentimento, na qual ele, o céu e o mundo faziam parte de uma coisa só, há muito que deu lugar a uma vida pautada pela logística e pelo racionalismo, subjugada em palavra da verdade pela Ciência: céu, homem e universo cada um em seu lugar, repartidos em meros objetos pintados por palavras inventadas como natureza, princípios, ordem, ciclos, elementos e uma indústria infalível de teorias e métodos que afastam cada vez mais o homem de si mesmo, do outro e do Universo.

Certamente que há várias formas de ciência, e pensamentos que buscam religar os homens com os outros seres e com o mundo, como um todo interligado e interdependente; a razão, como bem disse Nietzsche, pode ser utilizada para potencializar a vida, mas por demais, parece-me que estamos de tal forma enredados em um mundo cientificizado e objeticizado, com referência ao deus Capital, que dificilmente o horizonte se revela como mais promissor.

Se querem uma Arte para a nossa época, esta é a arte da negação da Vida, e consequentemente de todos os seres vivos: o cheiro dos mortos começara a se espalhar pelo planeta.

Se o mundo fosse claro, não existiria arte. – Camus, A.

As imagens utilizadas como ilustração nesse texto foram retiradas do site Wikipédia, disponibilizado no idioma inglês.

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